Indústria da moda vai precisar de 400 mil operários na próxima década

'Open your mind' é a campanha lançada pela Comissão Europeia para atrair jovens para o têxtil, vestuário, curtumes e calçado

A indústria da moda na Europa vai precisar, na próxima década, de 400 mil novos trabalhadores. Pelo menos. É que este número, que Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), garante ser "cristalino", resulta de uma equação simples: 20% dos 2,2 milhões de trabalhadores do têxtil, vestuário, curtumes e calçado na Europa têm hoje mais de 55 anos e a sua "substituição direta" obriga a que, até 2030, a fileira da moda "necessite de contratar mais de 400 mil novos profissionais", só para a área produtiva.

A que se juntam as necessidades crescentes de profissionais "altamente qualificados" em áreas como o design, o marketing, a logística ou as engenharias. Só a Confederação Europeia do Calçado estima que esta indústria terá um crescimento de 5% do emprego nos próximos três a cinco anos, o que permite admitir que as necessidades de contratação global da fileira da moda, na próxima década, seja da ordem do meio milhão de pessoas.

A Comissão Europeia está apostada em ajudar nesta tarefa e criou um projeto para atrair pessoas com menos de 30 anos a estes setores, através da campanha Open your Mind, que pretende divulgar oportunidades de emprego em escolas e centros de formação portugueses, espanhóis, italianos, alemães, romenos e polacos. Da responsabilidade da Agência Executiva para as Pequenas e Médias Empresas (EASME) e da Direção Geral do Mercado Interno, Indústria, Empreendedorismo e PME’s (DG Grow), a iniciativa pretende que os jovens "esqueçam os preconceitos" e olhem de outra forma para as oportunidades de trabalho nestas áreas.

E Bruxelas fala mesmo em milhões de oportunidades. "Num mundo cada vez mais globalizado e digital, este projeto representa um novo enquadramento estratégico que vai desenvolver ações concretas para satisfazer as necessidades destes setores, em termos de recursos humanos, e que continuará a contribuir para o crescimento económico e social dos Estados-membros, apresentando às novas gerações milhões de oportunidades de emprego através de uma campanha lançada a nível pan-europeu e com uma incidência especial em empresas e entidades educativas em seis países: Portugal, Itália, Roménia, Espanha, Alemanha e Polónia", pode ler-se no factsheet da EASME referente ao projeto Open your Mind. Com 225 mil empresas, a fileira da moda gera, anualmente, mais de 200 mil milhões de euros em toda a Europa.

Apesar da sua grande tradição na Europa, as indústrias têxtil e do vestuário, dos curtumes e do calçado "continuam a ser pouco apelativas" para a faixa etária entre os 14 e os 30 anos, causando "constrangimentos" às empresas que precisam de 'sangue novo' para "manterem um elevado nível de inovação e de competitividade". Por isso, a campanha prevê a realização de uma série de iniciativas junto de escolas e de centros de formação, mas, também, a organização de visitas a empresas e associações do setor, onde peritos de cada uma destas indústrias darão a conhecer as possibilidades de carreira que existem e responder a dúvidas dos potenciais interessados.

"Precisamos de mudar a perceção que existe destas indústrias, que estão hoje na vanguarda em muitos domínios da inovação, do desenvolvimento e da tecnologia. O que significa que vamos precisar, crescentemente, de profissionais altamente qualificados nos domínios do design, do marketing, da logística, da informática ou da engenharia de produção", explica Paulo Gonçalves, que integra o Comité de Direção do projeto Open your Mind em representação da APICCAPS.

Este responsável lembra que a questão é, ainda, mais premente numa altura em que a sustentabilidade se torna uma preocupação cada vez mais urgente. "Falar de sustentabilidade é falar, antes de mais, em produção local. Não é sustentável que mais de 80% da produção de alguns destes segmentos esteja concentrada no continente asiático. As raízes da moda estão baseada na Europa e esse é um património que não devemos perder", frisa.

E esse é, também, um ponto positivo na contratação de jovens, aos quais estas indústrias prometem uma carreia "atrativa", não só pela criatividade envolvida", mas, também, "pela possibilidade de, através da criação de soluções inovadoras, contribuir para um planeta mais limpo". A globalização e as oportunidades para desenvolver carreiras em vários pontos do globo são outros dos temas que serão abordados nas diversas ações a realizar, a partir de novembro e durante os próximos oito meses.

São 72 os eventos previstos, em 60 locais, além da instalação de 14 stands periódicos, bem como do lançamento de uma campanha de comunicação em sete línguas distintas, as seis línguas maternas de cada um dos países envolvidos e o inglês, com grande foco na comunicação digital e nas redes sociais. E vão ser organizadas duas competições online visando dois grupos-alvo diferentes. Quanto é que tudo isto vai custar é que ninguém indica. Perante a pergunta dos jornalistas, Paulo Gonçalves foi perentório: "Não estamos autorizados a revelar". Em Portugal, será organizado um open day em três empresas - Calvelex, Riopele e Kyaia - , visitas à Modatex, à APIC, a associação dos curtumes, e à Universidade de Aveiro e eventos na Modtíssimo, ModaLisboa e Portugal Fashion.

A fileira da moda foi a primeira a avançar com a apresentação da sua campanha, mas a Comissão Europeia está a desenvolver "iniciativas semelhantes" junto das indústrias automóvel, do turismo e da tecnologia marinha e irá, para o ano, desenvolver projetos para os setores da construção, da siderurgia e do transporte marítimo, explicou José Martinho Marques de Oliveira, coordenado do Instituto de Materiais de Aveiro da Universidade de Aveiro (CICECO), na apresentação desta tarde.

Além da APICCAPS e do CICECO, participaram na criação deste projeto a Confederação Europeia do Calçado e a Confederação das Associações Nacionais de Curtidores e Surradores da Comunidade Europeia, a Rede Europeia de Empresas e a Confederação Europeia do Vestuário e Têxteis, a Germand Professional School of Kronstadt, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Vestuário e Têxtil, a Federação Europeia da Indústria de Artigos Desportivos e a Federação Italiana dos Trabalhadores das Indústrias Químicas, Têxtil, Energia e Manufatura.

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