entrevista

Jerónimo de Sousa recusa “qualquer hesitação” no apoio à greve dos motoristas

O secretário-geral do partido Comunista Português (PCP) Jerónimo de Sousa. JOÃO RELVAS/LUSA
O secretário-geral do partido Comunista Português (PCP) Jerónimo de Sousa. JOÃO RELVAS/LUSA

Em entrevista à agência Lusa, Jerónimo de Sousa considera que o Governo agiu "de forma rude, pondo em causa o direito à greve".

O secretário-geral do PCP defende que nunca houve qualquer hesitação dos comunistas no apoio à greve dos camionistas, apesar do empenhamento de forças da extrema-direita inorgânica para radicalizar aquela luta através de “processos mais sinuosos” com objetivos políticos.

Em entrevista à agência Lusa, no âmbito das legislativas de 06 de outubro, Jerónimo de Sousa considera que o Governo agiu “de forma rude, pondo em causa o direito à greve”, com “dois pesos e duas medidas”, mas sublinha que da parte do PCP “nunca houve qualquer hesitação” em afirmar a solidariedade para com “aqueles que lutavam com razão”.

“Obviamente, fizemo-lo com um grande sentido de solidariedade, mas também de responsabilidade – aquilo que estava em causa eram direitos justos que estavam a ser negados aos motoristas – com necessidade de ter muita sensibilidade relativamente às populações”, afirma, recordando: “Na história do movimento operário e de processos grevistas – e isto é uma experiência pessoal – sempre procurámos fazer greve para atingir objetivos em relação às entidades patronais e não em relação às populações, é dos livros é da experiência”.

Na opinião do líder comunista, “quando, num setor de uma área tão sensível se declara greve por tempo indeterminado, ou tudo ou nada, geralmente corre-se sempre o risco que não se conseguir os objetivos”.

“Depois, também a própria instrumentalização de alguns em relação a um conflito laboral que, naturalmente, tinha razão de acontecer, mas depois virava a própria opinião publica contra quem lutava. Quando não se tem a solidariedade e compreensão dos restantes trabalhadores e do povo, enfraquece-se qualquer processo de luta e o recurso a esta forma superior de luta que é a greve”, sustenta.

A este respeito, Jerónimo de Sousa aponta o dedo ao “empenhamento de certas forças que, não indo lá pelo voto, vão por processos mais sinuosos, com forças e protagonistas que procuram chamar a atenção e radicalizar, procurando assim objetivos que não são claros, mas fundamentalmente objetivos políticos”.

Comentando os chamados movimentos inorgânicos de protesto, desligados dos partidos ou das centrais sindicais, o secretário-geral do PCP enquadrou-os na direita ou extrema-direita que não encontra lugar nos partidos políticos.

“Eu creio que há aí uma evolução em relação à direita ou extrema-direita inorgânica, que não encontra resposta nos partidos, na direita orgânica, se assim se pode dizer, e que procura de uma forma que eles próprios classificam de cívica, tentar desvalorizar aquilo que, do nosso ponto de vista, resulta na necessidade de, havendo um conflito, entrar em processo de negociação”.

Jerónimo recorda que o PCP “valoriza muito a contratação coletiva”, que “é em si mesma um compromisso”, defendendo que “nunca se consegue tudo” mas, “enfim, consegue-se esse compromisso que é a contratação coletiva”.

“[É preciso] não fazer a luta pela luta, não fazer a luta sem considerar que não tem fim”, salienta, voltando a puxar da sua “experiência pessoal”. “Quando se diz ‘ou vai ou racha’, geralmente a tendência é para rachar e não para ir”, argumenta.

O líder comunista admite que o alcance dos serviços mínimos decretado pelo Governo na paralisação dos motoristas de matérias perigosas, que nalguns casos atingiu 100%, pode “abrir um precedente”, embora reconheça que, porventura, algumas medidas eram necessárias.

“O Governo atuou de forma rude, ponde em causa o direito à greve”, acusou, alertando: “este direito reconhecido constitucionalmente, se for condicionado, se for torpedeado, a questão já se coloca no domínio da democracia”.

No entanto, antecipa que “nunca serão medidas administrativas que eliminarão o recurso à greve”

“Os governos não podem, não devem procurar desvalorizar ou secundarizar este direito fundamental que chegou a estar inserido no capítulo dos direitos, liberdades e garantias da Constituição da República”, defende.

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