entrevista

Gostava que a ministra se portasse como ministra da Saúde, não presidente do SNS

O CEO do grupo Lusíadas Saúde, Vasco Antunes Pereira (Foto cedida pelo próprio)
O CEO do grupo Lusíadas Saúde, Vasco Antunes Pereira (Foto cedida pelo próprio)

Vasco Antunes Pereira, CEO do Lusíadas, está preocupado com adiamento da saúde em tempos de covid.

O líder do CEO do terceiro maior operador privado de saúde no país admite perdas de 90% nestes tempos de pandemia. Lamenta que não haja uma visão mais abrangente e menos ideológica de todo o sistema de saúde e admite concorrer a PPP. “Se tivermos as condições necessárias, iremos a jogo.”

O Grupo Lusíadas Saúde anunciou 318 500 euros para apoiar as comunidades mais vulneráveis neste contexto de covid, num compromisso total de dez milhões de dólares do United Health Group para o combate internacional à pandemia….
Deixe-me explica o valor, que parece esquisito. O Lusíadas faz parte do United Health Group, maior empresa de saúde do mundo, que determinou o valor de 350 mil dólares (a conversão dá esses 318,5 mil euros) para apoiar a comunidade onde estamos inseridos – e é o primeiro investimento do United nesse sentido. Sabemos que há franjas mais frágeis e procurámos alocar esse valor às entidades com que já trabalhávamos – incluindo nomeadamente a Comunidade Vida e Paz, a Associação de Albergues Noturnos do Porto, o Movimento ao Serviço da Vida, a Associação Crescer Ser, o Refúgio Aboim Ascensão, a Escolinha de Rugby da Galiza e a Santa Casa da Misericórdia de Braga. Consideramos que é nossa obrigação contribuir para ajudar essas pessoas.

E o dinheiro vem dos lucros?
Tudo o que fazemos é retirado de resultados do UHG, que deixam de existir. Neste ano, por causa da covid, é improvável que o Lusíadas chegue ao breakeven, portanto a lógica nem é partilha de lucros mas acrescento aos prejuízos. Consideramos que temos mais capacidade interna de subsistir do que esta população mais vulnerável e queremos partilhar essa capacidade. Veremos como evolui a pandemia – e pode justificar novas ações do United, até para ações mais específicas – e estamos a analisar outros apoios.

O grupo Lusíadas disponibilizou-se para tratar doentes covid, depois a ministra da Saúde veio dizer que só seriam pagos casos encaminhados pelo SNS. O que aconteceu?
A pandemia aqui tem sido diferente, mas antecipava-se em Portugal uma evolução idêntica à de Espanha. Por isso, nós e todos os grandes players privados fizemos uma reunião com a DGS para nos disponibilizarmos para algo que não é um problema do Estado mas de todos. E fizemo-lo muito antes de qualquer discussão sobre dinheiros. , disponibilizámo-nos para ajudar. A seguir houve uma reação ao confinamento e às medidas do governo que ajudou a que não fosse necessário usar os meios todos à disposição. Portanto nós, privados, acabámos por tratar um número até reduzido de doentes covid e o que o governo queria garantir – um maior número de recursos à disposição, nomeadamente médicos, ventiladores, camas, enfermeiros – acabou por não ser necessário. E nessa altura o governo andou um pouco para trás, pensou, temos capacidade para resolver e não faz sentido que uns vão para o SNS e outro para os privados e seja o Estado a pagar tudo. O que não me choca nada. Se a evolução agora no desconfinamento for linear, diria que o SNS, porque travou as cirurgias, tem muita capacidade dentro do sistema, dos hospitais públicos, para responder às necessidades. Mas se a evolução for exponencial não…

Não se devia afastar já os privados…
Os comentários do BE são dogmáticos, torcem os factos – é política. A produção privada caiu mais de 90% e neste momento, o bem social que estamos a fazer é manter toda a gente empregada. Os Lusíadas têm 6 mil trabalhadores e não despedimos uma só pessoa, nem pusemos ninguém em lay-off, não sobrecarregámos o sistema de segurança social. Neste momento, tanto quanto sei, aliás, nenhum dos outros grupos o fez. O que significa, num olhar mais abrangente, que estamos do lado da solução. Pode algum partido dizer que somos parte do problema, mas estamos num Estado de liberdade e todos têm direito à sua opinião. Nós continuamos preocupados com a evolução da pandemia, achamos que a curva de contágio terá de subir para ganharmos imunidade de grupo, e que há populações mais frágeis que temos de proteger mas as outras têm de infetar-se. E isto é o desconfinamento que está a acontecer. Continuaremos cá e disponíveis para ajudar. Naturalmente, dizer uma coisa hoje e desdizer amanhã entende-se, do ponto de vista da evolução da pandemia, mas não os comentários sobre a disponibilidade dos privados desde o início. Política é uma coisa e a dinâmica da organização da saúde para responder às necessidades é outra. Ninguém estava à espera de uma taxa de contágio tão baixa, esperávamos uma situação dramática…

Disse que o SNS atrasou cirurgias, os privados também atrasaram consultas, tratamentos… Quanto estão a custar esses atrasos nas vossas contas?
Posso dizer que a nossa receita privada caiu acima de 90%. As pessoas deixaram de ir às urgências, às consultas, só se mantém a atividade inadiável: gravidezes, tratamentos oncológicos, traumas e tudo o que não pode ser adiado. Tudo isto junto não responde a 10% da faturação do grupo. Estamos claramente no encarnado. Do ponto de vista financeiro, a covid foi uma desgraça para a economia em Portugal e a saúde não é exceção. Nos EUA, o governo já injetou 200 mil milhões nos hospitais para se aguentarem… Nós também vamos ter dificuldades enormes mas ter um acionista da dimensão da United dá-nos segurança acrescida. Todos os concorrentes estão estrangulados e nós vivemos momentos muito difíceis, mas não estamos estrangulados por causa disso.

E que implicações tem esse adiamento na saúde dos portugueses?
A minha convicção é que vamos ter mais ano e meio a dois anos de covid – a vacina tem de ser descoberta, testada, escalada, terá esse prazo provável – por isso temos de aprender a viver com essa limitação. Fizemos uma iniciativa back on track, de assistência de clientes, e a expectativa é que vamos andar a 50%, no máximo 70% da capacidade de antes: não vai haver aglomerados, as salas de espera estarão muito limitadas, o número de doentes dentro dos hospitais terá de ser reduzido… e haverá uma fatura de saúde associada a isto, porque os meios não mudaram e só metade ou dois terços vão poder funcionar. Todos nós deveríamos manter um olhar próximo sobre o nosso corpo e a saúde, que hoje em dia vamos evitando ou adiando dada a conjuntura. E isso, nomeadamente no caso de deteções oncológicas, em que o tempo é crítico, vai degradar os nossos indicadores de saúde a médio prazo. Em Espanha, a assistência a enfartes caiu 40%: as pessoas têm enfartes na mesma, mas não vão ao hospital, não são vistas, e isso terá efeitos dramáticos.

Como se pode prevenir esse efeito?
Nesta crise, todos evoluímos para regimes virtuais de cuidados de saúde, com uma evolução em semanas que demoraria anos – é o reverso da medalha, um ganho de eficácia – e nós continuámos ligados aos clientes, com consultas virtuais – demos mais de dez mil – e temos a máquina montada para um doente que não queira ir ao hospital poder ser avaliado à distância pelo médico – com as limitações que esse modo tem, claro.

É uma solução que vai ficar?
Claramente. Este atraso é uma questão que nos preocupa. O que fizemos e acho que os parceiros privados estão também a fazer, foi divulgar vídeos e comunicados que deem confiança às pessoas, para que agendem consultas, venham ao hospital. Nós temos elevadíssimos graus de segurança, para mitigar o risco, até porque usamos todas as aprendizagens: na semana passada, o UHG organizou uma conference call com médicos de Wuhan para os nossos profissionais saberem como a onda foi passando, nesta reunimo-nos com os da Lombardia para aprender com a evolução de indicadores clínicos, padrões de ventilação e discussão inter-pares, tudo isto visando aumentar o grau de conhecimento entre profissionais de saúde. Temos de posicionar-nos aí, temos de aprender com quem passou por isso, tentar capitalizar esse conhecimento e transmitir a profissionais e doentes normas e graus de segurança.

Neste contexto, entre a covid e as outras doenças que pusemos em espera, vamos ter de olhar para a saúde de forma diferente? Será necessária a complementaridade entre SNS e privados?
Corremos o risco de ter uma fatura muito grande a pagar com o que está a acontecer, nos próximos 24 a 36 meses. Nós já esticámos as operações de quatro para sete dias por semana, numa lógica de conseguir manter uma resposta adequada. Porque estamos de facto perante uma situação muito complexa, que tem de ser bem gerida. Mas a complementaridade, infelizmente, é um tema político. Está claríssimo que o SNS não tem capacidade para dar resposta às necessidades de saúde portuguesas.

Não tem?
Estamos a tentar chegar a acordo sobre o custo da operação hospitalar, que mudou racialmente: há hoje menos capacidade instalada (menos salas e pessoal, porque muitos estão a tratar covid) e operar em contexto desta pandemia é muito mais caro, nomeadamente pela necessidade de equipamento de proteção individual, etc. O que é um problema para o privado será também para o público. O que acho que vai acontecer em virtude da covid é que a forma como nos relacionamos terá de evoluir. Espero que os governantes tenham capacidade de vencer vozes mais dogmáticas e ponham o interesse da saúde acima dos outros. Não temos um bom track record nisso, há um elevadíssimo nível de dogmatismo em Portugal – até porque o nosso SNS é relativamente recente, está muito ligado à liberdade e aos valores de abril e portanto existe uma politização de algo que nada tem de político, que são os cuidados de saúde, o número de pessoas que têm de ter cuidados e a capacidade do sistema de as tratar.

Mas seria importante essa maior complementaridade?
Se me pergunta se o governo a quer ou se antevejo algo parecido a caminho, a resposta é não. Se acho que é absolutamente inevitável que o façamos, sim. Nem temos outra hipótese. Veja-se a ADSE. Há um ano que esperamos que se publiquem as tabelas, se o privado lhe fecha a porta, como vão acomodar aquelas pessoas todas? O privado em Portugal está a ter enorme respeito e sentido de cidadania, porque o ónus está invertido, quem vai ter necessidade é o Estado. Se nós simplesmente não atendêssemos ADSE ou qualquer sistema público, teríamos uma enorme força negocial – mas ninguém o faz, continuamos todos disponíveis para trabalhar com o Estado. Mesmo os nossos concorrentes não se têm precipitado em soluções que podiam parecer mais simples para atingir objetivos. Tem de haver muito bom senso e espero que haja menos política.

Este contexto pode mudar a visão do governo sobe as Parcerias Público-Privadas (PPP)?
Gostava, mas há aí muito populismo e dogmatismo. Eu…respeito todas as opiniões, desde que baseadas em factos, mas há falta de conhecimento sobre o que se fala. Os temas de saúde são difíceis, porque se opera num local que é uma intercessão entre um bem social e um negócio. Se pensarmos bem, a saúde tem de ser sustentável porque não podemos pagar mais impostos. Eu questiono-me, quando vejo a forte implicação da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), sempre em cima dos privados sobre o cumprimento de normas – e bem, é uma tentativa de ser tão seguro quanto possível. Mas teremos nós capacidade para viver num mundo assético? Eu entendo que o exijam, só não entendo que não se exija no público da mesma forma porque não há dinheiro. Porque então caminhamos para uma diferenciação da qualidade da saúde que é prestada. O privado vai seguir as melhores práticas e o público estará isento de cumprir regras. Estes temas são pescadinhas de rabo na boca, mas é impossível pensar a saúde só como SNS. E eu gostava que a ministra se comportasse mais como ministra da Saúde do que como presidente do conselho de administração do SNS. Se olhasse para isto como um sistema, provavelmente teríamos outra abrangência na forma como podemos ajudar.

Já disse que a PPP de Cascais, que é gerida pelo Grupo Lusíadas tendo o contrato sido prorrogado até ao final do ano que vem, não chegou ao breakeven. Há um novo concurso a caminho – em 2021, se não atrasar. O valor de 859,6 milhões até 2029 é justo?
Ainda não se disse qual é o custo público comparado – esse valor é o volume de encargo global nos 9 anos e o custo comparado é o que há de vir no caderno de encargos. Esse valor é o máximo que os privados podem apresentar nas propostas – quer dizer que se fosse acima disso, seria mais barato para o Estado operar ele próprio o hospital. Tendo em conta as poupanças relatadas pelo Tribunal de Contas, a mim parece-me difícil que o custo comparado que venha a ser publicado para Cascais seja abaixo do que é a nossa operação ou o nosso atual custo em PPP… Se tudo for linear e fizer sentido, espero que o caderno de encargos venha com custo público comparado superior ao que é hoje o custo do hospital de Cascais. O nosso contrato em Cascais tem 24% de redução no estudo comparado. Se o Estado fosse mais eficiente a gerir, mas não é o que vemos. Em seis meses de gestão pública, Braga consumiu mais 30 milhões do que se se tivesse mantido privado.

Tem interesse em manter Cascais com as alterações previstas?
Temos, se tivermos as condições necessárias para fazer o projeto como fizemos em Cascais, iremos a jogo. Se o preço ou as condicionantes de negócio apresentadas forem tais que não permitam uma proposta com a qualidade que prestamos, então não iremos a jogo. Braga era insustentável para o parceiro privado: ele tinha interesse em manter se houvesse reformulação do preço durante a transição, para não perder dinheiro, mas isso não foi aceite – e já estoirou. A única outra reversão conhecida foi o Amadora-Sintra e tenho ideia que com resultados também dramáticos para a população. Portanto, vamos olhar e apresentar uma proposta se houver condições para fazer do Hospital de Cascais o que achamos que deve ser, uma referência de saúde.

Já ponderou desistir das PPP e dedicar-se só à área privada?
Emocionalmente, várias vezes ao dia… parece que estamos a fazer um favor a alguém que não nos quer lá. Mas friamente não. Aquilo a que assistimos da parte da Entidade Reguladora da Saúde de Lisboa e Vale do Tejo foi uma tentativa de manter uma relação construtiva, e às vezes não é fácil, a produção legislativa gera um conjunto de indefinições muito cansativas de gerir. Mas acho que a PPP é a melhor solução para um serviço de saúde que todos possamos pagar e que tenha qualidade, sem termos de esperar anos ou que nos deem um voucher para ir ao privado. O que eu queria, como cidadão, era que houvesse mais PPP em Portugal.

E como operador?
Acho que Cascais é um contrato que devia ter sido renovado por um período alargado. Gerir uma operação com 1600 pessoas a prazo é dificílimo, estamos a fazer um esforço imenso. Se alguém a desafiasse para um projeto profissional a ano e meio, ia? É difícil para nós operar aquele hospital desde que nos puseram a prazo – e não havia razão para o fazerem. Nós entregámos os pareceres ao então ministro, não foi essa a decisão e nós temos de respeitar. Estamos a operar um hospital que não é nosso e o dono entendeu que este é o caminho que quer seguir, é o que vamos seguir. Mas como operador, reuníamos todas as condições para podermos conduzir a evolução, em vez de estarmos à espera; a obra provavelmente já estaria feita, já estaríamos a servir a população da Amadora… Não foi essa a opção política.

Está disponível para concorrer a outras PPP?
É a mesma situação: se conseguirmos replicar Cascais, teríamos todo o gosto. Sabemos o que fazemos e achamos que está muito alinhado com a nossa missão de ajudar o sistema a funcionar melhor. A saúde funciona melhor com mais PPP: é mais transparente, mais eficiente, gostava que houvesse mais concorrência.

Os investimentos do grupo foram adiados por causa da covid?
Temos investimento em dois níveis. Nos de operação corrente, houve uma reorganização do investimento, uma reprioritização. Nos 55 hospitais da United comprou-se qualquer coisa como 400 novos ventiladores – só em Portugal foram 52. Estamos a falar de uma reprioritização de verbas – adiámos outras decisões para tomar estas antes. Mas em termos globais, a United não parou os investimentos estratégicos, continuamos na mesma perspetiva. Nós não somos oportunistas de mercado, não estamos aqui para a corrida rápida e haverá naturalmente um conjunto de empresas muito fragilizadas, teremos de dar tempo ao tempo para que se reorganizem. As áreas hospitalares são pesadas do ponto vista dos recursos humanos e há que olhar para isto do ponto de vista mais abrangente.

Há projetos a andar em Portugal?
Temos primeira fase entregue agora do novo hospital que fizemos em Braga, além de um conjunto de beneficiações que levámos a cabo nos atuais projetos e das geografias que estamos a olhar para expandir a rede na mesma lógica pré-covid, que é a de conseguir servir a população nacional de uma forma mais abrangente e mais cómoda. O Lusíadas de Braga é exemplo disso: tínhamos a clínica de Santa Tecla, que era histórica mas que não tinha capacidade de servir na dimensão que queríamos, por isso fizemos uma parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Braga e ocupámos as instalações do antigo Hospital de São Marcos. É uma obra relevante, em que investimos mais de 10 milhões de euros só em equipamentos.

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