Airbus quer avião comercial a hidrogénio dentro de 14 anos

Construtora está a trabalhar numa aeronave que produza zero emissões de carbono e espera vê-la no mercado a partir de 2035. EasyJet quer governos a apoiar a transição.

A fabricante francesa de aviões Airbus acredita que o hidrogénio é a resposta para a descarbonização da indústria da aviação. E já arregaçou as mangas para desenvolver aeronaves para o segmento comercial que possam ser movidas por este elemento químico, produzindo, assim, zero emissões de carbono. Ambiciona que estes aviões possam conhecer a luz do dia em 2035.

Para isso, a Airbus quer o envolvimento de todos os atores: de fabricantes a companhias aéreas e reguladores. "Este desafio não é apenas sobre um avião. Não é uma questão que a aviação possa gerir sozinha. Dada a quantidade de mudanças que vamos trazer para a aviação, precisamos [do envolvimento] dos reguladores. Há muitas coisas que precisam de ser desenvolvidas, decididas, em termos de regulação. Como é que vamos usar este combustível nos aeroportos e nos aviões? Como vamos certificar o avião? Há um conjunto de desafios no que diz respeito à segurança e durabilidade, porque é tudo novo. É um desafio coletivo. O ano de 2035 para a aviação é já amanhã e, por isso, temos de ser rápidos e rápidos em conjunto", disse Guillaume Faury, presidente executivo da Airbus, num evento organizado pela fabricante nesta semana, em Toulouse (França).

O Acordo de Paris para as alterações climáticas, assinado há mais de cinco anos, estabelece as diretrizes para travar o aquecimento global. Os Estados-membros da União Europeia ratificaram-no e já alcançaram um acordo para colocar o bloco no caminho da primeira economia e sociedade com impacto neutro no clima até 2050.

A Airbus acredita que as sociedades reconhecem a necessidade de cumprir as metas traçadas pelo Acordo de forma a salvar o planeta e "que a aviação, tal como outras indústrias, tem de cumprir o seu papel", como salienta o vice-presidente para a área dos aviões com emissões zero na Airbus (zero emission aircraft). Glenn Llewellyn assume também: "Na Airbus, levámos esse papel muito a sério e lançámos um conjunto de projetos muito ambiciosos - o das emissões zero é talvez o mais ambicioso - em que temos o objetivo de trazer um avião para o serviço comercial que tenha zero emissões, o que significa ter zero emissões de CO2 durante o voo desse avião. Queremos assegurar o hidrogénio verde como fonte de energia para esse avião, o que significa que mesmo na produção dessa energia não há emissões, porque pode ser produzido através de energias renováveis".

O hidrogénio é a aposta porque não produz emissões de dióxido de carbono (CO2) se for gerado a partir de energias renováveis através de eletrólise, um processo físico-químico. A aposta que está a ser feita pelo setor energético nas energias limpas poderá traduzir-se numa descida do preço do hidrogénio na próxima década, uma vez que será produzido em grande escala, acredita a Airbus. Isto vai significar que vai ser competitivo em termos de custos em relação às opções que já existem, como é o caso do jet fuel, combustível que alimenta os aviões.

"O custo é um parâmetro importante para nós. Se conseguirmos ter um preço baixo, conseguimos escalar mais produtos com emissões zero. O que significa que podemos ter um impacto maior no clima. Focamo-nos no que se chama dólares por tonelada de CO2 evitados, ou euros por tonelada de CO2 evitado, isto é uma métrica muito importante para nós. Trabalhamos com as cadeias de abastecimento energéticas e com os aeroportos", diz, acrescentando que os engenheiros da companhia "estão focados em que os custos sejam equilibrados com o desempenho e construção da aeronave".

Mas voar num avião com zero emissões de carbono será muito caro? "Queremos [que os preços, nos aviões com emissões zero] estejam muito próximos do que temos hoje, em termos de bilhetes", aponta Glenn Llewellyn.

EasyJet que apoios públicos
A companhia aérea easyJet vê com bons olhos a transição para o hidrogénio, mas quer apoios dos governos. "O que quero reiterar - algo que é tanto para governos como para a Comissão Europeia - é que é necessário assegurar que há um enquadramento dos governos que assegure que esta transição acontece. O que precisamos dos governos é que haja financiamento a chegar à investigação e desenvolvimento", defendeu em conferência de imprensa Johan Lundgren, CEO da easyJet, em Toulouse. A low cost quer que os Executivos na Europa apoiem o desenvolvimento de infraestruturas e fornecimento de hidrogénio nos aeroportos, bem como investimentos em energias renováveis para apoiar a criação de hidrogénio verde para a aviação. A easyJet defende também que as verbas que os governos obtêm através dos impostos pagos pela aviação sejam canalizadas para suportar a investigação e desenvolvimento.

"O que precisamos dos governos é que haja financiamento a chegar à investigação e desenvolvimento. Os fundos estão disponíveis através de impostos", disse. Por outro lado, apontam que as transportadoras que sejam pioneiras na adoção destas tecnologias de emissões zero tenham incentivos: redução das taxas aeroportuárias e de controlo do espaço aéreo, isenções fiscais se voarem com aeronaves com emissões zero e prioridade nos slots. "É necessário que haja incentivos para as empresas que assumem estes projetos (...). Estamos a ter pouco reconhecimento no que diz respeito a impostos e taxas e isso não pode ser porque isto custa-nos dinheiro. Se os governos e a Comissão estão empenhados na descarbonização na indústria, isto deveria ser reconhecido", acrescentou.

Luta pelo talento
Para conseguir proceder à transição para uma aviação sustentável, a Airbus admite que precisa cada vez mais de talento altamente qualificado e a resposta a essa necessidade surge de duas maneiras: contratando e requalificando. "Estamos todos a concorrer pelas mesmas competências no mercado. Por isso, temos de marcar a diferença", afirmou Thierrry Baril, diretor executivo de recursos humanos da fabricante, durante um painel da conferência, em Toulouse.

"Na Airbus, há competências críticas em que contratamos, mas também em que vamos requalificar os nossos trabalhadores ligados às [energias] limpas e ao aeroespacial. Lembro-me de criogenia, do hidrogénio. Há as operações de manufaturação, bem como, digital, cloud, inteligência artificial e o marketing digital. Vamos contratar mas também melhorar as competências", afiançou.

Jornalista viajou a convite da Airbus

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