O que separa a economia de Biden e Trump e a 'maré' da pandemia. A análise do economista Pedro Brinca

O comentário do economista e professor Pedro Brinca, da Nova SBE, à noite eleitoral nos Estados Unidos.

Pedimos ao economista, professor e investigador da Nova SBE - especializado em macroeconomia - Pedro Brinca um comentário sobre os reflexos económicos que as eleições dos Estados Unidos podem ter na economia norte-americana, mundial, europeia e portuguesa. Já sobre os mercados, o analista admite que mesmo que não haja já uma vitória de Biden esta madrugada eleitoral, isso até ter impacto positivo pelos mercados.

Segue então o comentário do analista Pedro Brinca:

"Os planos económicos de Trump e de Biden diferem em várias vertentes fundamentais, sendo que as mais diretamente relevantes para os mercados no imediato possam ser as relacionadas com o sistema fiscal. Trump quer estender o alívio fiscal às famílias que deu às empresas no mandato que está agora a terminar.

Biden quer subir a taxa de imposto sobre os lucros das empresas cerca de 7 pontos percentuais, taxar ganhos de capital e dividendos às taxas normais para queles que tenham rendimentos anuais acima de 1 milhão de euros e impor uma taxa mínima de 15% no lucro contabilístico das empresas. Em cima disto, Biden quer também duplicar a taxa de imposto sobre lucros que empresas estrangeiras subsidiárias de empresas americanas ganham, para 21%. Neste contexto, a lógica ditaria que os mercados iriam penalizar uma eventual vitória dos democratas. E de facto, durante o mandato de Trump, as empresas americanas tiveram uma capitalização bolsista muito mais forte quando comparadas com o resto do mundo.

No que diz respeito às infraestruturas, ambos os candidatos prometem programas de melhoramento e expansão de mais de 1 trilião de dólares, com a grande diferença a ser que os republicanos não quererem gastos em infraestruturas nos pacotes orçamentais de combate à pandemia (ao contrario dos democratas), e de que o plano de Biden tem em linha de conta medidas de combate às alterações climáticas.

Na saúde, Trump volta a reafirmar a intenção que já tinha anunciado aquando da anterior eleição de cortar nos custos do Medicare e Medicaid, enquanto que Biden quer promover um plano público de saúde, opcional, e baixar a idade de eligibilidade para o Medicare para os 60 anos.

No comércio internacional, Trump continua a focar a sua atenção numa retórica forte contra a China, algo que também se encontra no discurso de Biden mas num contexto de esforço diplomático conjunto com países aliados.

No mercado de trabalho, ambos os candidatos acreditam que os respetivos programas de investimento em infraestruturas criem postos de trabalho. Trump continua a promover o seu slogan de "Comprar Americano, Contratar Americanos" e opõe-se ao aumento do salário mínimo para 15 dólares, proposto por Biden.

Nas questões climáticas, a posição de Trump continua a ser a de que estas são uma teoria da conspiração, enquanto que Biden quer atingir o objetivo de ter zero emissões em 2050.

Por fim, na questão dos empréstimos para estudos, que têm crescido a uma velocidade acentuada, Biden quer perdoar os empréstimos para as pessoas com rendimentos mais baixos, enquanto que Trump quer eliminar subsídios e perdões de dívida a funcionários públicos, propondo um plano de reembolso que limita os pagamentos mensais a 12.5% do rendimento, diminuindo o prazo ao fim do qual é concedido um perdão da dívida remanescente em 5 anos para os alunos que tenham feito os empréstimos no âmbito de um curso de primeiro ciclo de estudos superiores, de 20 para 15, e um aumento do período de carência para os que o tenham feito no âmbito de estudos graduados, de 25 para 30 anos.

Independentemente de todos estes programas e dos respetivos impactos esperados na economia, a evolução da pandemia irá com toda a certeza condicionar de forma determinante quaisquer políticas a adotar nos próximos anos, pelo que a enorme incerteza que se põe mais do que domina quaisquer previsões que possam ser feitas com base nas diferenças dos respetivos programas.

Não havendo um vencedor anunciado durante a noite eleitoral de hoje, a consequência direta é da manutenção de um nível elevado de incerteza. Não obstante, assumindo que as expetativas seriam a de que o resultado da noite eleitoral seria suficiente para assegurar uma vitória de Biden, e que os mercados beneficiariam de uma vitória de Trump, é possível que isso tenha um impacto positivo nos mercados."

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