Inovação

Indústria está a dar os primeiros passos na reciclagem

Foto: D.R.
Foto: D.R.

Já há fábricas com projetos para dar nova vida aos seus desperdícios e até à roupa que fazem. Outras criam marcas só com material reciclado

Em Portugal, os fabricantes de tecidos e de roupa já lidavam com os seus desperdícios industriais e, agora, começam a despertar para o problema do destino final das suas produções, depois de usadas. Mas a reciclagem, neste setor, é uma atividade “quase emergente”, segundo Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP).

A Valerius, por exemplo, estabeleceu, em 2017, um prazo de 10 anos para conseguir receber na sua fábrica de Barcelos todas as roupas que de lá saiam, para as reciclar e lhes dar uma nova vida. Segue assim os passos da britânica TopShop, com mais de meio milhão de lojas em todo o mundo, que “foi pioneira” na estratégia de recolha de vestuário usado para lhe dar uma segunda vida, recorda Paulo Vaz.

Novas matérias-primas
O dirigente da ATP refere o caso do poliéster reciclado e de outras fibras “com tecnologia cada vez mais sofisticada”, que são reaproveitadas para reentrarem na cadeia de valor, com a vantagem “de transformar Portugal num produtor de matérias-primas, hoje totalmente importadas”.

Já a Riopele criou a marca Tenowa, para tecidos produzidos com material 100% reciclado. E uma das parceiras nesse projeto, a Sasia, também de Famalicão, recicla desperdícios têxteis, na ordem das 900 toneladas por mês, criando novas matérias-primas, metade para o mercado interno e outra para exportação, tendo já investido dois milhões de euros numa nova linha de reciclagem.

Há também a Penteadora, em Unhais da Serra, com a linha Re.Born, onde obtém os seus tecidos cardados feitos com a incorporação de, pelo menos, 50% dos resíduos que o grupo gera.

Já é tendência
César Araújo, presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção, garante que, na indústria, o uso de materiais reciclados “é cada vez mais habitual”, quer para a fabricação de fios quer de tecidos com “uma grande componente de reciclagem”.

Embora haja “muito caminho a fazer”, como diz Paulo Vaz, desde logo nas tecnologias que façam a separação dos resíduos, certo é que o tema está na ordem do dia, como provou a última edição do Modtíssimo, no Porto, onde foi criado o espaço Green Circle, dedicado às inovações têxteis nesse domínio.

Meias sem par e lençóis velhos? Valem dinheiro
Até ao próximo dia 24, a cadeia H&M está a oferecer dois cupões de desconto (em vez de um) no valor de 5€ por cada saco de têxteis entregue nas suas lojas. Por cada quilo de roupa recolhido, a empresa doa 0,02€ a uma organização de caridade. Em Portugal, a beneficiária é a Helpo, entidade à qual a H&M entregou mais de 13 369€, correspondentes a 668 458 quilos de roupa recolhidos nas lojas em Portugal em 2018. “Até meias sem par, t-shirts gastas e lençóis antigos são bem-vindos”, garante a multinacional sueca. Desde 2013 (foi pioneira) já recolheu 75 mil toneladas em todo o mundo. O projeto existe em parceria com a alemã I:CO, especialista em reciclagem têxtil. As roupas em boas condições são vendidas em lojas de segunda mão. As restantes podem ser reutilizadas, sendo transformadas noutras matérias-primas.

FRASES:
“A reciclagem [têxtil] é quase emergente, no país e no mundo, com a grande maioria das empresas a darem os primeiros passos”

“Todos somos a favor do meio ambiente e da sustentabilidade, mas quando se vai a ver o custo, já nem todos estamos dispostos a pagá-lo”

Paulo Vaz, diretor-geral da ATP

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