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Gulbenkian vende negócio do petróleo e gás. Onde vai investir agora?

A presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Isabel Mota, conversa com o presidente e CEO da PTT Exploration and Production (PTTEP), Phongsthorn Thavisin durante a conferência de imprensa de anúncio da venda da Partex à empresa tailandesa, na sede da fundação em Lisboa
TIAGO PETINGA/LUSA
A presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Isabel Mota, conversa com o presidente e CEO da PTT Exploration and Production (PTTEP), Phongsthorn Thavisin durante a conferência de imprensa de anúncio da venda da Partex à empresa tailandesa, na sede da fundação em Lisboa TIAGO PETINGA/LUSA

A fundação vai encaixar 555 milhões de euros com o negócio e quer continuar a diversificar a sua carteira de investimentos sem privilegiar Portugal.

Gulbenkian não é apenas sinónimo de cultura, arte ou investigação científica. O próprio fundador, Calouste Gulbenkian, criou há mais de 80 anos, em 1938, uma empresa de petróleo e gás que era detida há pelo menos seis décadas pela fundação e que agora foi, finalmente, vendida.

Ontem, a Fundação Calouste Gulbenkian anunciou a assinatura de um acordo para a venda da petrolífera Partex à empresa pública tailandesa de exploração e produção de petróleo PTT Exploration and Production (PTTEP), pelo montante de 555 milhões de euros, cumprindo assim o prazo anunciado pelo presidente executivo da empresa, António Costa Silva, de encontrar um comprador até ao final do primeiro semestre do ano. Na corrida estiveram 14 empresas europeias e asiáticas e a entrega de propostas decorreu até final do mês de março.

A Fundação Gulbenkian tinha já anunciado a sua intenção de sair do negócio da exploração de petróleo, com ativos avaliados em cerca de 457 milhões de euros em 2017 (uma desvalorização de 38,4 milhões de euros face a 2016), com o objetivo de se tornar mais verde e sustentável.

“Esta transação marca uma reconfiguração da base de ativos da Fundação que é investido com o objetivo principal de obter um rendimento atrativo a longo prazo. A recomposição reforçará a diversidade dos seus investimentos e impacto social, em linha com a natureza filantrópica das suas atividades”, considerou Isabel Mota, presidente do Conselho de Administração da Fundação.

Com o fim do negócio petróleo e do gás, fica a questão: onde vai a Gulbenkian investir agora os seus milhões?

Até agora, a Partex representava 18% dos investimentos da Gulbenkian. O que compõe os restantes 82%?
O portfólio de investimentos da Fundação Calouste Gulbenkian é constituído por uma carteira de aplicações financeiras diversificada, nos mercados globais, que só no ano passado gerou ganhos de 10%. Contudo, o ativo da fundação só cresceu 1,4% face a 2016. “A gestão dos restantes 80% dos recursos é feita com prudência e o investimento é alinhado com objetivos de desenvolvimento sustentável. Até agora havia uma concentração muito grande no petróleo. Queremos uma maior diversidade para maximizar os rendimentos”, explicou a presidente da Fundação.

Quanto vale a Fundação Calouste Gulbenkian?
De acordo com o último relatório de contas, o ativo da Fundação era de três mil milhões de euros em 2017 e detinha capitais próprios de 2,6 mil milhões.

Quanto encaixou a Gulbenkian com a venda da Partex aos tailandeses?
A Gulbenkian revelou que a operação terá um valor de 622 milhões de dólares (554,5 milhões de euros). De acordo com Isabel Mota, este valor foi superior à “primeira tentativa de venda” por 500 milhões de euros ao grupo chinês CEFC, cujas negociações acabaram por fracassar. “Relativamente ao montante, foi a melhor proposta que tivemos, não só numa ótica financeira, mas das condições que eram fundamentais para nós”. O acordo deverá estar concluído até final do ano.

Qual foi o resultado financeiro da Partex em 2018?
De acordo com o CEO, António Costa e Silva, em 2018 a Partex teve receitas na ordem dos 420 milhões de dólares e lucros de 37 milhões de dólares. “Todos os anos a Partex produz sempre bons resultados. Em 2018 pagámos 90 milhões de dividendos à Fundação Gulbenkian. Temos sempre feito esse nosso papel”.

Onde vai investir agora a Fundação Gulbenkian?
“A área da energia não pode estar fora de questão, porque é uma das grandes negócios de futuro”, garantiu Isabel Mota. “Relativamente às áreas específicas e aos projetos em que vamos investir, dentro das regras de rigor e boas práticas de mercado, tudo o que tiver a ver com um efeito positivo para os grandes problemas da Humanidade e em particular das alterações climáticas, será uma área em que vamos procurar ver o que o mercado nos oferece. Não está fora de mira, mas não temos ainda uma lista definida”.

As renováveis são uma possibilidade de investimento?
Na visão da Fundação Gulbenkian, as energias renováveis são uma área a que estarão atentos para ver “que oportunidades o mercado oferece”. “Vamos olhar, ver e analisar. Para já, nos próximos seis meses temos de trabalhar no período de transição, para garantir que fechamos a venda da Partex até ao final do ano”, disse Isabel Mota em conferência de imprensa. Garantindo que ainda “não existe uma lista” de novos investimentos verdes para substituir a Partex. “Já temos os nossos consultores internacionais a pensar em novos investimentos. Já temos uma carteira muito diversificada. Mas a atividade da Fundação é independente da forma como se financia. É importante que tenha os recursos necessários para continuarmos a ter a nossa atividade e ampliá-la”, explicou. “As questões ambientais pesam para uma fundação como a Gulbenkian e os investimentos devem estar alinhados com esse propósito. Já tivemos investimentos em energia renováveis no passado, deixámos, mas não foi por desinvestimento. Estamos abertos a novas ideias que privilegiem o melhor rendimento que se possa alcançar, em Portugal ou no estrangeiro”, disse a presidente, sublinhando que “os ativos da Partex não são portugueses, por exemplo”.

A Gulbenkian vai privilegiar novos investimentos em Portugal?
“A nossa ideia é privilegiar o melhor rendimento que possamos alcançar. Não há nenhuma preocupação de privilegiar mercado português. Mas claro que também estamos atentos ao mercado português”, garantiu Isabel Mota.

Em que áreas atua a Fundação Calouste Gulbenkian?
A Fundação Calouste Gulbenkian foi criada em 1956 por testamento de Calouste Sarkis Gulbenkian. É a maior fundação portuguesa e está entre as maiores de todo o Mundo. A Fundação tem como propósito fundamental melhorar a qualidade de vida das pessoas através da arte, da beneficência, da ciência e da educação. Desenvolve as suas atividades a partir da sua sede em Lisboa e das delegações em Paris e em Londres, tendo também intervenção através de apoios concedidos desde Portugal nos PALOP e Timor-Leste bem como nos países com comunidades arménias. A Fundação conta com um museu, que alberga a coleção particular do fundador e uma coleção de arte moderna e contemporânea; uma orquestra e um coro; uma biblioteca de arte e arquivo; um instituto de investigação científica; e um jardim, que é um espaço central da cidade de Lisboa, onde decorrem também as atividades educativas. Em articulação com as atividades culturais, a Fundação cumpre a sua missão através de programas inovadores que desenvolvem projetos-piloto e apoia, através de bolsas e subsídios, instituições e organizações sociais. Para o período 2018-2022, os três domínios prioritários — coesão e integração social, sustentabilidade e conhecimento – deverão ser refletidos em toda a estratégia de intervenção.

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