entrevista

Indústria 4.0. “O maior risco é nada fazer e ficar para trás”

Yoko Ishimuro é consultora independente em estratégia global junto, entre outros, do Fórum Económico Mundial
Yoko Ishimuro é consultora independente em estratégia global junto, entre outros, do Fórum Económico Mundial

Yoko Ishikura, consultora independente do Fórum Económico Mundial, alerta os trabalhadores para se preparem para a revolução tecnológica

O envelhecimento das sociedades obriga os países a encontrar novas formas de lidar com as alterações demográficas. Que estão já em marcha, mas, para as quais, parece haver, ainda, poucas respostas. Yoko Ishikura, professora emeritus de estratégia empresarial internacional na Hitotsubashi University, em Tóquio, e consultora do Fórum Económico Mundial, acredita que o mundo deve aprender com a experiência japonesa, que, apesar de ter já 27% da sua população com mais de 65 anos, só agora está a acordar para a urgência das questões demográficas. Assim nasceu a iniciativa Sociedade 5.0, que pretende “posicionar o ser humano no centro da inovação e transformação tecnológica”.

“À medida que a longevidade e a vida acima dos 100 anos se está a tornar uma realidade para muitos de nós, precisamos projetar um sistema social que incorpore essa realidade, em vez da visão tradicional da vida trifásica, em que estudamos na idade jovem, trabalhamos durante 40 anos e aposentamo-nos aos 60 ou 65 anos, que vigora. Precisamos de desenhar um plano mais flexível para uma vida acima dos 100 anos, desenvolvendo e acumulando “ativos intangíveis”, ao nível da aprendizagem ao longo da vida, da saúde, etc, a par dos “ativos financeiros” que permitam tornar a vida mais rica e com mais significativo”, diz Yoko Ishikura, em entrevista ao Dinheiro Vivo. A consultora independente, que desempenha funções de diretora não-executiva no Shiseido Group e na Nissin Foods Holding, entre outros, e que é membro do Global Future Council, está esta sexta-feira no Porto para participar na conferência GPA ‘Cidadania e o Futuro da Sustentabilidade’ e onde fala sobre ‘O Cidadão do Futuro’.

Para Yoko Ishikuro, os países ocidentais devem aprender com a experiência japonesa. “Embora o envelhecimento tenha sido previsto há algumas décadas no Japão, nenhuma política efetiva foi desenvolvida. Os japoneses não tiveram a sensação de urgência em relação a questões demográficas, pois não as perceberam como uma questão imediata e de curto prazo. Agora, o país está pressionado pelo tempo. E embora o programa Sociedade 5.0 esteja em vigor há mais de um ano, tudo deveria ter começado muito mais cedo”, defende.

E o que é a Sociedade 5.0? É uma iniciativa do governo japonês, em parceria com a comunidade empresarial, que pretende desenvolver uma “sociedade super inteligente”, abraçando a transformação tecnológica mas centrada no ser humano. “Na era da mudança exponencial e de ruturas diversas, a tecnologia está mudar a forma como vivemos de maneira sem precedentes. O Japão enfrenta um envelhecimento rápido da população, mais do que qualquer outro país, o chamado “super-envelhecimento” da sociedade, e, à medida que a população em idade de trabalhar diminui muito rapidamente, é fundamental uma sociedade onde os indivíduos, independentemente da idade, género e região, etc., podem viver a vida confortável que desejam”, explica. Ou seja, enquanto a Indústria 4.0 se centra, essencialmente, no fabrico, a Sociedade 5.0 procura posicionar o ser humano no centro da inovação e transformação tecnológica.

Com a robótica a mudar o mundo dos negócios, Yoko Ishikura acredita que os trabalhadores têm de ser ágeis numa resposta “proativa” à mudança, designadamente, desenvolvendo novas competências, de modo a conseguirem manter-se empregados. “O maior risco é nada fazer e ficar para trás”, alerta.
Embora haja estudos que indicam que metade dos empregos atuais desaparecerão devido à revolução tecnológica, com a introdução crescente da Internet of Things (IoT) e da Inteligência Artificial (AI), Yoko Ishikura acredita que “só uma pequena percentagem” desaparecerá completamente. A maioria das tarefas atuais sofrerão, apenas, alterações.

“A tecnologia não é um inimigo, mas pode ser um aliado, se aprendermos a colaborar com ela. Os trabalhos que exigem interação humana e criatividade vão continuar a existir e serão muito importantes, pois só as pessoas os podem fazer esses trabalhos. A Inteligência Artificial não”, diz. O que não significa que todos nos mantenhamos estáticos face à mudança. “Se não vê necessidade de desenvolver novas competências para lidar com a IoT e AI, é provável que perca o emprego. Maiores competências digitais serão sempre necessárias”, garante.

Para que não nos tornemos obsoletos, Yoko Ishikuro defende que, antes de mais, temos de reconhecer e aceitar o modo como a tecnologia está a mudar a forma como vivemos, trabalhamos e aprendemos, percebendo que, neste novo mundo, há enormes oportunidades, mas, também, ameaças. “Recomendo que se tenham presentes as ameaças, mas se tire proveito das potencialidades. Por exemplo, apostando numa aprendizagem ao longo da vida. As competências necessárias daqui a cinco anos serão muito diferentes daqueles que se obtiveram na escola ou no trabalho. A menos que os trabalhadores invistam em aprender sempre mais, tornar-se-ão obsoletos”, alerta.

E que competências são essas? “A resolução complexa de problemas, as habilidades sociais (capacidade de colaborar com pessoas de diversas origens e conhecimentos) e a criatividade e imaginação são as mais frequentemente citadas. Algumas delas podem ser adquiridas através de uma educação para as artes liberais, como a História e a Arte, etc. E hoje podemos obter esses conhecimentos de muitas formas, até através de cursos online”, defende Yoko Ishikura. Fundamental, diz, é que nos preparemos para diferentes formas de trabalho. “Em vez do tradicional emprego a tempo inteiro, podem querer ser trabalhadores independentes e ajustar as horas que trabalham às suas próprias necessidades. Mas, para poder tentar várias formas de emprego, você precisará, sempre, de uma boa base de competências que o torne excecionalmente qualificado”, garante a consultora do Fórum Económico Mundial.

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