Indústria 4.0

Indústria 4.0. Só os mais preparados sobrevivem à digitalização

HUBO é um robô humanoide apresentado em Davos pelo investigador coreano  Oh Jun-Ho Fotografia: Reuters / Ruben Sprich
HUBO é um robô humanoide apresentado em Davos pelo investigador coreano Oh Jun-Ho Fotografia: Reuters / Ruben Sprich

A nova fase da indústria vai eliminar, em breve, cinco milhões de empregos. Especialistas avisam que o fosso entre ricos e pobres pode aumentar

Depois da invenção da máquina a vapor, em 1784, da eletricidade e da produção em massa, em 1870, e da eletrónica e da produção automatizada, em 1969, começa agora a discutir-se a próxima fase da manufatura com uma completa digitalização dos sistemas produtivos, interligando máquinas, pessoas e processos.

Uma coisa é certa. Tirarão partido desta nova revolução – Mira Amaral prefere chamar-lhe reindustrialização – os que estiverem tecnologicamente mais preparados.

O governo quer que Portugal esteja na linha da frente deste processo, os empresários garantem que estão a fazer o seu papel e os economistas falam em atitude e ambição, mas também em educação e formação. Não admira.

Este foi o tema central do Fórum Económico Mundial em Davos, que admite que a inovação tecnológica irá custar mais de cinco milhões de postos de trabalho, até 2020, nas principais economias mundiais.

Leia a entrevista com João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria

“Dissemos o mesmo sempre que foi introduzida uma qualquer nova tecnologia. Com a chegada da máquina a vapor, os tecelões perderam os seus empregos. Claro que muitos dos atuais empregos da indústria manufatureira serão ocupados por robôs no futuro. Mas haverá novos empregos, empregos diferentes. Claro que a transição será difícil e as pessoas menos qualificadas terão, naturalmente, maiores dificuldades”, afirmou ao Dinheiro Vivo o especialista alemão em gestão e consultoria Hermann Simon.

Há tempos visitei uma fábrica da Volkswagen em Wolfsburg, onde são produzidos os Golf, e não se veem muitas pessoas na linha de produção. São milhares de robôs que tratam da montagem das peças, diz Hermann Simon

Para este responsável, esta não é propriamente uma revolução, mas uma evolução, a chamada “indústria 4.0”: “Muitas das alterações já aí estão. Há tempos visitei uma fábrica da Volkswagen em Wolfsburg, onde são produzidos os Golf, e não se veem muitas pessoas na linha de produção. São milhares de robôs que tratam da montagem das peças. E o diretor de pessoal dizia-me que daqui por 20 anos não terá qualquer trabalhador na linha de montagem. Vai mudar a indústria de forma dramática, mas é um processo evolutivo e não revolucionário”, defende.

Para o presidente do Fórum Económico Mundial, que esteve reunido em Davos, é muito mais do que isso. Porquê? A velocidade, o alcance e o impacto das alterações atuais “não tem precedente histórico”, diz Klaus Schwab.

Para este responsável, tal como as anteriores, esta quarta revolução tem o potencial de “elevar os níveis de rendimento global e de melhorar a qualidade de vidas das populações em todo o mundo”. Para já, são os consumidores com acesso ao mundo digital e com capacidade para o pagar que têm tirado o máximo de partido das alterações, já que a mudança tecnológica introduziu novos produtos e serviços que aumentam a eficiência e trazem prazer ao nosso dia a dia. Chamamos um táxi, reservamos um voo, compramos um qualquer produto, fazemos pagamentos, ouvimos música, vemos filmes, jogamos jogos…. tudo online.

Klaus Schwab destaca que, no futuro, “o milagre” se fará também do lado da oferta, “com ganhos de eficiência e produtividade a longo prazo”, decorrentes da baixa dos custos de transportes e comunicação, da maior eficácia nas cadeias logísticas e de transportes globais e da descida nos custos do comércio. Tudo isto, diz, “vai abrir novos mercados e impulsionar crescimento económico”.

O sapato de Sheryl Sandberg, COO of Facebook, fotografado em Davos. Fotografia: REUTERS/Ruben Sprich

O sapato de Sheryl Sandberg, COO of Facebook, fotografado em Davos. Fotografia: REUTERS/Ruben Sprich

Mas nem tudo são boas notícias e há sempre o reverso da medalha. O crescimento da automatização da indústria e dos serviços, decorrente das rápidas evoluções em áreas como a inteligência artificial, a robótica, a nanotecnologia e a impressão 3D, vai tornar obsoletos muitos dos atuais postos de trabalho, agravando o fosso entre ricos e pobres.

Leia como a indústria automóvel domina o mundo da automação

Klaus Schwab assume mesmo que a maior preocupação social relativa à quarta revolução industrial é o agravamento das desigualdades, que conduzirá a um aumento das tensões sociais. Até porque os estudos já avançados estimam que esta quarta revolução implicará a perda de cinco milhões de empregos nas principais economias mundiais, só nos próximos cinco anos.

Estatísticas alarmantes, mas que obrigam os responsáveis mundiais a pensar atempadamente em soluções. O secretário de Estado da Indústria assume que o papel do governo é o de preparar a economia para que acompanhe esta revolução. Aliás, João Vasconcelos é perentório em garantir que esta é a primeira em que a localização geográfica “não é um problema” e, por isso, o governo promete desenvolver uma estratégia pública que permitirá à indústria “participar ativamente” neste processo. A discussão do papel do operário fabril no mundo digital é, apenas, um dos muitos desafios com que o governo se debate.

“O desemprego de longa duração é o resultado do desajuste das habilitações dos trabalhadores ao que é requerido pelo mercado de trabalho. É fundamental que se aposte numa atualização permanente, na formação ao longo da vida, de modo que não se fique obsoleto”, defende Mira Amaral.

Mira Amaral, ex-ministro da Indústria de Cavaco Silva, considera, por seu turno, que é urgente uma boa gestão do binómio educação e formação, a única forma, diz, de minimizar os impactos das novas tecnologias digitais nas indústrias. “O desemprego de longa duração é o resultado do desajuste das habilitações dos trabalhadores ao que é requerido pelo mercado de trabalho. É fundamental que se aposte numa atualização permanente, na formação ao longo da vida, de modo que não se fique obsoleto”, defende.

E o que pensam os sindicatos destas mudanças? Carlos Silva, secretário-geral da UGT, reconhece que a robotização da indústria é um processo irreversível e que, necessariamente, acarreta uma menor necessidade de postos de trabalho. O que não significa que deixe de haver emprego: “A tecnologia informática, o mercado digital, tudo isso é imparável. Ainda há pouco vi um estudo que mostrava que, só no sector bancário dos Estados Unidos, o mercado digital irá provocar uma perda de 40% dos postos de trabalho. Mas perante novas revoluções tecnológicas é preciso encontrar novas soluções e novas respostas”, diz Carlos Silva.

Para o secretário-geral da UGT, há que combater o pessimismo e manter a esperança. “Segundo um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), surgirão, nos próximos 50 anos, entre 120 e 150 novas atividades profissionais, muitas delas resultantes das novas tecnologias. É preciso manter a lucidez nestes processos. Haverá sempre lugar para o homem e para a humanização das competências no mundo do trabalho”, defende.

Alberto de Castro, professor de economia na Porto Business School da Universidade Católica Portuguesa, lembra que o tema da robotização tem vindo a suscitar preocupações crescentes e remete para o Business Book Award atribuído anualmente pelo Finantial Times e pela McKinsey que, em 2015, premiou o livro de Martin Ford The Rise of The Robots. A edição britânica, em subtítulo, alerta para “a ameaça do desemprego em massa” enquanto a edição dos EUA prevê “um futuro de desemprego”.

HUBO é um robô humanoide apresentado em Davos pelo investigador coreano Oh Jun-Ho Fotografia: Reuters / Ruben Sprich

HUBO é um robô humanoide apresentado em Davos pelo investigador coreano Oh Jun-Ho Fotografia: Reuters / Ruben Sprich

Como será o futuro, Alberto de Castro não sabe. Mas reconhece que a conjugação da robotização e da inteligência artificial com questões como a impressão 3D “podem, de facto, originar paradigmas de organização da produção que nos remetem, no limite, para a anedota da fábrica do futuro. Aquela que só tem um cão e um engenheiro. O cão para guardar a fábrica, o engenheiro para dar de comer ao cão”.

O CEO da Siemens em Portugal mostra-se bem mais confiante no futuro. Melo Ribeiro lembra que os estudos do Fórum Económico Mundial mostram que esta quarta revolução vai alterar os modelos de negócio de todas as indústrias. Novas categorias vão aparecer, substituindo totalmente algumas das atuais e/ou complementando outras. “O conjunto de competências exigidas, quer nas antigas quer nas novas funções, vai mudar em muitas das indústrias e mudar a forma como e onde as pessoas trabalham”, diz.

Mas tal como nas anteriores, a quarta revolução industrial será obra do homem, garante: “Estou convicto de que num mundo onde a indústria 4.0 é uma realidade, o homem será o líder criativo e pensador, que aplicará a sua inteligência para conceber todos – e quero dizer mesmo todos – os processos e procedimentos necessários e ensinar as máquinas a executá-los, com base em algoritmos e software, criados e desenvolvidos por ele.”

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