Instituto Kiel: Portugal terá de renegociar metade da dívida

Vítor Gaspar
Vítor Gaspar

Mesmo crescendo 2% ou 4% ao ano, não dá. Portugal está numa “situação crítica” e vai ter de renegociar com os credores um desconto de “33% a 50%” da sua dívida pública, diz um estudo do Instituto Kiel para a Economia Mundial, um conceituado centro de investigação da Alemanha.

A dívida da República portuguesa está hoje perto dos 200 mil milhões de euros, o que significa que, na pior das hipóteses, o Governo teria de renegociar cerca de 100 mil milhões, perto de 58% do produto interno bruto (PIB).

De acordo com os economistas David Bencek e Henning Klodt, “será inevitável um haircut radical” em Portugal, Itália e Irlanda. Por esta ordem. Na Grécia também, mas o caso é tão grave (está a caminho da bancarrota total) que é tratado à parte.

O “haircut” não é mais que um desconto substancial concedido pelos credores após negociação dos termos dos empréstimos contraídos pela República Portuguesa de modo a viabilizar o cumprimento – redução das taxas de juro, pagamento em prestações mais suaves, obter um prazo de amortização mais alargado, por exemplo.

Este cenário é totalmente repudiado pelo Governo e, com particular ênfase, pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar. Os governantes dizem que o país tem de cumprir, vai pagar o que deve “custe o que custar” e que as “reformas estruturais” colocarão a economia a crescer outra vez com algum fulgor.

Os peritos alemães consideram que isso não acontecerá em tempo útil. Mesmo com o país a crescer 2% a 4% ao ano, a situação é tão má que Portugal não vai escapar à temida reestruturação da dívida. A fatura de juros a pagar (mais de cinco mil milhões de euros ao ano, até 2015, pelo menos) é demasiado pesada. A economia teria de crescer bem mais que 4% para ter músculo e aguentar todo esse endividamento.

Assim, a única forma de conseguir um volume de dívida sustentável seria renegociar um abatimento no preço de 55% (caso o crescimento seja de 2%) ou de 46% (caso o PIB tenha uma expansão média de 4%). À luz das previsões da troika, em 2014 e 2015, o país estará a crescer pouco mais de 2% ao ano. As simulações de Bencek e Klodt caem que nem uma luva.

O exercício, publicado este mês no âmbito do barómetro do Instituto Kiel parta a dívida pública, mostra que Portugal é o segundo pior caso a seguir à Grécia (ver gráfico). Esta terá de renegociar um desconto de 84% se estiver a crescer 2%. A Irlanda é o terceiro país em apuros: tem de reestruturar 30% do total.

Tal como noticiou ontem o Dinheiro Vivo, a agência Fitch rejeita que Portugal tenha de reestruturar dívida, mas coloca uma condição (também ela repudiada pelo Governo): terá de pedir um segundo pacote de créditos à UE e ao FMI pois não estará apto a regressar aos mercados em finais de 2013, como foi planeado com a troika.

E depois do Estado vêm os privados

Banca Se a profecia dos economistas alemães se realizar (e a probabilidade é alta, à luz dos seus cálculos) – a República terá de entrar em negociação com os seus credores para reduzir o valor facial da dívida pública por eles detida. Aí, levará o tempo de um fósforo a arder até que os privados tenham de fazer o mesmo, designadamente a banca, que está muito endividada no exterior.

O aviso parte da agência de ratings Moody”s, que na semana passada, reduziu a nota de crédito soberana. Para os economistas da agência, quando Portugal ficar sem acesso aos mercados de longo prazo “em Setembro de 2013, como planeado”, aumentará a pressão para o Governo procurar uma reestruturação da dívida.

“Enquanto as perceções desfavoráveis do mercado não afetarem o acesso do setor oficial [público] a financiamento de longo prazo através do apoio do FMI/UE até, pelo menos 2014, e provavelmente depois após essa data, a Moody”s “nota que esse acesso do setor oficial ao financiamento de longo prazo não é uma garantia de suporte dos credores do setor privado”. Assim, continua a Moody”s, “quanto mais longa for a necessidade de apoio do setor oficial, maior a pressão para uma reestruturação [da dívida] do privado”.

A Standard & Poor”s avisa que os credores do setor privado nacional, “sobretudo outros bancos da zona euro, deverão reduzir as suas exposições a Portugal mais rapidamente que o previamente antecipado”.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
EPA/PIROSCHKA VAN DE WOUW

Pokémon Go. A poção para recuperar a Nintendo?

Exploração mineira. Fotografia: André Gouveia/Global Imagens

Governo aprova novos contratos de concessão mineira

kosrae nautilus resort micronesia

Quer um resort na Micronésia? Compre uma rifa de 49 dólares

AG600 hidroavião

China concluiu construção de maior hidroavião do mundo

Cristiano Ronaldo  Foto: EPA/HOMEM DE GOUVEIA

Cristiano Ronaldo dá nome a aeroporto da Madeira

um horário de trabalho mais reduzido é sinónimo de uma vida mais saudável (70%) Fotografia: REUTERS/Neil Hall

Trabalhar mais de 40 horas? Sim, mas com salário maior

Conteúdo Patrocinado
Instituto Kiel: Portugal terá de renegociar metade da dívida