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Isaltino Morais “Nos próximos anos, Oeiras vai precisar de 12 500 engenheiros”

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Concelho tem mil milhões de investimento privado aprovado e projetos que vão da educação ao turismo.

Com mil milhões de investimento privado aprovado e projetos que vão da educação ao turismo, o presidente da câmara explica os seus planos para Oeiras. Conta porque voltou a querer liderar a autarquia e admite uma recandidatura.

Como tem sido este regresso à vida de autarca? Agitado?
Hoje já tive três ou quatro eventos: uma inauguração, a abertura da ComicCon, a assinatura de um protocolo solidário para levar tratamento de dentes aos habitantes de um bairro social… é a rotina de todos os dias. O poder local não funciona como a administração central: o poder central funciona no horário de expediente, das 9.00 às 17.00, aqui funciona-se o dia todo – e a noite.

Abordam-no muitas vezes na rua?
Sim, estou sempre a trabalhar. E eu até ando na rua para falarem comigo, para conhecer melhor a realidade e para poder ter contacto com aqueles que ainda acham complicado marcar uma audiência na câmara. Eu faço audiências todos os dias, mas oficialmente são às quintas-feiras. Acontece que não há semana em que não dê volta ao concelho todo, até para ver se há problemas de limpeza, o estado dos jardins – gosto de fazer isso à noite; de dia ando mais para conversar com as pessoas porque há muitos problemas que sem esse contacto nem sabemos que existem.

Dessas conversas saem medidas?
Saem. As pessoas pensam que há muito planeamento, que tudo o que se vai fazer no mandato vem do programa eleitoral, mas há decisões tomadas em função do contacto com a realidade. Por exemplo, a política do medicamento em Oeiras – a comparticipação a 50% dos remédios para quem tem mais de 65 anos (ou 55 se tiver deficiência ou dificuldades económicas) – nasceu no dia em que tive de ir ao Hospital de São Francisco Xavier por um problema na vesícula. Estava à espera dos resultados das análises e alguns idosos que vieram cumprimentar-me queixaram-se que não tinham como pagar os medicamentos. E aquilo não fazia sentido num concelho como Oeiras, que tem uma boa situação económica, é dos mais sólidos do país. E em três ou quatro meses estava montado o sistema com a Associação Nacional de Farmácias. Há muitos casos assim.

Mas também há planeamento. O investimento de 400 milhões até 2027 que anunciou para rejuvenescer o concelho e fazer aquilo o chamado Oeiras Valley.
Isso já é muito planeado… e estamos a atingir o objetivo. O Oeiras Valley é uma marca, o conceito é que importa – e nem todos os concelhos podiam usar esta marca, porque o planeamento, o ordenamento do território, a disponibilidade, a captação de empresas sobretudo de base tecnológica e com empregos de valor acrescentado é uma estratégia com mais de 30 anos. Essa foi a visão extraordinária que tivemos: numa altura em que Lisboa estava deprimida e não neste boom turístico, de renovação e de conforto, Oeiras propôs-se oferecer qualidade, qualidade ambiental, urbana… Então as empresas, sobretudo multinacionais ligadas a tecnologias (de informação, biotechs, etc.), encontraram aqui um espaço de acolhimento de qualidade. Preparámos o território e concentrámos esse investimento em núcleos como o Taguspark, o Lagoas Park, a Quinta da Fonte, o Arquiparque.

Mas que evolução traz o Oeiras Valley?
É um salto qualitativo. Porque ao longo destes 30 anos o território foi muito qualificado, houve investimentos muito fortes na área ambiental, na educação, nos equipamentos sociais e culturais, e hoje temos uma oferta de habitação de qualidade, espaços verdes, cultura… Isso permite uma evolução: antes, uma tecnológica queria instalar-se aqui e encaminhávamo-la para o Taguspark, por exemplo, agora todo o território de Oeiras, os 48 km2 estão vocacionados para acolher universidades, escolas internacionais, empresas de base tecnológica, institutos de investigação…

Oeiras tem condições para ser o hub tecnológico mais importante do país. Aliás, já o é: 30% da base tecnológica instalada em Portugal está em Oeiras. É isso que faz deste o segundo município em volume de negócios, com 24 mil milhões (Lisboa tem 69 mil milhões e o Porto é o terceiro, com 14 mil milhões; Cascais tem 5 mil milhões). Isto dá uma ideia da riqueza, do valor acrescentado. E vai traduzir-se numa intervenção diversificada que passa por investimentos muito significativos na área da educação: queremos ter os melhores alunos do país em Oeiras. Para isso, a partir de 2020 o acesso à universidade será universal no concelho. Já triplicámos as bolsas para 150, mas a partir de 2020 nenhum jovem ficará para trás por não poder pagar a propina. A par disso, apresentámos o Oeiras Educa, programa que intervém em todo o setor, incluindo políticas públicas com efeitos para os alunos, os professores, os pais, tendente a criar um ambiente favorável à aprendizagem, para que cada aluno possa realizar o seu potencial. No dia 17 vamos apresentar a agenda para a ciência e a tecnologia, com Oeiras a tornar-se no primeiro município a investir 1,8 milhões de euros exclusivamente em ciência. Proporcionalmente, investimos mais do que o Estado. Tudo isto justifica os 400 milhões de investimento público municipal.

Como é que se consegue levantar este financiamento, de onde vem o dinheiro?
Justamente da riqueza gerada pelas empresas, que pagam muito em impostos. Oeiras hoje não recebe um euro do Estado, é um de creio que três municípios nesta situação – a par de Lisboa e Cascais – e comparticipamos o Fundo de Apoio Municipal com 5 ou 6 milhões por ano, as nossas fontes de receita vêm da riqueza das empresas.

São receitas de rendas, derrama, etc.?
Sim, e IMI, IMT, mas sobretudo a derrama, que faz entrar na ordem dos 30 milhões de euros. Por isso Oeiras tem obrigação de devolver às empresas – e fazemo-lo criando boas condições de acessibilidade, investindo nos transportes, como o shuttle que vai ligar a estação de Paço d’Arcos aos centros empresariais, etc.

Há aqui também uma vontade de trazer para o concelho mais jovens, mais famílias, constituir-se como uma alternativa a uma Lisboa onde elas não conseguem casa?
É uma das nossas maiores preocupações, e naquilo que é responsabilidade da câmara, nós fazemos; no que é preciso pareceres do Estado é que é pior… Oeiras tem, por exemplo, políticas de habitação 100% financiadas pela câmara, investimos 8 milhões para recuperar prédios no centro histórico que foram comprados pela autarquia para criar habitação jovem.

A preços baixos?
São rendas que, no mercado, seriam de 1200 euros, e nós cobramos 250 (são no máximo T2, porque tentamos maximizar a oferta para podermos receber mais jovens). Depois, temos habitação para famílias carenciadas – que vivem no limiar da pobreza e não têm hipótese de comprar casa ou pagar renda, mesmo esta de 250 euros é um esforço impensável para famílias que vivem com o salário mínimo ou o RSI ou uma pensão de 300 euros – e nesse programa temos famílias a pagar 5 euros/mês (suportado na totalidade pela CMO). Temos um parque habitacional de 4 mil fogos e quando uma família necessitada sai, passamos a casa a outra. Mas temos um problema: o ciclo de pobreza não é quebrado ao mesmo tempo por todos os membros destas famílias e se numa família pode haver uma filha que consegue formar-se em engenharia ou medicina ou o que for, e através da educação apanha o elevador social, um irmão dela pode ser toxicodependente e outro ter um filho aos 15 ou 16 anos… e não podem ficar todos a viver na mesma casa, a CMO tem de fazer o desdobramento, ter casas para acolhê-los. E de repente as casas não chegam…

Tem planos para aumentar essa oferta?
Até ao fim do ano, vamos lançar um programa de 500 fogos, esperamos que com o apoio do governo através do Primeiro Direito, que comparticipa até 40% a fundo perdido. A ideia é começarmos a pôr no mercado casas para a classe média, para famílias que não têm condições para comprar ou arrendar em Oeiras e que a CMO pode lançar no mercado a preço reduzido: T2 e T3 entre os 130 e os 170 mil euros – que no mercado regular custariam acima de 300 mil euros.

É esse o caminho para resolver a falta de habitação? Não passa também pela reabilitação?
A requalificação urbana é um fiasco, uma ilusão. Se quer resolver o problema de quem não tem casa, não é por aí, porque os proprietários de casas nos centros históricos que decidem reabilitar fazem-no com custos muito elevados – e não vai realojar essas pessoas em centros históricos, numa construção de determinado patamar de qualidade, com rendas sociais comportáveis pelas famílias. Se quer resolver o problema de quem não tem casa e é pobre, é preciso construção nova.

Mas recorrendo também a privados?
Sim, já houve esse modelo no tempo do professor Cavaco Silva, o Programa Especial de Realojamento (PER): a câmara colocava terrenos à disposição e os empreiteiros construíam e vendiam à câmara – que depois as arrendava a essas famílias – ou diretamente às famílias que as câmaras indicavam, a preços controlados. Hoje toda a gente diz que as casas estão muito caras, mas há quatro anos dizia-se que havia casas a mais. Os construtores faliam, os bancos tomavam conta das casas e os especialistas, os gurus da economia do nosso país, diziam que as câmaras eram irresponsáveis, tinham colocado demasiadas casas no mercado. Bastaram três anos para vivermos o maior período de especulação imobiliária dos últimos 100 anos. E porquê? É a lei da oferta e da procura: as casas vão continuar caras – podem não subir mais – até a oferta ultrapassar a procura. Mas com a lei dos solos que temos, isso não vai acontecer. Isto está bom para os ricos.

Porquê para os ricos?
Para quem tem terrenos em áreas urbanas nunca foi tão bom, porque havendo pouco terrenos urbanizáveis os preços são incomportáveis. Só se podia baixar deixando as câmaras libertar mais terrenos – não para especuladores mas para a própria autarquia construir ou para os tais PER a custos controlados. Mas quer-se plantar batatas na área metropolitana de Lisboa e mandar a Google para Barrancos.

Mas faz sentido haver espaços verdes.
Mas a CMO até planta batatas. E produz vinho. Aliás, a câmara é o único produtor agrícola em Oeiras. O problema é que é aqui que estão as pessoas, e é muito fácil estabelecer reservas agrícolas e ecológicas mas é preciso coragem para retirar um bocadinho dessas reservas. Mas as pessoas têm de viver nalgum lado! E depois há outro problema: os anos 1980 em Portugal foram tremendos do ponto de vista da má qualidade da construção. Uma sala com 24 m2 era boa, mas hoje uma família quer uma sala com 40 m2, houve um upgrade. Antigamente, os imigrantes ocupavam essas casas, sobretudo ali na linha de Sintra, e os portugueses de classe média – que cada vez há menos – iam comprando casas um pouco melhores. Ora isso parou tudo com a troika e entretanto esgotou-se o que havia. E não só já não há casas construídas como o espaço para novas é caríssimo.

A crise foi desculpa para tudo e a austeridade não se limitou a entrar no bolso dos portugueses, foi também ao território, com a alteração à lei de solos. O PDM de Oeiras hoje é quase todo reserva agrícola e ecológica. E se a CMO quiser fazer casas para os pobres tem de desafetar esses terrenos – e isso demora muito.

Mas porque não recuperar edifícios municipais, por exemplo?
Mas não há! Em Oeiras, os poucos edifícios degradados que havia a câmara comprou-os – e nos bons tempos. Os que há agora não comprará porque atingiram preços proibitivos e são muito poucos – posso dizer que são dois em Paço d’Arcos, quatro ou cinco em Oeiras (dois deles a ser recuperados por nós), em Algés talvez uma dúzia…

Como é a relação de Oeiras com os vizinhos? Cascais é um concorrente ou um parceiro?Parceiro não é, porque lamentavelmente os municípios em Portugal estão de costas voltada uns para os outros. Oeiras, Cascais, Sintra e até Amadora deviam ter coisas em conjunto – já propus isso, por exemplo, podia haver uma revista cultural conjunta, mas nunca se fez porque Cascais e Sintra querem sempre levar a camisola.

Mas hoje, até politicamente, há mais proximidade…
Mais ou menos, porque Sintra é liderada por um socialista, Cascais pelo PSD e Oeiras é independente. Os presidentes entendem-se muito bem, pessoalmente damo-nos lindamente, mas a relação a nível institucional é lamentável. Devia haver um melhor entendimento, articulação de políticas, e não há. Mas diria que somos todos complementares. Repare, Oeiras tem património do século XVIII, tem equipamentos modernos da área ambiental, a marina, o Passeio Marítimo de Algés, a piscina oceânica, duas praias de bandeira azul, tem milhares de eventos, uma atividade cultural muito intensa, tem hotelaria… Já somos dos municípios com mais dormidas, cerca de 500 mil por ano, e temos três hotéis em construção e vêm aí mais seis.

Mas não concorre com Cascais?
Não há propriamente concorrência, porque Cascais, do meu ponto de vista, tem uma vocação turística muito superior de há muitos anos. O nosso core nunca foi o turismo – mesmo os hotéis em Oeiras nasceram por via dos negócios, agora é que, com a grande pressão turística em Lisboa, começa a aparecer um certo movimento turístico. Mas não concorremos turisticamente com Cascais.

E a nível de educação, gostava de ter uma Universidade Nova em Oeiras?
Oeiras tem o Técnico, tem a Nova (Instituto de Tecnologia Química e Biológica), tem a Faculdade de Motricidade Humana, a Escola Náutica, a Universidade Atlântica… Ainda ontem inaugurei a International Sharing School, portanto, em matéria de educação é um espaço de acolhimento de escolas. Mas é nas empresas que nos posicionamos com supremacia e temos um hub tecnológico fortíssimo. Portanto há aqui uma complementaridade e até diria que era bom que as empresas começassem a distribuir-se por toda a área metropolitana.

Esse pensamento a nível metropolitano devia estar mais presente?
Sim, nós temos de olhar para Lisboa de uma forma alargada e não só para a capital. A zona metropolitana devia ter uma maior área de influência. É pena que a Junta Metropolitana não tenha natureza de região, porque fazia sentido ter um governo metropolitano. Basta dizer que Lisboa é a única metrópole que não é região. Por exemplo, os transportes são o calcanhar de Aquiles da Área Metropolitana de Lisboa, por comparação com Madrid, Paris, Londres. Temos transportes públicos miseráveis, porque durante décadas não houve investimento nas infraestruturas e nos equipamentos. Agora, finalmente, os 17 municípios entenderam-se para avançarem com um programa comum, o que significa que no próximo Quadro Comunitário irá haver prioridade ao financiamento a esta área. A ideia dos passes sociais – que Oeiras financia com 2 milhões de euros – é um bom caminho que se encontrou com o entendimento dos municípios e devia repetir-se no ambiente, nos equipamentos, na cultura, do ordenamento do território.

Justificava-se um governo metropolitano?
Claro. Mas Lisboa é contra a regionalização e como as elites em Portugal estão todas em Lisboa e os presidentes de câmara do país têm receio de perder o poderzinho que têm… Eu só teria a perder com a regionalização, mas temos de pensar no país e não é com discursos que se resolve o problema dos incêndios e outros, é dando o poder a quem lá está e não pondo-o na mão de um burocratazinho aqui em Lisboa.

Voltando ao turismo, Oeiras não podia fazer parte da solução daquela ideia antiga de Portugal ser a Florida da Europa?
Oeiras, Lisboa, Cascais, Sintra… não podemos ser só nós. E temos um bocado, mas é difícil aqui a dimensão turística ultrapassar a tecnológica. Oeiras atinge os 24 mil milhões de volume de negócio, Cascais tem 5 vezes menos. O turismo é importantíssimo para o país, mas a posição das empresas aqui é fortíssima. Não descuramos o turismo, aliás estamos a fazer o plano estratégico dessa área e que implica um investimento considerável: em cinco anos, teremos mais nove hotéis, a juntar às atuais mais de 2 mil camas (já ocupamos o quinto ou sexto lugar nacional).

E o turismo de conferências faz sentido para si?
Muito. O centro de congressos do Lagoas Parque está sempre cheio, o do Taguspark idem e vai voltar a avançar o Centro de Congressos de Oeiras, que lançámos há uns anos e tivemos de parar por falta de financiamento da banca quando veio a crise. Agora já comprámos a estrutura, num investimento municipal de 8 milhões, e ainda é preciso investir mais 20 milhões – e temos essa disponibilidade, mas há um par de grupos que demonstraram interesse em fazer esse centro de congressos com um hotel e estamos a negociar essa possibilidade. Quando estiver pronto, terá auditório para 2500 pessoas e capacidade para eventos até 7 mil pessoas. Só Lisboa tem um espaço como este. Portanto, também ao nível do turismo Oeiras vai dar um salto qualitativo, mas do ponto de vista da dinâmica económica as empresas são fundamentais.

Pelo efeito multiplicador?
Sim. Porque é que estamos a investir muito na habitação, na educação, etc.? Porque temos receita das empresas e queremos devolver parte disso: qualidade chama qualidade. Neste momento já temos aprovado investimento privado acima dos mil milhões de euros para os próximos quatro ou cinco anos, e que arrancam já daqui a uns meses. A verdade é que as empresas trazem ao município recursos, emprego de valor acrescentado mas também emprego indiferenciado: a taxa de desemprego em Oeiras hoje é de 3%. E as nossas necessidades de assistentes operacionais são respondidas por pessoas de Setúbal, de Palmela, de Loures, de Vila Franca, porque é difícil contratar para esse tipo de funções em Oeiras. Só nos próximos dois ou três anos, as empresas que aqui estão sediadas vão precisar de 12 500 engenheiros de informática. O país não está a andar todo à mesma velocidade…

E quer ver essas mudanças todas a acontecer? Vai recandidatar-se?
Não faço ideia. Quando me candidatei pela primeira vez, em 1985, o meu objetivo era fazer a transição de 2000 para 2001. Nessa altura, tinha um programa de habitação social para acabar com as barracas em Oeiras – chamaram-me doido, mas eram 5 mil famílias e conseguimos fazê-lo. E foi isso que fez a diferença, porque o investimento social gera uma riqueza extraordinária. O realojamento deu a essas famílias um projeto de vida novo e uma qualidade ao território que permitiu a instalação das empresas. Portanto nunca sonhei estar aqui ainda hoje… Mas é preciso gostar muito de pessoas para ser presidente da câmara, se os abraços são fita as pessoas percebem.

Porque é que se candidatou, depois de ir preso? Nunca achou que não valia a pena?
Pelo contrário. Depois do meu tempo na prisão, pensei várias vezes se votaria em alguém que tivesse passado pelo que eu passei. Pensei: Isaltino, votavas em alguém que tivesse sido preso? E conclui que sim. Se tivesse confiança nessa pessoa, sim, votaria.

E isso não lhe faltou?
Nunca me faltou reconhecimento – e é essa a grande gratificação de um autarca. Uma pessoa pode ter muito dinheiro, ser um grande empresário, dar até nas vistas distribuindo algum solidariamente, mas na política o que conta é o reconhecimento do povo e eu tive-o nos afetos das pessoas. (Agora lembrei-me de uma frase do Rui Rio, que dizia, “sou capaz de me candidatar à liderança do PSD mas se me pedirem muito…”) Eu fui de novo candidato em 2017 porque não podia andar na rua sem me pedirem que me candidatasse, queriam que fosse de novo presidente da câmara. A minha natureza é de muito afeto – não foi o professor Marcelo Rebelo de Sousa que inventou os afetos, há por aí muitos autarcas que são de afetos. E eu sinto esse carinho ainda hoje, porque as pessoas reconhecem quem trabalha. Quando se diz que as pessoas não gostam dos políticos, isso não é verdade, elas podem não gostar de que não cumpre as promessas que faz, de serem enganadas, mas reconhecem quem está ao seu lado e lhes faz bem. Ainda ontem saí às 23.00 da câmara e estava cheio de adrenalina.

E esse afeto compensa notícias e reações piores…
Isso é minoritário. As pessoas em Oeiras sabem bem o que aconteceu e sabem bem a vida que eu faço, que é a mesma que sempre fiz.

E já fez as pazes com o PSD?
Eu com o PSD nunca estive zangado, só com o Marques Mendes. O PSD não tem culpa de ter de vez em quando dirigentes que procuram ganhar credibilidade à custa da credibilidade dos outros. Mas o tempo passa e os dirigentes passam e o PSD é uma grande instituição. Teve há pouco tempo uma deriva à direita – se alguma vez me passava pela cabeça que o meu PSD gerava um André Ventura… Nesse PSD de Passos Coelho que teve uma deriva brutal à direita eu não me revia.

E hoje, com Rui Rio, revê-se?
Revejo-me, sim, revejo-me mais no discurso do Rui Rio. A social-democracia também tem de ser adaptada, eu entendo que a social-democracia de hoje não é a do Olaf Palme nem é a do Estado providência dos anos 1990, mas também não é este neoliberalismo desenfreado que ataca os pobres, a classe média… Há lugar para a social-democracia.

Está em todos os discursos, do CDS ao BE…
Aí está, até o BE fala em social-democracia. Há 40 anos eram todos marxistas, agora até o BE se diz social-democrata. A verdade é que as políticas deste governo o são. O aumento colossal de impostos de Passos Coelho, achatando a pirâmide, é uma medida de direita liberal. A primeira medida de António Costa foi voltar a aumentar a pirâmide recriando os escalões do IRS – é uma política social-democrata e que teve aprovação do BE. Hoje está tudo muto preocupado com a extrema-direita. Eu estou tão preocupado com a extrema-direita como com a extrema-esquerda, mas o BE meteu na gaveta os extremismos. E a verdade é que, também porque a conjuntura internacional a isso obriga, hoje o espaço da social-democracia é ocupado por António Costa e o PSD e Rio procuram novamente o centro. Porque o governo da troika e o pretexto da austeridade obrigaram a determinadas políticas, mas acho que até no discurso se foi muito mais longe, não era um discurso amigo das pessoas.

Era um discurso realista, apesar de duro?
Não, nem era realista – tanto que o governo a seguir tomou medidas diferentes… Os seguidores de Passos Coelho não dizem que este governo está a aplicar mais impostos do que o da troika? Então e os portugueses aceitam tão bem? Isto significa que há muitas maneiras de fazer as coisas – e no governo anterior foram sempre os mesmos a pagar.

Das próximas legislativas preferia que saísse uma maioria absoluta ou uma nova geringonça?
Uma maioria absoluta é má, no nosso sistema de governo – até escrevi um livro sobre isso com dois amigos, há muitos anos, o Sistema Semipresidencial – tende a menorizar o Presidente da República. Julga que o professor Marcelo Rebelo de Sousa com uma maioria absoluta do PS tem o protagonismo que tem hoje?

Não é o Presidente que decide o resultado eleitoral, não influencia…
Mas influenciou – e houve alturas em que trouxe o governo um bocadinho ao colo… Eu não estou contra este governo senão num ponto: quando um governo não faz nem deixa fazer é uma chatice. Oeiras tem 12 milhões para investir em património do Estado, para recuperar a Casa da Pesca, o Convento da Cartuxa e a Estação Agronómica Nacional, património que todos os dias é roubado. O Ministério da Agricultura está de acordo connosco, o da Justiça também, mas todos chutam para a Direção-Geral do Tesouro e essa não cuida nada do tesouro, prefere o vandalismo e a degradação. Estou a ironizar mas isto é de chorar… Quem é que manda na DGT? É preciso que o primeiro-ministro ou o ministro das Finanças deem u abanão e obriguem a DGT a resolver isto.

Voltando às legislativas…
António Costa é um bom primeiro-ministro, esforça-se, é um grande negociador – estes quatro anos são mérito dele. Mas apesar de tudo, o governo é controlado à direita e à esquerda – ainda que BE e PCP estejam sentados à mesa. As experiências que tivemos de maiorias absolutas mostram que não é bom – veja até o caso do Bruno de Carvalho no Sporting… Dir-me-á que eu tenho maioria na câmara…

Exatamente. É diferente?
Há uma diferença extraordinária: eu tenho a oposição sentada à mesa. Tenho um vereador do PS, um do PCP, um do PSD e dois do meu antigo movimento, além dos meus seis. É muito diferente.

E vai candidatar-se de novo?
Ainda estamos muito longe… estamos a chegar a meio do mandato. Ainda não pensei nisso, mas não excluo a hipótese. Porque quando há continuidade dos quatro anos, dá para mostrar trabalho. A CMO tem recursos financeiros – no tempo do meu antecessor, ele mesmo dizia que a autarquia tinha 70 milhões no banco (agora até tem mais de 100 milhões), mas não havia projetos. Não estou a fazer campanha contra o meu antecessor, mas não havia e isso é mau. Hoje com o código da contratação pública é muito complicado ter um projeto concluído em menos de três anos – há intervenções mais pequenas que são rápidas, como as que estamos a fazer em 37 escolas, mas a obra que eu estou a preparar vai nascer no próximo mandato.

E gostava de estar lá no resultado.
Admito que sim.

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