Energia

InterConnect. Portugal lidera projeto europeu para revolucionar sistema elétrico

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A coordenação do projeto, que tem um financiamento de 36 milhões de euros, ficará a cargo do INESC TEC.

Imagine um cenário em que os eletrodomésticos e todos os aparelhos que temos em casa se tornam inteligentes – desde o secador de cabelo, à máquina de lavar roupa, ao fogão e até ao frigorífico – e comunicam entre si através de uma plataforma comum que gere o portfólio energético da habitação: uma espécie de box, ou sistema na cloud, que une os diferentes pontos da rede elétrica doméstica e interage com os vários dispositivos.

Parece um cenário futurista, mas poderá ser uma realidade já daqui a quatro anos, através do ambicioso projeto europeu InterConnect, que conta com liderança portuguesa e acaba de ser aprovado pela Comissão Europeia, ao abrigo do programa Horizonte 2020, para desenvolver e demonstrar soluções avançadas para a digitalização do setor elétrico. A coordenação deste projeto, que vai contar com um financiamento de 36 milhões de euros, ficará a cargo do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), sob a supervisão da ANI – Agência Nacional de Inovação, entidade responsável pelo acompanhamento, apoio e monitorização do atual programa comunitário Horizonte 2020.

O InterConnect é assim, o maior projeto colaborativo europeu, até ao momento, coordenado por uma entidade portuguesa no âmbito dos programas quadro de investigação e inovação. “As soluções desenvolvidas no âmbito do InterConnect vão permitir uma digitalização do sistema elétrico baseada numa arquitetura internet das coisas (IoT) que, contemplando tecnologias digitais (inteligência artificial, blockchain, cloud e big data), garanta a interoperabilidade entre equipamentos, sistemas e a privacidade/cibersegurança dos dados dos utilizadores”, explicou ao Dinheiro Vivo David Rua, investigador sénior do Centre for Power and Energy Systems do INESC TEC. O InterConnect mobilizou 140 entidades europeias e inclui a participação de 56 entidades de 11 países europeus, com uma duração de quatro anos.

Com data marcada para arrancar em outubro de 2019, e durar até 2023, o InterConnect vai desenvolver na prática uma “uma lógica interoperável, aberta, e não dependente de fabricantes com sistemas próprios já existentes”.

“Queremos uma solução que dê para todos. Se eu trocar uma máquina de lavar inteligente da Bosch por outra da Siemens, por exemplo, não terei de trocar plataforma que gere as máquinas. Com a normalização da troca de informação, o projeto assenta no desenvolvimento de metodologias para garantir que não há constrangimentos para o consumidor final ou para quem explora serviços, que não fica preso a fabricantes ou a soluções próprias fechadas. Os fabricantes têm de adotar uma interligação aberta, mesmo que fechem os seus sistemas por uma questão de proteção de negócio. Têm de criar um interface de acesso, um endpoint de troca de informação com as máquinas”, explica David Rua. Na prática, trata-se de “permitir que todos os aparelhos comuniquem entre si através de plataformas comuns e um sistema modular”.

Com os operadores de redes de distribuição de eletricidade nacionais, como é o caso da EDP Distribuição, em Portugal, a investir forte na modernização e inteligência das redes elétricas (550 milhões de euros já investidos até dezembro de 2018 e mais 230 milhões na calha até 2022), tratam-se no entanto de soluções que, ainda que digitais, têm um modelo de negócio por norma fechado.

Mesmo assim, garante David Rua, as novas redes inteligentes da EDP Distribuição também elas estarão disponíveis para acesso via endpoint. “A telecontagem pode ser via plataforma na cloud e os dados recolhidos disponibilizados aos consumidores ou a terceiros” explica o responsável do INESC TEC, sublinhando sempre “o respeito, no caso da telecontagem, pela propriedade, privacidade e segurança dos dados associados”. O projeto terá assim a capacidade de assegurar a interoperabilidade entre os sistemas da EDP Distribuição e a sua interligação com os consumidores finais e prestadores de serviços, nomeadamente no caso da telecontagem mas respeitando sempre a privacidade dos dados recolhidos.

No total, a EDP Distribuição vai investir quase 800 milhões de euros para modernizar uma rede na qual “atualmente já 70% do consumo de energia é recolhido por telecontagem”, ou seja, remotamente.

Enquanto um dos parceiros do projeto InterConnect, a EDP Distribuição participará no final de 2021 num projeto-piloto com cerca de 250 casas onde já foram feitos no passado outros pilotos com contadores e redes inteligentes. Em Portugal decorrerá um segundo projeto-piloto num segmento não doméstico, com a Sonae, para a análise da gestão de energia em seis lojas Modelo Continente espalhadas por todo o país.

Além de Portugal, outros sei países europeus vão acolher projetos piloto diferentes entre si no âmbito do InterConnect: Itália, Grécia, França, Alemanha, Holanda e Bélgica. “Todo o framework tem de ser testado para podermos tirar conclusões”, diz o investigador.

Já Eduardo Maldonado, da ANI – Agência Nacional de Inovação, salientou ao Dinheiro Vivo que “a missão é conseguir que haja cada vez mais uma participação portuguesa ativa, eficaz, e com bons resultados, com o objetivo de que mais entidades portuguesas possam liderar projetos importantes e conseguir retorno para a investigação nacional”.

“Este é o maior projeto colaborativo de sempre coordenado por uma entidade portuguesa, numa área muito atual, em que Portugal tem sido líder, como as renováveis e as redes inteligentes”, disse o professor Maldonado, que sublinha a crescente participação portuguesa nos fundos comunitários: no 7º programa quadro, com 1,22% do orçamento comunitário disponível, e agora com com 1,6%, o que representa um aumento de mais 30% (acima dos 1,5% previstos inicialmente). No programa que se segue, o Horizonte Europa, entre 2021 e 2027, o alvo é saltar para os 2%.

Também os orçamentos estão maiores: de um valor médio de 80 milhões de euros por ano no 7º programa quadro para mais de 120 milhões de de euros por ano do Horizonte 2020. “São excelentes indicadores e a CE já reconheceu que Portugal foi um dos países que melhorou mais. Temos bons investigadores e boas empresas”, frisou o responsável da ANI

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