Inovação. Têxtil e metalomecânica são bons exemplos a seguir

Estudo da Universidade de Aveiro e da Faculdade de Economia do Porto para a ANI foi esta quarta-feira apresentado, com recomendações ao nível da majoração de subsídios para fomentar a partilha de conhecimento

As empresas portuguesas continuam a ser pouco dadas à partilha de informação e estão, ainda, a dar os primeiros passos ao nível da inovação aberta. As empresas mais pequenas e os sectores mais tradicionais, como a têxtil e a metalomecânica, são os bons exemplos a seguir e que "mereceriam uma reforço positivo ao nível da subsidiação" pública.

A conclusão é de um estudo apresentado esta quarta-feira na conferência “Economia circular e sustentabilidade dos territórios através da Inovação Aberta” organizada pela Agência Nacional de Inovação na Porto Business School. Joana Costa, uma das autoras do estudo, recomenda ao Estado que "repense" os sistemas de incentivos às empresas para fomentar o espírito colaborativo, seja por via do condicionamento no acesso aos apoios, seja pela majoração destes às empresas que estejam a fazer inovação em rede.

A questão da inovação aberta é determinante, sobretudo se tivermos em conta que as políticas de especialização definidas a nível europeu, no âmbito da estratégia de especialização inteligente (RIS3), são desenhadas "tendo por base uma inovação colaborativa", lembra Joana Costa. E o estudo realizado mostra que, em Portugal, a inovação aberta "está, ainda, num estado muito embrionário", com mais de metade das empresas a assumir que não o faz, aparentemente, de forma voluntária.

"Sabemos que metade das empresas advogam estar fechadas à partilha da inovação, teremos de apurar, num trabalho posterior, porquê. À data de hoje suspeitamos que é uma opção deliberada, já que elas dispõem do capital humano necessário", destaca a investigadora da Universidade de Aveiro. A maioria das empresas inquiridas tem, pelo menos, 10% de licenciados e engenheiros nos seus quadros.

"Boa parte das empresas está, ainda, a dar os primeiros passos neste caminho, preferindo essencialmente os influxos de conhecimento em detrimento da partilha, desperdiçando, muitas vezes, a sua tecnologia excedentária os ganhos de tempo e recursos relacionados com a inovação partilha", pode ler-se nas conclusões do estudo.

As estratégias de inovação podem ser INBOUND, que representa a entrada de informação na empresas provinda do ecossistema inovador, OUTBOUND, quando é a empresa que envia conhecimento para o ecossistema e COUPLED, quando os fluxos são bidireccionais. E este trabalho veio mostrar que, claramente, as empresas preferem receber informação do que enviá-la aos restantes agentes ou combinar as duas vertentes. Quando a inovação é obtida a partir do exterior, ainda há 46% de entidades que estão disponíveis para algum tipo de partilha de informação. Mas quando a investigação é feita dentro de portas, quase 83% das respostas recusam qualquer partilha.

E garante Joana Costa que são as grandes que estão mais indisponíveis para essa partilha. "É um dado surpreendente, mas acho que se explica por questões de secretismo industrial", diz, sublinhando: "Quem está mais disponível para colaborar são as empresas mais pequenas, muitas vezes as mais negligenciadas em termos de benefícios das políticas públicas".

Em termos de sectores, há já bons exemplos ao nível da ligação às universidades. É o caso das atividades de engenharia e arquitetura, das consultorias informáticas e das indústrias têxtil e metalomecânica. "São dados interessantes que nos vêm relembrar que é puro preconceito quando se olha para estes dois sectores como ultrapassados e mais ligados às atividades low tech. Na verdade, são empresas que, além de inovadoras, estão muito próximas das universidades", explica Joana Costa. Para a investigadora, estas são indústrias que "mereceriam um reforço positivo ao nível da subsidiação".

Ao nível das recomendações finais, Joana Costa considera que é desejável que seja criado um "pacote de políticas públicas que, percebendo da desejabilidade da proximidade das universidades ao tecido empresarial, produza sinais nos dois lados". Nas empresas, há que dar "reforços positivos aqueles que estabelecem redes", seja majorando subsídios, seja considerando este fator como condição de atribuição dos subsídios. Do lado das universidades, há que "estender esta cultura de ligação a outros sectores, passo fulcral para o sucesso da política de especialização inteligente".

O estudo, realizado em parceria pela Faculdade de Economia do Porto e pela Universidade de Aveiro, para a Agência Nacional de Inovação (ANI), visou "colmatar a inexistência de dados relativos à inovação aberta em Portugal", com a realização de um "questionário inédito" a cerca de 11 mil empresas em operação no território nacional, tendo sido obtidas 908 respostas. Um número considerado "bastante otimista", para uma iniciativa realizada por cinco pessoas, entre professores e alunos, "sem qualquer tipo de suporte financeiro ou logístico". O inquérito decorreu entre março e maio de 2019, de modo a que os resultados apresentassem "uma perceção contemporânea do fenómeno".

 

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