Indústria

Importadores alertam para riscos na subida do preço de sapatos

Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens
Fotografia: Miguel Pereira/Global Imagens

Profissionais valorizam sapatos portugueses, mas avisam: preços próximos dos italianos fazem perder clientes.

Pela primeira vez na história, a etiqueta made in Portugal valoriza os sapatos. Um estudo desenvolvido pela Universidade Católica para a APICCAPS, a associação do setor, mostra que em prova cega os compradores internacionais que conhecem a origem dos sapatos que estão a avaliar estão dispostos a pagar, em média, mais 28% do que os que desconhecem onde foram feitos. Mas deixam um alerta: as empresas devem gerir com cuidado a aproximação de preço à indústria italiana. No caso de uma diferença inferior a dez euros, o consumidor vai escolher italiano.

Para a indústria, a conquista é extraordinária. Em 2005, uma prova semelhante mostrava que a indicação do país de origem desvalorizava o calçado português em 30%. Em 2015 havia uma evolução mas mesmo assim o made in Portugal retirava cerca de 18% do valor. Hoje, adiciona: 28% em termos médios, uma valorização que, em alguns segmentos de senhora, se aproxima dos 50%.

Os dados resultam de inquéritos feitos em fevereiro, na última edição da Micam, maior feira mundial do setor, em Milão, a 80 visitantes profissionais de 27 países. “O que fizemos foi aplicar aqui o que é muito habitual nos vinhos, que é a realização de provas cegas”, explica Vasco Rodrigues, da Universidade Católica.

O responsável, que acompanhou o setor nestes 15 anos, destaca “o percurso individual das empresas” e a incorporação crescente de moda e design no produto, mas também o trabalho coletivo da associação, com a campanha Portuguese Shoes: The Sexiest Industry in Europe, que “introduziu uma mudança radical na promoção internacional – o uso dos nus nas primeiras edições não foi consensual”. Os resultados estão à vista: em dez anos, investiu-se 6,4 milhões em campanhas de promoção. No mesmo período, as exportações cresceram 47% para 1902 milhões de euros, com o setor a criar 359 novas marcas e mais de quatro mil novos postos de trabalho, num total de 39 602.

A prova de que a estratégia foi bem conseguida é que há outros produtores, como turcos e brasileiros, a imitar a estratégia de promoção portuguesa. “Não têm o mesmo nível de sofisticação, mas procuram usar o mesmo caminho de exploração do corpo, da juventude, do dinamismo, para promoverem o produto, o que mostra que o setor vai um bocadinho à frente – isso é reconhecido pelos concorrentes.”
O professor da Católica Porto admite que “há uma décalage entre a imagem de vanguarda projetada pela campanha e a realidade de muitas empresas”, mas admite que “produziu resultados”. Tanto assim que importadores e profissionais “reconhecem que a qualidade dos sapatos portugueses é equivalente à dos italianos”.

O consumidor ainda não tem essa perceção, porém. O preço está a aproximar-se do italiano, mas os retalhistas aconselham prudência. “O que os retalhistas nos dizem é que se os preços refletirem os nossos padrões de qualidade, não conseguirão convencer o consumidor a aceitar o produto”, refere Rodrigues. Devem as empresas investir mais na publicidade? “No mundo ideal, sim mas para conquistar os americanos teríamos de estar na NBC – o calçado português não tem dinheiro para isso.”

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