Tecnologia

Howard Yu: “Há vantagens em copiar e não ser pioneiro nas tecnologias”

Howard Yu

Professor e pensador sobre a inovação nas empresas, Howard Yu explica-nos a importância de copiar para inovar e para reinventar negócios.

“Quem mais inova e chega primeiro raramente é quem leva a tecnologia a mais gente, daí que se a China não copiasse a Apple os pobres provavelmente não teriam smartphones”. Chama-se Howard Yu, nasceu em Hong Kong, mas estudou em Harvard até chegar à Suíça, onde se tornou num multipremiado investigador e professor de gestão e inovação para executivos na universidade suíça IMD – também é colunista da Forbes e Fortune. Numa conversa em Lisboa, por onde passou para promover o seu livro Salto (já distinguido pelo Financial Times), Yu falou-nos dos temas mais atuais, da luta entre EUA e China até à forma como as empresas se devem reinventar.

“Se explorarmos a evolução entre indústrias no espaço e no tempo, o que vemos é que as empresas pioneiras, que chegam primeiro a uma tecnologia, são quase sempre deslocadas por quem chega depois e copia”. Yu conclui com a sua pesquisa que a vantagem é em chegar depois e dá os exemplos da Yamaha, no Japão, que destronou a Steinway & Sons ou a Toyota e Honda destronaram a GM e a Chrysler e, mais recentemente, vimos a chinesa Goldwind destronar nas turbinas de vento o líderes alemães da Siemens. “Para uma empresa se manter no topo não basta ter o melhor produto no mundo, porque não há patentes que a protejam, tudo acaba por ser copiado”. Daí que Yu conclua que as empresas devem focar-se em saltar para a próxima evolução tecnológica (mesmo que não tenha sido criada por eles) e não parar no tempo.

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O peculiar caso da John Deere

No seu livro Salto dá vários exemplos de empresas tradicionais que se reinventaram dando esse tal “salto tecnológico”, não se acomodando. O que mais surpreendeu o professor foi a americana John Deere, especialista em tratores para agricultores que começou e enfrentar concorrência low cost da Índia e da China. “O que fizeram em termos de salto para a próxima disciplina tecnológica pode ter dado mais um século de vida à empresa, já que aderiram de forma estratégica à Internet das Coisas”. Através de sensores e de software para análise de dados, bem como uma app evoluída, a empresa criada em 1837 “reúne agora um sem número de dados em composição, colheitas e trajetórias dos tratores” que são usados depois em plataformas de machine learning para reduzir o desperdício e ajustar a velocidade nas colheitas, fazendo ligação às previsões meteorológicas. “Ou seja, é um salto tecnológico que vai além da engenharia mecânica dos tratores, os agricultores passam a fazer facilmente agricultura de precisão, com dados analíticos que os informam da melhor receita para maximizar aquele equipamento”.

Howard Yu dá exemplos semelhantes nos medicamentos ou na indústria automóvel. “Daí que há muitas marcas que estão a aderir aos carros autónomos e às apps de ridesharing, estão em busca da próxima disciplina de conhecimento”.

Nesta era de gigantes tecnológicos, Yu explica também que há cada vez menos espaço para tornar startups em gigantes. “Há muitos estudos que demonstram que quanto mais crescer a empresa, pior é a criatividade por funcionário e a inovação pela estrutura é mais complexa.” Daí que defenda que os governos protejam as pequenas e médias empresas, para que as economias locais se mantenham vibrantes. “É fulcral que a a sua única estratégia [das startups] não seja apenas venderem o negócio à gigante tecnológica.”

O investigador lamenta ainda as políticas atuais nos EUA. “O tempo de separar empresas como a AT&T à força já não existem. Os gigantes tecnológicos são intocáveis nesta altura até pela forma como interpretam as leis de anti-concorrência.” Já da Europa vê bons sinais. “A Europa pode mesmo ter um papel ativo para salvar a humanidade. Embora não possam dividir estes gigantes americanos, podem limitar os seus hábitos monopolistas.”

Yu critica também a retórica americana atual, que tenta colocar o Ocidente contra a China, “que pode provocar uma separação económica catastrófica”. “Como aprendemos na Guerra Fria, a última coisa que queremos é que os dois lados deixem de comunicar, se isso acontecer, deixamos de aprender uns com os outros e não resolvemos problemas graves como as alterações climáticas ou a próxima geração de doenças.” O especialista diz mesmo que há avanços tecnológicos extraordinários, como no 5G (caso da Huawei), vindos da China, que os EUA não devem ignorar.

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