Inatividade pesa cada vez mais na descida do desemprego

Oficialmente, há duas formas de sair do desemprego: ou arranjando trabalho ou passando a um estado de inatividade, como voltar a estudar, passar à reforma, abraçar tarefas "domésticas".

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), durante 2014, a redução do desemprego deveu-se, em muito, à passagem de desempregados para um estado de inatividade e não tanto a um fulgor crescente na contratação. Em média, em 2013, transitaram 14,4%; em 2014, 16,1% dos desempregados saíram dessa situação ao fim de um trimestre, abandonando simplesmente a população ativa.

Aliás, a percentagem de pessoas que saiu do desemprego para uma situação de emprego - embora seja naturalmente mais importante do que a cadência da inatividade - caiu entre o terceiro e o quarto trimestre. E já tinha acontecido o mesmo no período imediatamente anterior, o que sinaliza menor capacidade do mercado de trabalho em absorver quem não têm emprego.

A rarefação do crédito, a falta de novos investimentos e a condição de subcapacidade em que se encontram muitas empresas (problemas repetidamente apontados pelo FMI e por Bruxelas) explicam o que está a acontecer. As perspetivas de contratação para os próximos três meses também são negativas, dizem os inquéritos aos empresários.

Como desceu o desemprego no último trimestre

Assim, mostra o INE, no quarto trimestre, saíram mais de 111 mil pessoas do desemprego para o grupo dos inativos (16,2% dos desempregados no trimestre precedente), um movimento que foi crucial para que o desemprego total não fosse pior do que o registado.

No último trimestre do ano, o mercado de trabalho absorveu 20% dos que estavam desempregados no terceiro trimestre, cerca de 137,8 mil pessoas. Nos dois trimestres precedentes, as percentagens foram 20,9% e 20,8%, respetivamente.

Os restantes desempregados (63,7% ficaram na mesma situação em que estavam no trimestre anterior (terceiro).

Desemprego total e jovem sobem

Entre o terceiro e o último trimestre, o desemprego total subiu de 688,9 mil para 698,3 mil casos , tendo a respetiva taxa piorado de 13,1% para 13,5%. A taxa de desemprego jovem aumentou de 32,2% para 34%.

Relativamente ao desemprego total, o INE reparou que "o acréscimo trimestral verificado no quarto trimestre de 2014 contraria o período de seis trimestres consecutivos de taxas de variação trimestral negativas da população desempregada". Na taxa propriamente dita aconteceu o mesmo: foi interrompido um ciclo de ano e meio de recuperação.

"Números que dão esperança e confiança"

O ministro do Emprego, Pedro Mota Soares, optou ontem por destacar a descida anual do desemprego - "fechámos o ano passado com uma taxa de desemprego muito abaixo da do início do ano", "cerca de 130 mil pessoas saíram da situação de desemprego, o que é um facto assinalável". E referiu que a descida "é muito importante para dar esperança e confiança a quem está nesta posição".

Mas, Portugal ainda tem 534 mil pessoas que estão, na prática, sem emprego e nas margens do mercado de trabalho. No quarto trimestre de 2014, os números são: 251,7 mil pessoas em subemprego, 24,6 mil inativos à procura de emprego, mas não disponíveis, e 257,7 mil inativos disponíveis, mas que não procuram emprego. Se contassem para o desemprego oficial, a taxa seria 23,8%.

Subempregados

A subida mais expressiva acontece no subemprego, o grupo de pessoas que, estando a trabalhar a tempo parcial, dizem que desejam ou precisam de trabalhar mais horas. Um trabalho em part time tem uma duração média de quatro horas diárias.

Tratam-se pois de pessoas que terão um horário muito curto e uma remuneração em conformidade.

No quarto trimestre esse contingente de quase desempregados aumentou 8% (mais 19,6 mil), para 251,7 mil casos. Em termos homólogos a situação é pouco melhor, encolhendo 2,9%.

Ambos os segmentos de inativos também caíram em termos homólogos, o que indica uma melhoria do panorama deste desemprego sombra.

Mas com um ritmo de criação de emprego de apenas 0,5% na economia como um todo (variação homóloga no quarto trimestre de 2014), a referida melhoria -- apesar de refletir alguma da retoma fraca do emprego -- terá mais a ver com outros fatores, como a passagem à reforma, pessoas que voltaram a estudar e com a emigração.

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