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Ilídio Pinho: O empresário que nunca se reformará

Ilídio Pinho, presidente da Fundação Ilídio Pinho e da IP Holding SGPS
Ilídio Pinho, presidente da Fundação Ilídio Pinho e da IP Holding SGPS

Fundador da Colep e da Fundação Ilídio Pinho é esta quarta-feira distinguido com o Doutoramento Honoris Causa da Universidade de Aveiro. Conheça o homem, o empresário e o empreendedor

Um empresário nunca se reforma, é uma das máximas de Ilídio Pinho, o empresário de Vale de Cambra que construiu um pequeno império a Norte, com interesses na indústria, na banca e nos serviços, e que o vendeu para criar a Fundação Ilídio Pinho, em homenagem ao filho Ilídio Pedro, que faleceu num acidente de viação na Suíça, para “colocar a ciência ao serviço da valorização humana, do desenvolvimento económico, da promoção da cultura e da solidariedade entre gerações e povos”. Esta quarta-feira, Ilídio Pinho recebe o Doutoramento Honoris Causa da Universidade de Aveiro, na cerimónia de abertura do ano da Academia.

“O Eng. Ilídio Pinho é um empresário de grande relevo a nível nacional e internacional, com uma forte participação no meio empresarial, como empresário, dirigente associativo e autarca. Os diversos cargos de elevada relevância empresarial que tem vindo a assumir ao longo dos anos, como fundador, acionista ou presidente, e os vários negócios diferenciados e internacionais que tem promovido e impulsionado, atestam as suas multifacetadas qualidades de empreendedor criador e de inovador organizacional e a sua invulgar capacidade de pensar e antecipar o futuro”, destaca a Reitoria da Universidade de Aveiro, em comunicado. Acrescentando que a criação da Fundação Ilídio Pinho espelha o seu “caráter de benemérito de exceção e de humanista profundo”.

Ilídio da Costa Leite de Pinho nasceu em Vale de Cambra a 19 de dezembro de 1938 e tirou o curso de Engenharia Electrotécnica e Máquinas no Instituto Industrial do Porto, hoje Instituto Superior de Engenharia do Porto. Filho de Maria da Assunção Costa Leite de Pinho, cuja família tinha negócios na indústria do leite, e de Arlindo Soares de Pinho, de origens humildes e que criou um negócio de oficinais durante a Segunda Guerra Mundial e que, mais tarde, se transformaria na Arsopi, Ilídio Pinho desentendeu-se com o pai, que não aprovava os seus projeto de construir uma fábrica de latas, proibindo mesmo os irmãos de serem seus sócios, e criou a COLEP (acrónimo de Costa Leite de Pinho) com dinheiro emprestado por familiares. Não admira, por isso, que seja um homem “muito rigoroso e exigente” e com a consciência de que “o dinheiro custa muito a ganhar”. O que “mais o irrita” é o desperdício, garante quem com ele trabalha.

Nunca escondeu as suas origens e, em entrevista ao Diário de Notícias, chegou a dizer: “É verdade. Eu fui um latoeiro. A Colep começou com máquinas em segunda e terceira mão. Eu não tinha dinheiro, portanto comprei máquinas usadas, em segunda, terceira mão. Comecei a produzir latas para bolachas, que depois levavam rótulos”. Parcerias com a Triunfo e a Vasco da Gama permitiram-lhe ascender à liderança do setor. Seguiram-se as embalagens de vernizes e tintas, lubrificantes e outros segmentos, transformando a Colep num líder europeu de embalagens para fins industriais.

O passo seguinte foi a diversificação, alargando a sua área de influência à energia, aos transportes, aos laticínios, plásticos, papel, ao imobiliário e às finanças. Foi fundador do Banco de Investimento Global, da Lusitânia, do Banco Nacional de Investimento e da Global – Companhia de Seguros, e promotor e membro do conselho de acionistas do BCP – Banco Comercial Português e da CISF – Companhia de Investimentos e Serviços Financeiros, entre outras empresas do setor financeiro. Foi acionista do BES, da EDP e da Companhia de Eletricidade de Macau, designadamente.

A morte do filho, aos 22 anos, que preparava para ser seu sucessor abalou-o e levou-o a vender o grupo e a criar a Fundação Ilídio Pinho, uma década depois, em 2000. Mário Soares, João de Deus Pinheiro, Vítor Melícias, Valente de Oliveira, Tavares Moreira, António Borges, Couto dos Santos e Horta Osório foram algumas das personalidades que integraram o Conselho Superior da Fundação. Ao Dinheiro Vivo, Ilídio Pinho defendeu que é obrigação de um empresário assegurar as condições de continuidade do que criou: “Gradual e progressivamente fui entregando as empresas e outros e não estou arrependido, porque continuaram a desenvolver-se e a ter sucesso e eu fui fazer outras coisas. Criei a Fomentinvest, a Ciencinvest, criei uma fundação da qual me posso orgulhar e que tem feito coisas extremamente úteis para o país. Deixei de viver só para o meu umbigo para ser útil a Portugal”.

Couto dos Santos, CEO da Fomentinvest – onde Pedro Passos Coelho chegou a ser administrador, no tempo em que a empresa era liderada por Ângelo Correia – , elogia-lhe a visão estratégica e a intuição nos negócios. “Ele aplica os princípios fundamentais de um bom manual de gestão de uma forma quase intuitiva. Ele ‘cheira’ [os negócios] e sente intuitivamente se as pessoas que com ele trabalham lhe merecem confiança. Detesta a burocracia e não admite que se gaste um cêntimo mal gasto. Aliás, vive, em termos de gestão e de poupança, como se não tivesse nada”, diz. Sobre o homem, garante que, “ao contrário do que possa parecer”, é muito humanista. Grande defensor dos valores da família e da amizade, é, também, uma pessoa simples e humilde, mas muito firme nas suas convicções. “Dá muito trabalho convencê-lo do contrário, tem que se demonstrar muito bem aquilo que se contrapõe, ele gosta muito da evidência”. E, claro, “é extremamente exigente e rigoroso, e não perdoa quando as coisas não são bem feitas”.

Alberto de Castro, diretor do Centro de Estudos de Gestão e Economia Aplicada da Universidade Católica Portuguesa, destaca-lhe o “espírito empreendedor”, a “grande resistência e força de vontade” e um certo “voluntarismo visionário de alguém que tem um sentido de dever único para com o país, que se traduz no apoio às artes, bem como na promoção da ciência e de um conjunto de outras atividades de natureza mais social”. Alberto de Castro refere-se ao prémio ‘Ciência na Escola’, a mais emblemática das iniciativas da Fundação Ilídio Pinho, que “nasceu do cruzamento de duas das mais fortes paixões do fundador, a ciência como mãe do progresso e os jovens enquanto futuro do país, em homenagem ao filho”. O prémio Fundação Ilídio Pinho Ciência na Escola mobiliza, todos os anos, centenas de escolas e milhares de alunos por todo o país.

José Manuel Mendonça, presidente do INESC TEC Porto, foi administrador executivo da Fundação Ilídio Pinho e, mais tarde, foi o autor da biografia’ Ilídio Pinho: Uma vida. O empresário e a utilidade pública’. Fala numa pessoa “fantástica e fora de série”, com uma “enorme disciplina e rigor”, mas, também, uma “insatisfação permanente”. Um homem “sempre à frente do seu tempo”, cujo sucesso não é fruto do acaso, mas “da sua capacidade de ser um visionário”, experimentando no terreno, na Colep, nos anos 70 e 80, modelos de organização que hoje são usados pela indústria automóvel e outras. “O eng Ilídio Pinho é um empreendedor em série que deixou uma marca indelével no país. Não se limitou a construir a Colep, transformou-a num potentado europeu e mundial e, depois, como investidor, ainda fez mil e um negócios, foi um furacão nos anos 80 que teve um papel no desenvolvimento do país”, defende Jorge Manuel Mendonça, que destaca, ainda, a “grande preocupação social e humanista” de Ilídio Pinho na sua atividade como empresário, pensando os negócios muito para além do lucro.

Portista ferrenho, é um “vencedor nato”, e não suporta perder. O que não facilita a vida dos amigos com quem gosta de jogar às cartas ou uma partida de golfe. É membro do Conselho Consultivo do Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD, conselheiro na Universidade de Aveiro, membro do Senado da Universidade do Porto, do Conselho Geral da Fundação Mário Soares e do Conselho de Fundadores da Fundação de Serralves, entre muitas outras entidades. Na vida associativa empresarial, assumiu cargos vários na Associação Nacional dos Industriais de Embalagens Metálicas, pela Associação Industrial do Distrito de Aveiro e pela Associação Empresarial de Portugal, entre outras.

Em setembro de 2015, na Universidade de Aveiro, juntou mais de 650 convidados para o lançamento da sua biografia, entre os quais o então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, bem como os ministros da Economia e da Educação, Pires de Lima e Nuno Crato, mas também figuras como Horta Osório, presidente do Lloyds Bank, António Mota, chairman da Mota-Engil, e Isabel Soares, em representação do pai, o ex-presidente da República Mário Soares, de quem Ilídio Pinho era grande amigo. Num pequeno depoimento em vídeo, Mário Soares elogiou a “grande figura do empresariado português” bem como o “homem extraordinário” que fez “grandes coisas e que tem um grande amor a Portugal”.

O livro reúne, também, depoimentos diversos, 72 na verdade, de Mário Soares, mas, também, de Marcelo Rebelo de Sousa, de Luís Filipe Menezes, de Lobo Xavier e de muitos outros. No lançamento da obra, Horta Osório destacou-lhe a visão estratégica, a dedicação ao trabalho e à meritocracia, a sua “enorme” determinação e vontade de atingir objetivos, mas, também, o facto de ser um “grande” defensor do mercado e uma pessoa dedicada ao princípio da organização na empresa. Citando o romancista inglês Bernard Shaw, segundo o qual “o homem razoável adapta-se ao mundo, o homem irrazoável adapta o mundo a si próprio e, portanto, todo o progresso depende de homens irrazoáveis”, Horta Osório foi perentório: “Ilídio Pinho é um desses homens irrazoáveis, assim continue por muitos anos”.

“Não quero deixar de viver intensamente e com utilidade para o meu país. Foi assim que aprendi de pequenino. Escolhi sucata, endireitei pregos, limpei tábuas, fui torneiro, soldador, forjador, tudo dentro das oficinas do meu pai e, depois, desenhador, calculador, orçamentador e tudo o mais. Estou, portanto, condenado a ser útil, ou a procurar sê-lo, até ao fim da minha vida porque é a única coisa que sei fazer”, disse, então, no seu discurso, Ilídio Pinho. Que deixou um recado às empresas e aos empresários: “O paradigma máximo em qualquer empresa – e até na família – é a autonomia. Sem essa afirmação estaremos condenados para sempre à falência, porque não conseguiremos fazer just now, just in time e win-win, que são os pilares do sucesso”.

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