Agroalimentar

Ideias inovadoras a caminho de serem negócios

Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, no Porto. Fotografia: Leonel de Castro
Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, no Porto. Fotografia: Leonel de Castro

Aproveitar desperdícios da fruta, usar películas em vez de tomar um café ou esterilizar com CO2 são projetos prestes a chegar ao mercado.

Ainda não são negócios, estão na fase técnica de “pré-aceleração de projetos”, mas os avanços já conseguidos permitem ver que estamos perante ideias, pelo menos, promissoras, dado o seu caráter inovador na indústria agroalimentar.

O que lhes falta para serem negócios? Investidores ou empresas que assegurem a produção e distribuição em larga escala. Enquanto isso não acontece, vão fazendo-se testes, ensaios e experiências até à exaustão ainda em meio académico, nos laboratórios da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, no Porto, onde todas estas ideias nasceram.

Os três projetos aqui retratados fazem parte de uma lista submetida ao concurso Biotech, cujo objetivo é selecionar ideias inovadoras para o setor agroalimentar, e apoiar a sua transformação em projetos de negócio, explica Eduardo Luís Cardoso, coordenador do curso. É uma iniciativa que é um meio caminho na tão desejada ponte entre a investigação e a indústria.

O concurso conta com o apoio da Portugal Foods e da Associação Nacional dos Jovens Empresários (ANJE) e visa apoiar, pelo menos, cinco equipas, premiando os projetos “+ inovadores” e “+ potencial”.

“Queremos chegar a um conceito mais próximo do mercado. Há que descobrir algo de novo, mas que tenha aplicação prática”, resume Eduardo Luís Cardoso.

Além dos três projetos revelados nestas páginas, há outros igualmente surpreendentes, em diferentes fases da investigação. Prevalece entre eles a preocupação de dar uma nova vida aos desperdícios da indústria agroalimentar. É o caso do projeto MycoBranches, que visa a produção de biomateriais pela ação de fungos nos subprodutos industriais. A ideia é obter painéis leves, mas com elevada resistência à humidade e ao fogo, para embalagens e revestimentos, por exemplo.

Também a pensar nos revestimentos, o projeto Matter – Sustainable and Sensory Design quer aproveitar os resíduos orgânicos agroalimentares e convertê-los em materiais para serem usados na arquitetura, em interiores e no design.

Ainda nos subprodutos da indústria alimentar, o VeggyFlours propõe-se criar farinhas funcionais, de alto valor nutricional e bioativas, a partir de culturas bem portuguesas, como o tomate, a uva e a azeitona. A ideia é que elas proporcionem uma resposta a diferentes necessidades do consumidor. Decorrem contactos com empresas nacionais e internacionais para desenvolvimentos adicionais.

Outro projeto na alçada do Biotech visa obter um spray ecológico, natural e sustentável para a conservação de alimentos, utilizando extratos de plantas. Há a expectativa de que o produto crie uma fina camada impermeável para impedir a degradação do alimento.

Em termos de conservação, há outro contributo, do FRUITTechDSS, que consiste num sistema inteligente de apoio à gestão de um armazém de fruta, por exemplo, com indicação em tempo real das condições de qualidade do produto.

AgroGrIN Tech – Restos da fruta viram produtos nobres

Débora Campos, promotora do AgroGrIN Tech. Fotografia: André Rolo/Global Imagens

Débora Campos, promotora do AgroGrIN Tech. Fotografia: André Rolo/Global Imagens

Indústrias que processam frutas e vegetais vão poder ver nos resíduos orgânicos nelas produzidos uma mais-valia, graças a uma tecnologia desenvolvida na Escola Superior de Biotecnologia e que permite extrair desses desperdícios ingredientes de alto valor económico, como enzimas, vitaminas e polifenóis.

A inovação surgiu no âmbito do doutoramento de Débora Campos, no início de 2015, e tudo começou pelo ananás. Agora, até já tem uma patente europeia aprovada na primeira instância, o que é “muito bom sinal”, diz a promotora do AgroGrIN Tech, assim se designa o projeto, integrado na primeira sessão do programa Biotech.

“Utilizamos resíduos das indústrias que seriam depositados em aterros e agregamos valor económico”, explica Débora Campos, para mostrar como a solução se enquadra na tendência atual de apostar na economia circular. “Esta tecnologia é uma alternativa às atualmente aplicadas na indústria produtora de enzimas, pois dispensa o uso de produtos químicos poluentes e potencialmente tóxicos, cujos resíduos se encontram normalmente presentes neste tipo de produtos (enzimas)”, lê-se numa nota explicativa do projeto.

Por outro lado, a investigadora de 29 anos, nascida em Barcelos, aluna de doutoramento em Biotecnologia e que conta na equipa do projeto com Ezequiel Coscueta e Manuela Pintado, mostra outro motivo para o seu entusiasmo: “Falta transferência de conhecimento científico do laboratório para a indústria, e este projeto vem exatamente neste sentido. Até à data, a aceitação pela comunidade científica e pelas indústrias tem sido ótima e pretendemos continuar a trabalhar neste sentido.”

A tecnologia ganhou ainda outra importância quando, enquanto ideia de negócio, foi selecionada para o programa europeu de aceleração de negócios EIT Food (Food Accelerator Network), na área alimentar, no qual apenas participam 30 ideias de negócio.

O AgroGrIN Tech está agora a dar-se a conhecer às empresas, para arranjar parcerias estratégicas, por forma a crescer e posicionar-se no mercado. Os produtos que advenham da aplicação da tecnologia terão como mercado final as indústrias farmacêutica, nutracêutica e cosmética, enumera a investigadora.

Atualmente, e a par com as restantes tarefas, estão a decorrer duas provas de conceito com empresas nacionais, uma da tecnologia desenvolvida e outra do primeiro produto extraído.

Débora Campos reconhece, no entanto, que a concorrência pode ser forte: “O mercado é muito agressivo, mas somos pioneiros na União Europeia. Temos a vantagem de ter uma tecnologia inovadora, com matéria-prima a custo zero.”

E reforça em favor da sua causa: “A nossa tecnologia permite ser verde, rápida e barata, aliada a uma elevada qualidade dos produtos extraídos, com elevado grau de pureza.”

OraLeaf – Uma alternativa para tomar cafeína

Patrícia Baptista, uma das promotoras do OraLeaf. Fotografia: André Rolo/Global Imagens

Patrícia Baptista, uma das promotoras do OraLeaf. Fotografia: André Rolo/Global Imagens

E se em vez de tomarmos um café fosse possível colocarmos na boca uma película fina com os mesmos ingredientes, incorporados em nanopartículas, de forma a garantirem uma libertação controlada e lenta, para sentirmos os efeitos benéficos durante mais tempo e sem os efeitos secundários indesejáveis?

E se estas finas películas se desintegrarem em cerca de 30 segundos, quando colocadas na boca, em contacto com a saliva?

Sim, essa tecnologia já existe e chama-se OraLeaf. Está a ser desenvolvida por uma equipa de investigadores da Escola Superior de Biotecnologia, cujos promotores são Patrícia Baptista e Pedro Castro, aos quais se juntam Ana Raquel Madureira, Bruno Sarmento e Manuela Pintado (líder do projeto).

A inovação resultou de um projeto que obteve o financiamento da Fundação de Ciência e Tecnologia, em 2016. No modelo inicial, começaram por incorporar cafeína numa película fina e, depois, usaram a mesma base para outras substâncias, como um péptido anti-hipertensor e um péptido relaxante.

Candidataram-se ao Biotech porque “a finalidade era desenvolver um produto comercial”. E embora ainda esteja em fase de otimização do protótipo, já tem interessados.

“Precisamos de um parceiro para desenvolver o produto em grande escala”, refere Patrícia Baptista. Para adiantar serviço, já formalizaram um pedido de patente europeia e preparam oitos artigos científicos, metade dos quais já foram publicados.

A investigadora reforça: “Falta-nos um parceiro que apoie a reta final do estudo e garanta a produção e distribuição em larga escala.”

Para convencer potenciais interessados aponta como vantagens da invenção “a libertação das substâncias de forma controlada ao longo do tempo, o que permite evitar sobredosagens ou infradosagens e os efeitos nefastos associados”.

Dá o exemplo de “um cirurgião, que tem de ter as suas capacidades intelectuais atentas ao longo de um período considerável de tempo e não pode interromper a cirurgia para tomar café. Numa situação dessas, poderá, em alternativa, recorrer ao nosso filme, porque é absorvido de forma lenta e produz efeito durante mais tempo”, exemplifica a investigadora.

E quem diz um cirurgião, diz um camionista – continua Patrícia Baptista -, por se poder defrontar com a mesma necessidade de cafeína e a mesma impossibilidade de parar para a tomar, e assim obter um efeito físico e intelectual que o ajude na condução.

Mas o que é essa película? A investigadora, natural da Guarda, de 38 anos, doutorada em Biomedicina, fecha-se em copas. É aí que está a verdadeira alma do negócio.

O filme impregnado de cafeína não substitui o ato social de tomar café com os amigos, é um facto, mas garantirá o mesmo efeito da bebida, em termos físicos e intelectuais, por mais tempo.

Criticalster – Técnica inovadora para esterilizar

Gonçalo Soares, promotor do Criticalster. Fotografia: Ivo Pereira/Global Imagens

Gonçalo Soares, promotor do Criticalster. Fotografia: Ivo Pereira/Global Imagens

A equipa envolvida no projeto Criticalster está a desenvolver um processo de esterilização que introduz como inovação o dióxido de carbono no estado supercrítico. “A nossa técnica permite acabar com microrganismos multirresistentes”, assegura Gonçalo Soares, promotor do projeto, integrado na iniciativa Biotech.

Até à data, explica o investigador, para esterilizar alimentos ou dispositivos médicos, como próteses ou implantes, têm vindo a ser usadas técnicas onde é aplicada elevada temperatura, que tem a desvantagem de degradar tecidos biológicos e materiais sensíveis. São também usados agentes químicos (potencialmente cancerígenos) ou, ainda, a radiação gama, nefastos também para os tecidos biológicos.

Gonçalo Soares, 24 anos, bolseiro de investigação e natural de Arcozelo, Vila Nova de Gaia, pretende apresentar ao mercado uma nova forma de esterilizar, sobretudo, material biológico sensível, que supere os inconvenientes das técnicas convencionais mencionadas.

O dióxido de carbono é utilizado a uma temperatura próxima da do corpo humano, num estado que designam por “supercrítico”. A esterilização tem de garantir que é eficaz ao ponto de destruir esporos de bactérias (estruturas altamente resistentes que estão dormentes até terem condições para germinar). Estes são os requisitos standard para que qualquer processo de esterilização seja aceite pelas entidades reguladoras.

Segundo Gonçalo Soares, a vantagem do novo processo reside precisamente na temperatura, no facto de ser uma técnica inerte e de o agente esterilizador não ser tóxico.

“Pelas suas características, o novo processo pode ser usado na esterilização de tecidos biológicos, como implantes ou próteses, de novos biomateriais e de dispositivos médicos de uso único, como cateteres, com a vantagem de poderem ser reutilizados em segurança.”

Há mais de um ano e meio dedicado a 100% a este projeto, Gonçalo Soares adianta que já têm parceria com uma empresa norte-americana, a NovaSterilis, líder mundial na produção de equipamentos para esterilização com CO2 supercrítico, e com Paulo Amado, coordenador da Unidade de Medicina Desportiva e Artroscopia Avançada do Hospital Lusíadas Porto. Está em preparação uma parceria com o Hospital de S. João.

Por agora, ainda não há nenhuma patente, porque estão em fase de testar produto a produto. As patentes serão pedidas em função de um produto específico.

Mas já prestam serviços a empresas, como a portuguesa Stemmatters, a inglesa Gelexir e preparam negociações com a multinacional B-Braun.

Liderado por Ana Leite Oliveira, investigadora principal, o projeto conta também com a participação da investigadora Nilza Ribeiro, pos-doc, e o aluno de mestrado Fábio Pinheiro, todos da Escola Superior de Biotecnologia.

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