Coronavírus

Indústria têxtil em força na principal feira de Saúde na Alemanha

Ilustração: Vítor Higgs
Ilustração: Vítor Higgs

Em 2019, Portugal teve seis empresas em Dusseldorf, este ano espera ter 25 a 30. O espaço de exposição triplicou

Portugal vai quase triplicar a sua presença, este ano, na Medica Trade Fair, a maior feira e mais reputada feira do sector que vai decorrer, de 16 a 19 de novembro, em Dusseldorf, na Alemanha. No total, a delegação portuguesa vai contar com 431 metros quadrados este ano, que comparam com os 160 metros quadrados da edição anterior. Em ano de pandemia de covid-19, o interesse das empresas em exporem os seus produtos, designadamente as que começaram agora a investir neste segmento de mercado, é redobrado.

“Em dois anos, quadruplicamos o espaço das empresas portuguesas na Medica. Há muito tempo que os expositores nos iam pressionando para aumentar a área disponível, mas este ano, em especial, a pressão é maior já que há várias empresas que criaram unidades nesta área e que querem marcar presença em Dusseldorf à procura de novos clientes”, diz o diretor da Associação Selectiva Moda, que coordena a presenças das empresas têxteis nos certames internacionais. Manuel Serrão estima que Portugal se fará representar por 25 a 30 empresas, quando, o ano passado, contou com seis, mais uma área dedicada à inovação no fórum Citeve.

A Barcelcom, empresa especializada em meias de compressão graduada e ouros produtos similares como manguitos ou suportes musculares, é presença habitual na feira, já lá vão mais de oito anos, sendo um dos pioneiros da participação do têxtil nacional na Medica. E todos os anos tem o cuidado de apresentar uma inovação ou um upgrade dos seus produtos, dando corpo à estratégia definida pela administração de reinvestir, anualmente, 10% dos lucros no núcleo de investigação e desenvolvimento da empresa.

Com 50 trabalhadores e uma faturação de 2,6 milhões de euros em 2019, a Barcelcom produz para os grandes players internacionais da área da saúde, fornecendo diferentes serviços nacionais de saúde, embora o português não esteja entre eles. Os produtos da empresa de Barcelos, que em 2021 comemora o seu centenário, são usados pelos jogadores da Seleção Nacional de Futebol, por automobilistas de Formula1, como Lewis Hamilton, ou as bailarinas do Royal Ballet de Londres, nichos “muito específicos, mas de grande valor acrescentado”, destaca o administrador, Nuno Mota Soares.

Este responsável mostra-se ansioso pela edição deste ano do certame. “Tinha previstas cerca de seis viagens de visitas a clientes, entre março e julho, e acabei por não fazer nenhuma, por isso, estou a tentar agendar tudo para a Medica e o feedback é muito positivo, por isso, não sei se haverá um decréscimo assim tão acentuado de expositores e visitantes como se fala. Acho que as pessoas evidenciam uma vontade tão grande de viajar, de fazer negócios, que isso pode ser positivo”, diz, sublinhando que Portugal se tem afirmado no panorama internacional.

No entanto, Nuno Mota Soares deixa o alerta aos que agora começaram a produzir equipamentos de proteção individual como forma de subsistirem à pandemia. “Há aqui um receio grande que muitas empresas não estejam preparadas para a produção de acordo com as normas europeias, o que exige um esforço muito grande a nível de certificação, com os consequentes meios financeiros e humanos. Os obstáculos para aceder ao mercado internacional são muitos”, defende, argumentando: “A Medica é um espaço aberto a todos, mas não é um espaço para todos”.

Sobre as perspetivas para 2020, Nuno Mota Soares admite que ainda é cedo para aferir. A empresa, que tinha investido em novos equipamentos, que lhe permitiram aumentar a sua capacidade produtiva na ordem dos 15%, teve de recorrer ao lay-off parcial devido, designadamente, a problemas na obtenção de matérias-primas. Fecha para férias a partir de 10 de agosto e retoma, em setembro, a 100%. “Ainda é muito prematuro fazer análises para o fim do ano. Há uma perspetiva de equilíbrio no segundo semestre, mas não sei se conseguimos chegar à faturação do ano passado”, admite.

Trim NW junta a Saúde ao Automóvel
Especializada na produção de Tecido-Não-Tecido (TNT) para a industria automóvel, a par de peças termoconformadas para os interiores das viaturas, seja ao nível de peças de insonorização, seja de outras como tejadilhos, tabliers, chapeleiras, etc, a Trim NW, de Santarém, contava, este ano, crescer 20% face aos 3,6 milhões de euros que faturou em 2019. A paragem dos fabricantes de automóveis obrigou a procurar produção alternativa para os seus 38 trabalhadores e, garante Rui Lopes, CEO da empresa, acabou por ser o primeiro produtor com material certificado pelo Citeve, a 13 de abril, para a produção de batas e outros equipamentos hospitalares. E, desde então, não parou.

Basta ter em conta que, ao longo de todo o ano de 2019, a Trim NW produziu perto de 20 milhões de metros quadrados de TNT, este ano tem capacidade para fazer, dependendo do tipo de material, perto de um milhão de metros quadrados por semana. “Estávamos a preparar uma segunda linha para a indústria automóvel que, com pequenos ajustes, foi adaptada para esta área de negócio”, explica Rui Lopes. Contratou três pessoas e espera, até ao final do ano, reforçar a equipa, sobretudo na área comercial.

“Precisamos de ir à procura de mercados e de criar uma gama sustentável para o futuro”, adianta. Hoje conta já com quatro materiais distintos aprovados pelo Citeve, ao mesmo tempo que continua a desenvolver novos produtos, designadamente para blocos operatórios, mas, também, para áreas menos críticas. O segmento automóvel está a retomar – “alguns clientes até acima da fase pré-covid”, assegura – e, com a nova área de negócio da saúde, as perspetivas para o exercício de 2020 são de um crescimento 30%.

Para já, a Trim NW só vende o seu TNT em Portugal, mas vai à Medica na expectativa de encontrar clientes noutros países europeus. Questionado sobre o potencial de negócio da Saúde, Rui Lopes é pragmático. “Sonhar eu consigo, a grande dificuldade é que não conseguimos perceber bem quanto vale o mercado, não há informação fidedigna. Mas tenho a expectativa de que possa, no futuro, vir a representar perto de 40 a 50% da nossa faturação”, diz. O que equivale a dizer que espera que, no espaço de três a quatro anos, possa duplicar o volume de negócios e ter a área da Saúde a valer metade. Isto enquanto prepara um investimento de perto de 12 milhões de euros, submetido ao SI Inovação Produtiva, do Portugal 2020, para o desenvolvimento de um novo tecido não tecido para entrar no mercado da higiene (fraldas e outras aplicações similares) e da construção.

Adalberto leva tecnologia que inativa vírus
A Estamparia Adalberto é outra das estreantes na Medica, onde vai aproveitar para dar a conhecer a sua máscara, a MOxAd-Tech, a primeira que inativa o vírus SARS-CoV-2, causador da covid-19. E a intenção, admite Susana Serrano, CEO da empresa de Santo Tirso, é oferecer uma gama alargada de produtos de uso hospitalar, como batas, lençóis ou almofadas, com a mesma tecnologia utilizada na máscara, ou seja, incorporando propriedades anti-virais, antimicrobianas e antibacterianas. Lançadas em abril, com a certificação do Citeve, estas máscaras viram agora confirmada a sua capacidade de inativação do vírus em testes realizados pelo Instituto de Medicina Molecular, fazendo aumentar a procura das mesmas. Até ao momento, a Adalberto já vendeu mais de um milhão de máscaras não só para Portugal, Espanha e França, como, também, para a Polónia, o Dubai e a Malásia. E há contactos em vista para outros mercados.

A gama de vestuário com funcionalidades antibacterianas é uma área em que a Adalberto estava já a trabalhar, antes da covid-19, numa lógica de inovação e sustentabilidade, já que, por terem estas propriedades, “os tecidos podem ser lavados menos vezes e com o recurso a programas mais curtos e a temperaturas mais baixas”, reduzindo, assim, o consumo de água e de energia associada. Com o surgimento da pandemia, a empresa fez o update dos produtos com as propriedade anti-virais e antimicrobianas, o que está a gerar um “grande interesse” por parte até dos seus clientes habituais na área da moda.

Mais do que a procura de algum cliente ou mercado específico, a presença da Adalberto na Medica far-se-á como um “primeiro passo” para dar a conhecer a sua tecnologia, num produto que conta com a certificação OEKO-Tex, que comprova a ausência de produtos químicos nocivos durante o processo de fabrico, uma garantia para os consumidores e uma prova da aposta da empresa na sustentabilidade.

Com 400 trabalhadores, a Estamparia Adalberto faturou perto de 30 milhões de euros em 2019. O objetivo de Susana Serrano era fechar 2020 com vendas de 40 milhões. “Ainda falta um bocadinho”, admite, mas mantém a esperança de lá conseguir chegar com esta nova área de negócio.

Inarbel criou nova marca Skylab
Também a Inarbel vai a Dusseldorf tentar a sua sorte nesta nova área de negócio, para a qual criou uma marca nova, a Skylab. Com 242 trabalhadores e uma faturação de nova milhões de euros, a têxtil do Marco de Canaveses investiu cerca de 400 mil euros em novos equipamentos e instalação uma nova linha de produção destinada, exclusivamente, ao segmento hospitalar.

Especializada no fabrico de vestuário de criança e detentora das marcas A&J e Dr Kid, a Inarbel produz também homem e senhora e exporta praticamente a totalidade do que faz, tendo em Espanha, Inglaterra e Itália os seus principais mercados. O adiamento e cancelamento de encomendas, a partir do início de fevereiro, obrigou o CEO do grupo a procurar alternativas. “Passei por momentos muito complicados, tenho obrigações para com os meus colaboradores e as suas famílias, mas não tinha trabalho para toda a gente”, admite José Armindo Ferraz.

Deu uma semana de férias aos trabalhadores no início de abril, mas não foi suficiente. Tive de avançar com o lay-off de alguns trabalhadores. Um parceiro espanhol, com que trabalha há muitos anos, alertou-o para as necessidades urgentes de batas hospitalares e o empresário tratou de encontrar a solução ao nível dos tecidos, que são 100% algodão, permitindo a sua reutilização. São certificados pelo Citeve. Esse mesmo parceiro intermediou o negócio com o Estado espanhol e, em três dias, estava a receber uma encomenda inicial de 200 mil peças. Pediu 50% do valor à cabeça, no dia a seguir tinha o dinheiro na conta. “Estamos já inscritos na Direção Geral de Saúde espanhola como fornecedores certificados. Vendemos 600 mil batas para Espanha, enquanto em Portugal vendemos cinco mil”, diz, lamentando que seja “muito difícil” vender em Portugal porque a burocracia “é muita”.

Num ápice montou uma fábrica específica, com estrutura própria de confeção, para produtos hospitalares, a que afetou 30 pessoas. “Maio e junho foram os meses em que faturamos mais desde que a Inarbel existe, desde 1984”, garante José Armindo Ferraz. Os trabalhadores que estavam em casa foram sendo reintegrados e agora até admite ter de contratar mais. “Vou começar a formar costureiras e controladores de qualidade. Leva tempo, mas eu quero crescer e quero manter este contacto com as comunidades autónomas espanholas”, diz.

Alargou já o portefólio da área de saúde e está a tentar entrar nos mercados francês e britânico, enquanto o negócio da moda vai retomando, devagarinho. “Não é sorte, a sorte dá muito trabalho e eu tive que reinventar a empresa por completo e criar novos negócios em que nunca tinha pensado. Mas hoje digo, eu também estou na linha da frente do combate à covid-19, a trabalhar e a pagar impostos para que o Estado tenha dinheiro para pagar a quem precisa de ajuda. E os nossos governantes deviam apoiar mais a indústria, ainda mais agora que fizemos este esforço todo. Para que havemos de estar dependentes da Ásia quando temos a capacidade de resposta dentro do país?”, questiona.

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