Inovações portuguesas estreiam-se em Hannover

Dois anos depois, a Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, está de volta em regime presencial. Portugal, que é o país-parceiro da edição de 2022, leva 109 expositores, a segunda maior delegação estrangeira a seguir a Itália

Energest: primeiros passos no exterior

A dar os primeiros passos na internacionalização está a Energest - Engenharia e Sistemas de Energia, empresa da Maia com mais de 35 anos de experiência na conceção, desenvolvimento e montagem de equipamentos e instalações térmicas industriais, e que tem por clientes as principais empresas de energia intensiva em Portugal. Com 46 trabalhadores e uma faturação de 7,2 milhões de euros em 2021, já ao nível dos valor pré-pandemia, a Energest vai, pela primeira vez, a Hanôver e dará a conhecer a caldeira de vapor a gás natural/hidrogénio de maior potência construída em Portugal, que desenvolveu, com "engenharia exclusiva" sua, para a The Navigator, em Setúbal.

A internacionalização tem sido conseguida através dos projetos feitos no exterior para algumas das maiores empresas portuguesas, como a Sonae ou a Colep, entre outras. "Não exportamos praticamente nada porque não temos produtos standard, tudo o que fazemos é tailor-made e em escala empresarial. Temos relações com as principais multinacionais ligadas à área energética e estamos convencidos que, do ponto de vista dos utilizadores finais, vamos conseguir evidenciar aquilo que conseguimos fazer", diz o fundador da Energest.

José Guedes assume que não tem "especiais expectativas" nem objetivos definidos, mas vai à procura de novos clientes, num ano que não está a correr muito bem. Sendo este tipo de projetos plurianuais, há ainda contratos do ano passado que cobrem parte deste, mas o mercado está a retrair-se.

"Em situações de crise, todas as decisões de investimento ficam adiadas. Já assim foi, em 1991, com a guerra do Golfo, que nada tinha a ver connosco e que acabámos por ficar sem ter o que fazer", explica o responsável, que se assume preocupado com os efeitos da invasão da Ucrânia. No entanto, reconhece que, ultrapassada que esteja esta onda mais imediata, o problema pode-se transformar numa oportunidade. Sendo a redução da dependência energética da Europa face à Rússia uma questão determinante, José Guedes acredita que vai obrigar, antes de mais, a investimentos na racionalização do consumo de energia, designadamente através da instalações de equipamentos e sistemas mais eficientes. "Quando se tem um grande problema, a primeira coisa a fazer é procurar reduzir o seu tamanho, para facilitar a sua solução", sublinha.

Siroco: Na linha da frente da automação e robotização

Embora não seja propriamente uma estreante na feira, é como se fosse, já que, da primeira vez, que a Siroco foi à Hannover Messe foi sozinha e acabou-se por ficar "perdida" numa feira tão grande. Agora, Kathy Fehst Barroso, que, com o marido, José Luís Barroso, comprou a empresa em 2010, assume-se confiante na ida à Alemanha. "Faz todo o sentido esta representação conjunta, vamos ter muito mais impacto. Além de que Portugal tem vindo a conquistar a confiança dos parceiros alemães que cada vez mais reconhecem a qualidade da engenharia portuguesa", defende.

Com raízes na Alemanha, onde nasceu, Kathy assume que este país é a sua segunda casa, o que ajuda no contacto com parceiros e clientes, que "elogiam muito as nossas competências técnicas e ficam muito admirados quando percebem que se trata de uma empresa portuguesa". A empresa vai à feira à procura de novos clientes, mas também de consolidar a marca junto do mercado alemão. Com mais de 30 anos de experiência e 80 trabalhadores, a Siroco - Sociedade de Robótica e Controlo, de Aveiro, tem na automação industrial, com o desenvolvimento de linhas de montagem com células robotizadas (maioritariamente para a indústria automóvel) e nas ferramentas de cravação específicas para a indústria de cablagens as suas duas maiores áreas de negócio, responsáveis por 70% da sua faturação, com a maquinação e os serviços de consultoria e assistência técnica a assegurar a parcela restante dos seis milhões de euros que a empresa faturou em 2021. Um valor ainda um bocadinho aquém do período pré-pandemia, mas "numa trajetória de recuperação que se tem vindo a consolidar, sobretudo no primeiro trimestre do ano". Mas a dificuldade de abastecimento de matérias-primas e outros materiais é uma preocupação.

A empresa pretendia voltar, este ano, aos valores pré-pandemia, mas os atrasos nas entregas vão atirar alguns dos seus projetos para o primeiro trimestre de 2023. "As cadeias de abastecimento de tudo o que é material elétrico e eletrónico, designadamente os semicondutores, estão com atrasos gigantescos. Não é de hoje, já se vem sentindo há mais de um ano, mas agravou-se. Peças que receberíamos em 11 ou 12 semanas, levam, agora, 34 a 36 semanas", explica José Luís Barroso, sublinhando que "há uma série de constrangimentos a gerir que estão a criar um delay enorme na capacidade de faturar. Kathy confirma: "Há mercado e procura, mas os prazos de entrega estão muito longe do período pré-pandemia", frisa.

A Siroco exporta 100% do que faz na área da cravação para os países do Magrebe, mas também para o México, Roménia ou França. Estados Unidos e Canadá são a mais recente aposta, não só nesta área, como também na automação, área de negócios em que a empresa tem estado mais focada em mercados europeus, como a Alemanha, França e Espanha.

Ysium: mecânica de precisão para indústria espacial

Habituada a trabalhar para grandes marcas mundiais e a cumprir os seus exigentes critérios de qualidade - a começar pela Leica, que esteve na base da sua constituição -, a Ysium, de Vila Nova de Famalicão, vai à feira de Hannover para aumentar a sua visibilidade internacional.

Com apenas oito anos de existência, esta é uma empresa especializada no desenvolvimento de produtos e serviços na área da mecânica de precisão, não só no campo da ótica, mas também para as indústrias aeroespacial e bicicletas, e que não precisou, até agora, praticamente de procurar clientes. O passa-palavra tem assegurado que são os potenciais clientes a procurar a Ysium, diz o fundador. De qualquer forma, Hugo Freitas acredita que é tempo da empresa começar a tem uma "maior exposição ao exterior, de modo a dar a conhecer o seu potencial" e a presença em Hanôver é o primeiro passo nesse sentido.

Com uma equipa muito jovem - são 70 trabalhadores com uma idade média de 32 anos -, a Ysium tem crescido consecutivamente, mesmo em pandemia, e fechou 2021 com vendas de seis milhões de euros. Exporta, direta e indiretamente, 95% do que produz e tem na Alemanha o seu principal mercado, com uma quota de 60%. Mas vende também para outros países europeus e para os Estados Unidos.

As perspetivas para 2022 são boas, garante, já que a empresa tem tido muito trabalho. Espera crescer "alguma coisa" em 2022, embora tenha alguns projetos em carteira que, se arrancarem, alavancarão um "crescimento significativo" do volume de negócios. "Temos a nossa capacidade tomada, mas crescemos em função das necessidades, temos a estrutura montada nesse sentido, com espaço livre e capacidade para adquirir equipamentos novos e a tecnologia que se revele necessária para dar resposta à procura", explica o jovem empresário que estima em mais de 10 milhões de euros o investimento acumulado na Ysium. Só três milhões foram realizados no ano passado, essencialmente em equipamentos e infraestruturas. Parte para Hanôver com grandes expectativas. "Quem procurar qualidade e produto de valor acrescentado, chave na mão, pode contar connosco", sublinha.

TSF: máquina de soldar por fricção é a grande novidade

Presença habitual na feira há cerca de uma década, a TSF - Metalúrgica de Precisão terá, este ano, além do seu stand habitual, um espaço na área dedicada ao I&D no Pavilhão de Portugal para dar a conhecer a sua mais recente inovação, uma máquina de soldar por fricção, que permite soldar materiais diferentes, desenvolvida em parceria com o INEGI. A tecnologia de soldadura por fricção já existe, mas uma máquina com a dupla função de soldar e maquinar, "será única no mundo", e está em processo de registo de patente.

Especialista em maquinação e assemblagem, a TSF trabalha para indústrias tão exigentes como a aeronáutica - faz as ferramentas para a manutenção dos aviões da Airbus -, a energia nuclear e a cosmética e perfumaria, área que fornece as máquinas que enchem os frascos de perfume de grandes marcas de luxo como a Dior ou a Chanel, entre outros. Este segmento, de negócio, refira-se, foi o único que cresceu em pandemia", com as máquinas a serem adaptadas para o enchimento dos frascos de álcool-gel, diz o CEO da TSF, Pedro Sousa.

Com grande presença no mercado francês, que vale cerca de 60% das suas vendas, a empresa da Trofa está apostada em reforçar o seu peso na Alemanha - com uma quota de 10%, não tem ainda a expressão pretendida -, a par do crescimento para os países nórdicos. Com 120 trabalhadores e uma faturação que espera ser superior a 7 milhões, a TSF tem um investimento acumulado de mais de 10 milhões nos últimos quatro anos, com destaque para a digitalização e, mais recentemente, para a robotização da soldadura. Mas tem já novos investimentos em vista, não para aumentar a sua capacidade produtiva, mas para aumentar a sua produtividade em cerca de 30% através da substituição de equipamentos por outros mais modernos. Aguarda por novidades do PT2030. Além disso, para o ano, pretende construir uma zona de assemblagem à parte, "sem riscos de contaminação", tendo em vista clientes como o setor aeronáutico.

O preço da energia, das matérias-primas e dos transportes são as maiores preocupações de Pedro Sousa, a par da falta de profissionais qualificados. "Precisava de mais 10 ou 15 pessoas para entrada imediata", admite.

Bosch: Computador de bordo para eBike e um corta-relvas robotizado de Portugal para o mundo

Presente em Portugal desde 1911, a Bosch é hoje um dos maiores empregadores do país, com quase 6 mil trabalhadores, e o segundo maior exportador nacional, a seguir à Autoeuropa. Constitui, por isso, um dos exemplos do sucesso do investimento alemão em Portugal, o que não admira, atendendo que, só este ano, vai investir mais 100 milhões de euros nas várias unidades que tem no país e criar 300 novos postos de trabalho, prova de que o grupo "continua a acreditar no talento dos portugueses".

Uma das áreas de maior aposta da Bosch no país é na investigação e desenvolvimento, pelo que não admira que não faltem inovações 'made in Portugal' para apresentar na Hannover Messe. É o caso do computador de bordo Nylon, desenvolvido na unidade de Braga para o segmento Ebike, e que "oferece navegação a bordo, monitorização de fitness, uma função de bloqueio digital, informações de alcance baseadas em topografia, além de conectar a eBiker ao mundo digital via Bluetooth e WiFi".

Da fábrica de Ovar para Hanôver vai um corta-relvas robotizado. "A navegação inteligente LogiCut calcula a rota de corte mais eficiente, poupando tempo e energia. Utilizando a previsão meteorológica mais recente, a funcionalidade SmartMowing agenda o corte para o momento certo, nas condições meteorológicas adequadas, para os melhores resultados", explica a Bosch Portugal.

Além disso, irá ainda apresentar o projeto Safe Cities, uma parceria com a Universidade do Porto, que se propõe "e responder e antecipar os desafios que se colocam às sociedades urbanas modernas, cada vez mais dependentes da evolução tecnológica nos campos da sensorização, transmissão de dados, armazenamento e processamento inteligente remoto, para suprir as suas necessidades de segurança, privacidade, conforto e eficiência".

Questionado sobre a edição deste ano da mais importante feira industrial do mundo, o responsável da Bosch em Portugal destaca o empenho da empresa em dar o seu contributo "na divulgação das vantagens que Portugal pode oferecer como país a quem pretende investir". Carlos Ribas acredita que esta é, "seguramente, uma oportunidade única para dar mais visibilidade e aumentar a notoriedade de Portugal; vamos falar e mostrar a qualidade do ensino e formação, das competências únicas, da competitividade custo/beneficio, das parcerias empresas academia, a resiliência do nosso povo, a criatividade e capacidade inovadora, a estabilidade geral do país, um dos mais seguros do mundo. Estes, apenas alguns exemplos pela qual acreditamos que Portugal Makes Sense".

Siemens: Do sistema de localização de veículos autónomos às centrais de dessalinização implementadas em Cabo Verde

A Siemens Portugal é outra das 109 empresas nacionais que estarão na Hannover Messe, contando com uma delegação de cerca de 40 clientes e parceiros nacionais na indústria, infraestruturas e energia. Vai aproveitar para demonstrar o papel da sua tecnologia na " transformação digital dos negócios dos seus clientes e na resposta aos seus desafios de sustentabilidade".

O sistema de localização - em tempo real - de veículos autónomos desenvolvido para a Autoeuropa, o sistema de gestão inteligente de resposta a inundações, energia e qualidade das águas balneares, uma parceira com a Águas do Algarve e várias universidades portuguesas, ou as duas centrais de dessalinização que implementou, em parceria com a Acciona, em Cabo Verde são alguns dos projetos que irá mostrar na Hannover Messe. Mas não só. Em destaque estarão também dois importantes Hubs exportadores que a Siemens AG localizou em Portugal: o Cranes Engineering Hub, que moderniza portos na região EMEA, e o Intralogistics Hub, que desenvolve soluções logísticas para armazéns automáticos, acrescenta.

Por fim, na área das infraestruturas inteligentes será possível conhecer o projeto de armazenamento de energia e gestão de microrrede que a empresa está a desenvolver na Ilha Terceira para a EDA - Electricidade dos Açores, e a parceria que estabeleceu com a CaetanoBus que visa a eletrificação e descarbonização de autocarros.

Em Portugal há 116 anos, a Siemens assume-se como uma "parceira tecnológica" no desenvolvimento do país. "Somos um exemplo bem-sucedido do investimento alemão, que de forma sustentável e continuada se tornou num dos maiores empregadores e exportadores em território nacional. Temos feito parte do processo de digitalização e modernização da indústria nacional neste longo percurso, integrando meritoriamente a missão de Portugal Partner Country na Hannover Messe 2022. Neste importante evento a nível europeu e mundial sairão, com certeza, boas oportunidades para colaboração com muitas empresas industriais portuguesas e internacionais", afirma o CEO da Siemens Portugal, Pedro Pires de Miranda.

A Siemens é não só o terceiro maior empregador alemão em Portugal, com mais de 3000 colaboradores de 58 nacionalidades, como constitui o 10º ao nível da faturação, com 378 milhões de euros em 2021. A empresa exporta para 37 países, num total de 158 milhões no seu último exercício, que terminou a 30 de setembro de 2021, sendo a 11ª maior exportadora alemã no país.

Efacec: Soluções para a mobilidade elétrica e transição energética

É outra das presenças habituais, e este ano estará em Hanôver a mostrar o seu portefólio consolidado nas áreas de Energia, Mobilidade e Ambiente, que comprova o seu pioneirismo e inovação nestas áreas, onde se incluem as soluções de Mobilidade Elétrica, essenciais para a adoção de energias sustentáveis e limpas, com vista à descarbonização.

Em comunicado, a empresa liderada por Ângelo Ramalho destaca que "a Hannover Messe 2022 é uma oportunidade única de afirmação nacional junto dos principais "players" mundiais da transformação industrial e do reforço do envolvimento da oferta nacional com empresas alemãs e a captação de investimento estrangeiro para Portugal."

A empresa vai, ainda, apresentar as suas soluções de mobilidade elétrica na conferência 'Desafios estruturais na adoção generalizada de veículos elétricos', que contará com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior, Elvira Fortunato. "Em análise estará o papel crescente do hidrogénio na substituição dos combustíveis fósseis, a par da reinvenção das redes de carregamento cuja tendência é a substituição de redes convencionais das estações de serviço para o fornecimento descentralizado, porta a porta", refere. Participará, ainda, na conferência 'Soluções de energia', onde serão abordadas as tecnologias para a transição energética.

A presença na Hannover Messe coincide com o início de circulação do metro ligeiro de Odense, na Dinamarca, o maior projeto de mobilidade urbana executado pela empresa fora de Portugal, "bem como o mais complexo e abrangente do ponto de vista técnico", um contrato de 50 milhões que teve início em julho de 2017.

Bresimar:

Com presença sucessiva na Hannover Messe desde 2013, a Bresimar, empresa especializada em equipamentos, sistemas e soluções para automação industrial, conta com 110 colaboradores e faturou, o ano passado, 13 milhões de euros e espera, este ano, crescer 10%.

Com presença em mais de 20 países, a empresa desenvolve e fabrica, sob a marca Tekon Electronics, sensores e equipamentos eletrónicos, desde sondas e transmissores de temperatura a sondas de nível e sistemas de transmissão de valores de processo via wireless e também solução OEM.

"A Hannover Messe, será visitada por centenas de milhares de pessoas, abrindo uma oportunidade com um alcance de nível global e, dessa forma, estamos otimistas pelo potencial tremendo em gerar clientes. Seja no stand, nas conferências ou nos showcases, o nosso contributo passa por enriquecer a presente edição com dinâmicas de valor, apresentando as nossas valências, experiência e criação de valor para o cliente", refere o responsável da Bresimar Automação, João Breda, citado em comunicado.

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