Indústria

Insolvências voltam a aumentar na metalurgia, têxtil e calçado

Eólicas. Foto: REUTERS/Jose Manuel Ribeiro
Eólicas. Foto: REUTERS/Jose Manuel Ribeiro

Apesar do número total de falências estar a cair desde a crise financeira, há sinais de alerta em algumas indústrias. Na metalurgia e na moda, as maiores exportadoras portuguesas, em nove meses já se registaram mais processos de insolvência do que em todo o ano de 2018.

O anúncio em letras bem grandes foi publicado na edição de ontem de um jornal diário e dá conta da venda, em leilão eletrónico, de máquinas para a indústria do calçado. Em causa a falência da Calçado Bangue, de Romariz, Santa Maria da Feira. É uma das 238 empresas da indústria têxtil e da moda que, desde o início do ano, estão com processos de insolvência a correr nos tribunais portugueses, um aumento de 42% face ao período homólogo.

Mas a situação não é exclusiva do calçado. As insolvências nos têxteis e na metalurgia somam, nos primeiros nove meses do ano, mais do que no total de 2018. O arrefecimento da economia europeia, a preferência da gigante espanhola Inditex por fornecedores marroquinos ou turcos e a concorrência da China, que está a colocar em dificuldades os produtores europeus de torres eólicas, são algumas das explicações.

A questão mereceu já um alerta do Fórum para a Competitividade que, nas suas perspetivas empresariais relativas ao terceiro trimestre de 2019, destacou os “riscos elevados” nos setores do têxtil e do calçado. Em causa, segundo a entidade presidida por Pedro Ferraz da Costa, estão não só as insolvências, “com aumentos de 40% no têxtil e de 16% no calçado, num enquadramento geral de quebra de insolvências de 9% até setembro de 2019”; mas também “a evolução negativa das exportações”, com quebras de 1,1% e 7,5% até agosto, num contexto de crescimento global das exportações de 2,1%.

“As empresas que ainda trabalham na lógica do preço baixo estão condenadas a prazo. Sem outros elementos de diferenciação, são simplesmente trocadas mal apareça um concorrente, no norte de África ou na Ásia, que faça mais barato, nem que seja por um cêntimo”, diz o diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP). Paulo Vaz admite não ter forma de saber que empresas faliram, apontando para “pequenas confeções a feitio, que trabalhavam, essencialmente, com base no preço”, e garante que a realidade geral da fileira é muito mais do que isso.

“A indústria têxtil e do vestuário (ITV) portuguesa realizou uma enorme transformação, na última década. A generalidade das suas empresas modernizou-se, qualificou-se, investiu na inovação tecnológica e na diversificação de produtos e mercados. As que não o fizeram foram desaparecendo e este incremento das falências atinge precisamente aquelas que não conseguiram fazer essa transformação e levaram ao limite o seu esforço de investimento”, explica. Mas mostra-se confiante: “Não espero nenhum surto semelhante de falências no futuro próximo”.
Do ponto de vista do emprego, a situação não é preocupante, até porque a fileira tem em falta cerca de cinco mil profissionais. “Continua a existir procura de mão-de-obra. Não há sinais de recrudescimento do desemprego por via do aumentado registado das falências”, assegura.

Mais difícil de aferir é a situação da metalurgia e metalomecânica. A campeã das exportações continua em alta, com as vendas ao exterior a crescerem 7% entre janeiro e agosto, os últimos dados disponíveis no INE. Mas a AIMMAP, a associação da indústria, fala em dificuldades num subsetor muito específico da fileira, o das energias renováveis, que levou já a uma série de falências por toda a Europa, fruto da “entrada no mercado de torres eólicas chinesas ao preço da matéria-prima”.

Em Portugal, foi a Tegopi que pagou esse preço. Aquela que chegou a ser a maior produtora nacional de torres eólicas acumulou dívidas de mais de 30 milhões de euros e aguarda agora pelo desfecho das negociações do administrador de insolvência com o grupo Pinto Brasil, que parece interessado em viabilizar a empresa. Caso contrário esta seguirá para liquidação.

Em risco de encerrar está também a Ventipower, de Oliveira de Frades. Propriedade da alemã Senvion, grupo que se apresentou à insolvência no início do ano, a Ventipower ficou de fora do negócio que a Senvion assinou com Siemens Gamesa para a venda de vários do seus ativos, entre os quais a Ria Blades, a fábrica de pás eólicas de Vagos. “Esta área específica das energias eólicas está a atravessar algumas dificuldades, mas não se está a notar nenhuma onda de insolvências na indústria. Mas vamos estar atentos”, diz Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP.

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