Grécia e Portugal: endividados, desempregados e estagnados

Grécia e Portugal partilham, no fundo, as mesmas agruras da austeridade, especialmente da que foi imposta durante os anos da troika. Ambos os países estão agora mais desvalorizados, a tentar sair de uma longa recessão, muito mais endividados que em 2009 e com níveis de desemprego dramáticos, sobretudo entre os jovens. Mas na Grécia, o grau de destruição é superior; a instabilidade política também.

Antes do colapso da dívida soberana, em 2009, e já em plena crise económica global após a falência do banco Lehman Brothers, em 2008, a Grécia registava um défice público equivalente a 15,7% do produto interno bruto (PIB) e já contava com um fardo de dívida impressionante, de quase 130% do PIB (o nível que hoje registado em Portugal).

Há sete anos, Portugal ainda não tinha assumido/transferido inúmeras operações de endividamento da esfera público-privada, pelo que a dívida engordou de 83,7% para 125% (prevê Bruxelas para este ano). Tal como na Grécia, onde o debate da sustentabilidade da dívida e da eventual necessidade de reestruturação é o primeiro ponto da agenda política, também em Portugal há já quem pense nisso.

Entretanto, a ideia de amortizar já os 26 mil milhões emprestados pelo FMI começa a fazer o seu caminho, até para aliviar a pressão sobre a sustentabilidade. Tal como está a Irlanda, aliás.

O défice português era enorme em 2009 (10,2%) e este ano deverá baixar para 3,3%, diz a Comissão. O Governo promete cumprir o pacto de estabilidade e assume a meta de 2,7%.

Mas apesar do endividamento, a Grécia não é, de facto, Portugal.

A organização do sector público é muito mais caótica, o país está a braços com uma situação muito difícil em termos sociais, dado o número muito elevado de imigrantes e de desemprego.

Na Grécia, antes da crise soberana rebentar, o desemprego era inferior ao registado em Portugal (9,5% na economia grega; 10,6% em Portugal). Sete anos volvidos, cerca de 25% da população ativa grega está sem trabalho, quando em Portugal são quase 14%).

A democracia como ameaça

Mas são as eleições e a perspetiva de vitória de um partido anti austeridade, anti troika e anti sistema, que hoje torna a perturbar os gregos. A taxa de juro da República helénica (a dez anos) tornou a disparar, refletindo isso mesmo: ontem estava perto de 9,5%. Em 2009 negociava na casa dos 4,5% e foi catapultada nos anos seguintes até 36%.

Nesse aspecto, Portugal esteve sempre melhor. O país é elogiado por ter um capital de coesão social e política elevado, mesmo nos anos do ajustamento da troika (2011-2014). Em 2009, os juros também andavam na casa dos 4%, no auge da crise chegaram aos 16,4%. Hoje negociam em mínimos históricos de 2,5%, não refletindo em nada o possível contágio que pode vir da Grécia.

Na Grécia, o ajustamento salarial continua. Os salários reais per capita cresciam quase 3% em 2009 (em Portugal chegaram a 5,1%, reflexo de uma atualização do sector público decretada pelo Governo de então). Hoje, ambos os países experimentam uma estagnação do poder de compra do fator trabalho. É uma das faces visíveis da desvalorização interna.

Em 2015, os trabalhadores gregos deverão sofrer, em média, uma redução de 0,2% nos salários reais (descontando a inflação que é zero ou negativa) por pessoa. Em Portugal, esses ordenados vão simplesmente estagnar (0%).

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