Evergrande, o gigante em apuros que está a deixar os investidores nervosos

Mercados temem que o incumprimento do gigante chinês tenha réplicas em outras latitudes e negoceiam no vermelho.

Ana Laranjeiro
Pessoas juntaram-se à porta da sede da Evergrande, em Shenzhen, temendo a falência © Noel Celis/AFP

A China é a segunda maior economia do mundo e, por isso, quando um dos seus gigantes apresenta dificuldades, os investidores ficam nervosos. O Evergrande é um conglomerado chinês que está com dificuldades em reembolsar juros de empréstimos que contraiu. Se entrar em incumprimento, pode representar perdas para várias empresas no mundo inteiro. Estando alguns gigantes americanos com particular exposição às perdas.

As instituições financeiras Blackrock, HSBC e UBS são das que mais têm obrigações do conglomerado chinês do imobiliário Evergrande, divulgou na quinta-feira a empresa de informação e análise para investimento Morningstar. Só a Blackrock, a maior sociedade gestora de investimentos do mundo, investiu 31,3 milhões de dólares (26,7 milhões de euros) na Evergrande entre janeiro e agosto deste ano, mas o seu impacto é reduzido, pela presença escassa nos ativos desta gestora de investimentos, cujo valor ronda os 10 biliões de dólares.

Ainda assim, os 260 mil milhões de euros de dívida da Evergrande representam só 2% do total do crédito imobiliário na China. O que leva os analistas a afastar a possibilidade de a Evergrande vir a ser um Lehman chinês e provocar uma crise mundial. Para já.

ui Ka Yan fundou a Evergrande em 1996 na cidade Guangzhou, no sul da China. E, de acordo com a BBC, este conglomerado inclui vários ramos de atividade: desde a gestão de fortunas, à produção de alimentação e bebidas, de carros elétricos e ao imobiliário. Atualmente, a unidade de imobiliário conta com mais de 1300 projetos, espalhados por mais de 280 cidades chinesas. Com pouco mais de 20 anos de existência, a Evergrande é uma das maiores empresas da China e, para conseguir alcançar esse patamar, contraiu elevados créditos: 300 mil milhões de dólares, qualquer coisa como quase 256 mil milhões de euros, segundo a imprensa internacional. Até ao ano passado, o elevado endividamento da firma não terá sido um problema. Mas, em 2020, Pequim decidiu apertar as regras para controlar os montantes de dívida que estavam nas mãos dos grandes promotores imobiliários. E, para responder às novas exigências, a Evergrande começou a vender ativos a preços muito mais baixos, de forma a tentar assegurar que tinha capital para manter a empresa equilibrada, escreve a BBC.

Mas porque estão os investidores preocupados? Por um lado, muitos cidadãos compraram propriedades à Evergrande antes que os projetos saíssem do papel, tendo pago depósitos que estão agora em risco, e por isso, já desencadearam protestos em frente à sede da empresa. Por outro lado, a gigante tem relações comerciais com outras empresas - de fornecedores a subcontratações - que podem perder dinheiro se a Evergrande entrar em colapso. E, a queda deste gigante, poderá ter impacto no sistema financeiro chinês, levando potencialmente os bancos a conceder menos crédito, como avança a BBC.

Tendo em conta a relevância da economia chinesa para o crescimento mundial, a queda deste gigante pode ser sinónimo de problemas à escala global. Para já, a incerteza quanto ao futuro deste conglomerado já teve efeitos nos mercados financeiros. As bolsas europeias estiveram durante a manhã desta sexta-feira a negociar no vermelho.

Na quinta-feira, o gigante tinha de reembolsar 83,5 milhões de dólares (71,2 milhões de euros) em juros de obrigações emitidas em dólares, sendo que o prazo passou sem que a empresa o tivesse feito. E, de acordo com a Reuters, que cita duas fontes com conhecimento da situação, os detentores de obrigações não receberam nem tiveram qualquer comunicação por parte da empresa. Passado este prazo, o conglomerado tem 30 dias para pagar ou vai entrar em incumprimento. O facto de a empresa ter reembolsado já nesta semana investidores domésticos é - defende Karl Clowry, da Addleshaw Goddard, citado pela Reuters - "parte de uma tática em qualquer processo de reestruturação" que passa por manter as pessoas sem informação.

O banco central chinês injetou nesta sexta-feira novamente dinheiro no sistema bancário, algo encarado como apoio aos mercados. A dúvida que persiste é saber se Pequim está disponível para resgatar o conglomerado.

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