Guerra comercial

Guerra cambial? Como se move o renminbi e até onde pode cair

(REUTERS/Jason Lee)
(REUTERS/Jason Lee)

Tensão geopolítica continua a abalar comércio, investimento e mercados. A moeda entrou no arsenal de guerra, mas o seu uso deverá ser limitado.

Até aqui, a moeda chinesa não tem servido de arma efetiva de arremesso nas prolongadas tensões comerciais entre China e Estados Unidos, mas alguns apostam numa escalada para o precipício que determinará que todas as armas são válidas no arsenal das duas potências. O Tesouro americano venceu o impasse e acusa agora frontalmente Pequim de manipular a moeda. As autoridades chinesas pedem marcha-atrás: os EUA devem “controlar o cavalo” à vista do abismo, avisou esta terça-feira o Banco Popular da China.

A moeda chinesa, oficialmente designada como reminbi e que tem como unidade de conta o yuan, passou segunda-feira a marca cambial simbólica dos sete yuans por dólar e o movimento, tal como em verões passados, atirou os mercados por terra. Ontem foi dia de baixas em Wall Street, que hoje já recupera ao sabor de um movimento inverso. O renminbi voltou a apreciar, depois de ter fechado em 7,05 yuans no dia anterior.

Há mais de um ano que Washington e Pequim se digladiam na arena comercial, e também fora dela, sem um desfecho negocial que desmanche as barreiras tarifárias que vêm sido impostas sucessivamente e de parte a parte. A desvalorização de segunda-feira foi vista por vários analistas como resposta à última ronda de tarifas americanas – 10% de custos extra que entram em vigor a 1 de setembro para bens no valor de 300 mil milhões de dólares -, mas a China assegura que não.

“Não há tal questão de manipulação de câmbio, uma vez que, por natureza, a taxa de câmbio é determinada pela oferta e procura no mercado. A recente desvalorização desde início de agosto tem sido conduzida e determinada pelas forças de mercado e reflete alterações na dinâmica de mercado e volatilidade nos mercado cambiais globais”, defende o banco central chinês no comunicado de hoje, atribuindo o movimento da moeda aos efeitos da escalada de tensões comerciais.

O Banco Popular da China alega, aliás, que o renminbi tem sido a mais forte divisas do G20, citando uma análise do Banco Internacional de pagamentos que calcula uma subida de 47% na taxa efetiva de conversão da moeda desde 2005 – ano em que China liberalizou o câmbio, permitindo a flutuação da moeda.

o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirma que as próprias autoridades chinesas “reconheceram que têm amplo controlo sobre a taxa de câmbio do renminbi”. O tesouro norte-americano lembra que o Banco Popular da China retém o controlo do regime de câmbio, se necessário para contrariar movimentos de mercado que sejam prejudiciais à economia do país – como ações especulativas.

Ambas as partes parecem ter razão. As reformas do regime de câmbio do renminbi têm sido graduais no sentido da liberalização, mas as autoridades chineses mantêm uma margem de controlo significativa, e opaca, destinada a contrariar o mercado sempre que o entendam necessário.

Como funciona afinal o mecanismo de câmbio do renminbi?

O regime que verte a moeda chinesa para outras divisas funciona como um regime misto. Oficialmente, é um regime flutuante gerível. E isto significa que o câmbio obedece em parte aos movimentos de procura e oferta, mas com baias que limitam as oscilações diárias. Além disso, há os chamados “factores contracíclicos”, a parte mais opaca do sistema que permite contrariar tendências de mercado na fixação da referência diária de preço da moeda e cujos critérios de determinação não são conhecidos. Na prática, a margem discricionária que leva países como os Estados Unidos a defenderem que a China pode intervir para desvalorizar o renminbi a favor das suas exportações.

A moeda chinesa tem dois regimes de câmbio. Um deles é livre e define o valor das conversões no exterior, com transações reduzidas e maioritariamente em Hong Kong. É o chamado ‘offshore’, com o câmbio designado como CNH. Depois, há o mercado doméstico, onshore, parcialmente controlado, e aquele que releva para as exportações. A sigla de câmbio é o CNY.

Desde 2015, as autoridades fixam diariamente um ponto médio de referência de câmbio que pode oscilar até 2% em qualquer das direções – para cima ou para baixo. Esta referência de câmbio é fixada com base em valores de mercado resultantes das transações offshore do dia anterior e contra um cabaz de moedas internacionais onde o dólar americano conta mais de um quinto. O euro, o iene e o won sul-coreano são as seguintes moedas mais pesadas no cabaz, todas representando parcelas superiores a 10%.

Além dos limites de variação de 2% em ambos os sentidos, em 2017, e perante uma desvalorização profunda da moeda que prejudicou as economias chinesas com uma grande fuga de capitais para o dólar, as autoridades chinesas incluíram ainda os chamados “factores contracíclicos”, usados temporariamente para valorizar o renminbi. Foram progressivamente neutralizados até janeiro de do ano passado, mas recuperados entretanto em agosto com ordem para os agentes cambiais ponderarem os fundamentais da economia ao fixarem a taxa do renminbi frente ao dólar dos Estados Unidos.

Ao longo dos últimos anos, têm sido várias as reformas e ajustamentos no câmbio do reminbi. Desde logo, o mecanismo de flutuação de 2015 garantiu que as equipas técnicas do Fundo Monetário Internacional fizessem uma apreciação positiva, mas não sem reservas, quanto à qualidade e disponibilidade da moeda chinesa com vista à sua inclusão no cabaz de divisas que forma a moeda virtual da instituição – os direitos especiais de saque.

O renminbi, tal como pretendi Pequim há vários anos, adquiriu o chamado estatuto de reserva internacional em outubro de 2016, ao ser acolhido no cabaz do FMI, mas permanece pouco utilizado internacionalmente. Em junho, era quinta moeda dos pagamentos mundiais, valendo menos de 2% das transações, de acordo com relatórios da SWIFT.

Ainda assim, alguma abertura de capitais do mercado chinês tem vindo a promover o renminbi. Portugal, por exemplo, emitiu no final de maio dívida soberana no onshore da República Popular da China – as chamadas panda bonds. O valor do reembolso a pagar pelos cofres portugueses, dentro de três anos, dependerá também da trajetória do renminbi.

A moeda é mesmo uma arma? E tem munições?

Como qualquer moeda, o renminbi tem duas faces. Numa delas, o mecanismo de câmbio parcialmente controlado parece sugerir a facilidade da sua utilização para obter vantagens desleais no comércio internacional – um moeda mais fraca apoia as compras de bens chineses por outros países. Mas, por outro lado, o passado recente mostra que os trambolhões da divisa que leva a efígie de Mao são muito penalizadores para a própria China.

Os efeitos da fuga de capitais da China ainda se sentem e têm, a par das tensões comerciais e do abrandamento da atividade no país, limitado grandemente a atuação externa das empresas chinesas que antes era estratégia apoiada centralmente. O investimento chinês nos Estados Unidos e na Europa atinge agora mínimos, após um período de grande expansão. Isto porque as autoridades centrais introduziram controlos apertados visando grandes conglomerados como HNA, Wanda ou Fosun. Por outro lado, a China perdeu investimento estrangeiro nas suas fronteiras.

Além das restrições à saída de capital, outro dos efeitos da desvalorização foi a venda de reservas de moeda estrangeira da China – nomeadamente, dólares. Este é um volumoso lote que em junho valia 3,1 biliões de dólares, frequentemente visto como mais uma arma contra os EUA no arsenal chinês.

A Capital Economics vê porém a venda das reservas em dólar como pouco provável, notando que a venda acelerada desvalorizaria também as próprias poupanças chinesas.

“Restam à China poucas boas opções com que ripostar aos EUA de formas com as quais não se prejudique a si mesma”, reflete em nota de análise o economista Julian Evans-Pritchard. “Ao invés de retaliações diretas, as autoridades deverão provavelmente focar-se nos seus esforços para medidas alargadas para minimizar o efeito das tarifas dos Estados Unidos, incluindo estímulos políticos e maior desvalorização”, entende.

Já segundo o grupo Eurasia, há “fortes incentivos para não permitir uma rápida depreciação do CNY”. “Primeiro, [a China] arrisca exacerbar as saídas de capital e criar apostas de sentido único no mercado de que haverá maior desvalorização. Esta é uma dinâmica que, como a China aprendeu em 2015 e 2016, é muito difícil de parar”.

Depois, continuam os analistas do grupo, está em causa “a confiança doméstica e internacional na economia da China” e possíveis maiores dificuldades em atrair capitais para o mercado chinês. “Tudo isto diminui a capacidade de Xi Jinping suportar a campanha de pressão de Trump”.

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