Banco de Portugal

Guerra comercial generalizada rouba 2,5% à economia portuguesa até 2020

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal Fotografia: REUTERS/Rafael Marchante
Carlos Costa, governador do Banco de Portugal Fotografia: REUTERS/Rafael Marchante

Banco de Portugal mantém previsões iguais às da primavera. Economia cresce 2,3% este ano, 1,9% no próximo e 1,7% em 2020.

Uma guerra comercial generalizada e muito grave a nível mundial entre os Estados Unidos e outros países teria efeitos muito adversos sobre Portugal, que é uma pequena economia aberta. Um ambiente de retaliação total entre países roubaria 2,5% ao produto interno bruto português em apenas três anos (até 2020 ou meados de 2021, se a guerra começasse entretanto), calcula o Banco de Portugal, num estudo divulgado esta quinta-feira.

Dito de outra forma, todo o crescimento obtido durante um ano (2018, por exemplo) poderia ser anulado num mau cenário como este. Este risco negativo é analisado, mas não foi incorporado nas novas projeções do banco central governado por Carlos Costa, divulgadas no boletim económico de junho.

Banco central mantém cenário da primavera

O BdP manteve as projeções de crescimento económico que avançou em março. A retoma da economia, embora seja considerara relativamente sólida, vai perdendo gás até 2020, reafirma o Banco no novo boletim. Cresce 2,3% este ano, 1,9% no próximo e 1,7% em 2020, em linha com o ritmo esperado para a zona euro, por exemplo.

O crescimento do emprego foi ligeiramente revisto em alta e a taxa de desemprego em baixa (2,6% e 7,2% da população ativa, respetivamente, em 2018).

O BdP diz que “a expansão da atividade entre 2018 e 2020 deverá assentar no dinamismo das exportações e do investimento – revistos em baixa relativamente às projeções de março – e no crescimento moderado do consumo privado – que foi revisto ligeiramente em alta”.

Os perigos de uma guerra mundial no comércio

Mas, de acordo com um outro estudo do Banco de Portugal, publicado neste mesmo boletim económico de junho, “os riscos de um maior protecionismo ao nível das trocas comerciais globais tem vindo a aumentar, impulsionados em larga medida pela retórica e ações recentes dos EUA, bem como pelas ameaças de retaliação dos seus parceiros comerciais”.

Dois cenários

O primeiro cenário considerado pelo BdP, “de guerra comercial limitada, considera uma escalada das tensões comerciais entre os EUA e todos os seus parceiros comerciais”, o que pode levar a “um aumento dos preços de exportação destes países para os EUA de cerca de 10%” e a uma retaliação dessas economias, “impondo tarifas do mesmo montante sobre as importações provenientes dos EUA”.

O segundo cenário, menos provável que o anterior, mas não excluído pelo BdP, “assume uma guerra comercial generalizada, à escala global, em que os todos os países impõem direitos aduaneiros sobre as importações dos restantes, com um impacto sobre os preços no comércio internacional de cerca de 10%”.

Impacto sobre o mundo

No primeiro cenário, de guerra limitada, “o PIB mundial reduz-se 0,7% no final do horizonte de três anos, relativamente ao cenário de base” e “o comércio mundial apresenta uma redução acumulada no mesmo período de quase 3% face ao projetado no cenário base”.

No cenário mais catastrófico, de guerra generalizada, “os efeitos sobre o PIB e sobre o comércio mundial são bastante mais severos, traduzindo-se numa redução de, respetivamente, 2,5% e 9,6%”, calcula o banco central.

Impacto sobre Portugal

Porque Portugal é “relativamente aberto ao exterior”, “a redução da atividade e do comércio a nível global tem um efeito adverso sobre a economia portuguesa”.

“No primeiro cenário, verifica-se uma redução da atividade económica em Portugal ao longo dos três anos que ascende a 0,7%, sendo o efeito nos preços de 0,4%.”

“No cenário mais severo, o impacto negativo acumulado sobre o PIB é de 2,5%, sendo o impacto acumulado sobre os preços no consumidor de 1,4%”, escreve o BdP.

Há vários canais de transmissão à economia portuguesa do referido “aumento das tarifas aduaneiras e da alteração do enquadramento internacional”.

“O efeito mais significativo provém da redução das exportações, via diminuição da procura externa dirigida à economia portuguesa”, explica o Banco.

“A redução das exportações [portuguesas] tem consequências ao nível da procura de fatores produtivos, traduzindo-se numa redução do investimento e do emprego, bem como dos salários reais“.

O BdP aceita, pois, que isto leva diretamente a uma “redução do rendimento disponível das famílias” e que esta conduz a “uma diminuição do consumo privado que é agravada pelo aumento das taxas de juro” e que, “tal como nos restantes países, o aumento das taxas de juro, a par da redução da procura global, traduz-se também numa redução do investimento”.

O mesmo estudo repara ainda que “a atividade se reduz em todas as economias, sendo os EUA o país mais afetado. O impacto sobre a atividade económica nas diferentes economias depende de diversos fatores, em particular, da sua dimensão, do seu grau de abertura e do peso das suas trocas comerciais com os EUA”.

(atualizado às 14h25)

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