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“Há perceção de que o sistema fiscal português é extremamente injusto”

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Portugal subiu dois lugares no ranking mundial de competitividade do IMD, passando para a 37.ª melhor posição entre 63 países e territórios.

Portugal subiu dois lugares no ranking mundial de competitividade do instituto suíço de gestão IMD, passando para a 37.ª melhor posição entre 63 países e territórios. O topo da lista, que continua a ser liderada por Singapura, é este ano tomado pela Dinamarca e pela Suíça, com Hong Kong e Estados Unidos a descerem significativamente na tabela.

O diretor do Centro Mundial de Competitividade do instituto suíço IMD acredita que Portugal está preparado para responder à crise e para sair da pandemia numa posição fortalecida. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Arturo Bris defende que serão os pequenos países a conseguirem ser bem-sucedidos.

Portugal conseguiu recuperar posições depois da queda verificada no ano passado. Que fatores contribuíram para este desempenho?
A lição de Portugal para o resto da Europa e do resto do mundo é muito boa. Portugal sofreu muito com a crise da dívida soberana de 2009/2010 e recuperou muito bem. A lição de Portugal advém do facto de haver um incentivo à competitividade do país. A melhoria da imagem do país no estrangeiro, atração de capital estrangeiro, investimento, reformas institucionais, a regulação financeira, etc. e que no final do dia acaba por aumentar a competitividade no curto prazo. Ao mesmo tempo tivemos importantes investimentos em infraestruturas, ou pelo menos, a qualidade das infraestruturas tem melhorado bastante; e também o foco na tecnologia e acima de tudo, o sentimento para fazer negócios em Portugal é muito mais positivo do que noutros países da União Europeia.

Mas ainda há desafios que o IMD identifica?
Claro que estamos numa recessão massiva e existem riscos que Portugal tem de enfrentar. Claro que o país depende muito do investimento estrangeiro, por isso é preciso manter incentivos ao investimento direto estrangeiro através dos impostos, por exemplo. O crescimento do emprego parece ser baixo comparando com outros países da UE, tendo descido significativamente em 2019. E o problema de ser um país com muita burocracia, regulação do mercado de trabalho, criação de empresas, que advém de ser um país antigo. Portugal fez grandes avanços, mas ainda está atrás de outros países. Por exemplo, em termos de regulação do mercado de trabalho, ainda está na posição 53, num universo de 63 países. Tem vindo a cair de forma significativa nos últimos anos. Na justiça aparece em 55. Estas fraquezas institucionais requerem mais atenção por parte do poder político, mas podem ser resolvidas no curto prazo.

Além destes problemas institucionais também identifica políticas públicas como os impostos. Também é uma das fraquezas do país?
Julgo que a situação orçamental em Portugal permitiu atrair capital estrangeiro e isso é muito positivo e deve continuar neste caminho. Claro que o ideal será ter receita fiscal elevada com baixas taxas de impostos, mas isso é muito difícil de alcançar, criando algumas desigualdades internamente e na análise global das políticas fiscais, Portugal surge em 53. Portugal precisa de alterar algumas políticas porque existe a perceção de que o sistema fiscal é extremamente injusto.

A avaliação da competitividade do país ocorreu ainda antes da atual crise pandémica. O contexto é agora muito diferente. Pode haver alterações a seguir a esta crise?
Sem dúvida. Os nossos rankings ainda não incorporam o impacto da pandemia em toda a sua extensão. Os países que conseguirem promover políticas de competitividade podem determinar o seu destino após a pandemia. Os governos são agora mais importantes do que nunca. E boas políticas são agora mais importantes do que nunca. Vemos que Portugal está a numa boa posição uma vez que existe um consenso social, a atração de capital, aumento da produtividade, diversificação da economia, qualidade das instituições. Mas, tal como muitos países europeus, depende muito do contexto europeu e da UE.

E desta vez a UE respondeu de forma correta para responder a esta crise?
As políticas que interessam são as que ajudam as pessoas. Comparando com 2008, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu compreenderam que ajudando as pessoas e as pequenas e médias empresas (PME) podem sair desta crise mais fortes. Não é uma crise financeira, é uma crise puramente económica. Portanto, essas políticas, no limite, devem ter como alvo diretamente os indivíduos. E é isso que a UE tem estado a fazer.

Mas a economia portuguesa nos últimos está muito dependente de alguns setores como o turismo. Pode ser um dos fatores a atrasar a recuperação económica?
Não apenas porque o turismo é importante para economias como a espanhola, a italiana, a grega ou a portuguesa, mas porque vai demorar mais tempo a recuperar. Está muito dependente das expectativas das pessoas e não tanto na remoção de barreiras de circulação. A UE pode fazer tudo o que estiver ao seu alcance, tal como os países individualmente. A rápida recuperação da confiança dos turistas não vai acontecer e esse será o grande problema para os países que dependem muito do turismo.

E o governo português tem dado a resposta acertada a esta crise?
Portugal tem vantagens e desvantagens, é um país pequeno. No ranking deste ano sublinhamos este ponto de que é muito mais fácil para as pequenas economias responderem à pandemia. Os países mais bem-sucedidos: Singapura, Dinamarca, Taiwan, Países Baixos e até Portugal, tendem a ser pequenas economias. Nas pequenas economias é mais fácil chegar às pessoas, alcançar e manter o consenso social que este tipo de políticas necessita. Neste aspeto, Portugal apresenta bons indicadores porque demonstrou ao resto do mundo que conseguem um grande consenso, como uma nação disposta a aceitar os custos da recuperação. Mas – esta é a segunda parte – claro que Singapura, Suíça, Dinamarca, Portugal – todas estas economias dependem em grande parte dos mercados internacionais. Esta será uma das fraquezas. Julgo que as três áreas-chave para continuar a atrair capital, mantendo as cadeias de abastecimento locais e aumentar a dimensão do mercado interno. Por exemplo, no que toca ao turismo, no curto prazo, é preciso desenvolver mercados locais de turismo. Isso implica que as pessoas têm dinheiro para gastar e voltamos à ideia de ajudar as pessoas. Aos poucos precisamos de substituir as cadeias de abastecimento internacionais porque o processo de desglobalização que começou há cerca de três anos vai acelerar com a pandemia.

Em termos globais temos importantes alterações. Os Estados Unidos perderam várias posições. O que aconteceu?
É uma combinação de fatores. É um choque perceber que os EUA já não constam das primeiras cinco economias mais competitivas, o que acontece pela primeira vez em décadas. O principal fator é a perceção do protecionismo com Donald Trump e que vai ter custos no longo prazo. A guerra comercial com a China afetou mais os Estados Unidos, mais pessimismo que afetou o ranking. Em segundo lugar temos a fragmentação social: não apenas por causa dos recentes acontecimentos no Minneapolis e em Atlanta, mas o país está dividido com as eleições que vão ocorrer este ano. Não existe um claro consenso sobre o que certo e o que é errado, em termos de política económica. E finalmente, a pandemia levantou algumas dúvidas sobre a primazia dos EUA como uma economia global. O resultado para os indicadores sobre o sistema de saúde do nosso inquérito é extremamente negativo para os Estados Unidos. A perceção é de que o sistema de saúde norte-americano não conseguiu lidar com a pandemia. Apesar do grande investimento em saúde, o sistema não é suficientemente bom.

E também Hong Kong perdeu várias posições…
O maior risco é a grande dependência da China e a instabilidade na economia vai continuar. Hong Kong já esteve em primeiro lugar no nosso ranking. A maior questão é de que as pessoas não sabem como vai evoluir a economia. Não é um país estável.

A China também perdeu seis posições.
Esta é mais uma prova de que a guerra comercial prejudica os países envolvidos. No caso da China, a pandemia chegou primeiro, e isso reflete-se nos inquéritos e num ritmo mais baixo de crescimento. É consensual de que na guerra comercial com os EUA, o impacto negativo foi maior na China, uma vez que depende mais da economia norte-americana do que o contrário. Isso reflete-se nos valores macroeconómicos. O milagre chinês está, de alguma forma, a aproximar-se do fim, tornando-se uma economia “normal”.

Já referiu este tópico. A globalização, tal como a conhecemos, está ameaçada?
A globalização não significa apenas a possibilidade de trocas comerciais com países distantes. A globalização refere-se a forças e tensões globais, a tendências globais, a riscos e fenómenos globais que afetam indivíduos e empresas numa dimensão maior do que as questões políticas internas. Quando este é o caso, quando estamos demasiado expostos a riscos que não controlamos – isso é a globalização. A globalização é boa, porque reduz os preços dos bens e serviços, mas também nos expõe a riscos. Com a pandemia aprofunda-se uma tendência que já se tinha iniciado em 2016/2017, ou seja, que os países têm de fazer mais por si e isso depende da forma como respondem à pandemia. Portugal, Singapura ou o Chile, por exemplo, vão ficar mais dependentes do que os respetivos governos fizerem e das barreiras que serão criadas. OS países precisam de se diferenciar. Já não existe interesse global. A China vai seguir um caminho, os EUA outro caminho, por isso, Portugal e a União Europeia terão de avançar por outro caminho, criando fatores locais que vão ser mais importante e as políticas locais vão ser mais importantes. A crise da covid-19 vai acelerar este fenómeno.

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