John Andrews: "Duvido que os juros baixos de Portugal sejam sustentáveis no longo prazo"

John Andrews foi o anfitrião do Governo na conferência da The Economist sobre Portugal. Diz que o país está melhor do que a Grécia, mas continua pouco produtivo e demasiado endividado. Teme um "acidente" na zona euro.

Andrews é um histórico da The Economist. Formou-se em Estudos Árabes por Cambridge, tem 24 anos de carreira. Trabalhou em Singapura, Hong Kong, Bruxelas, Los Angeles, Paris, Washington. Cobriu a crise petrolífera de 1979-82, publicou livros sobre a Ásia.

Hoje, é editor e consultor da revista britânica, segue a par e passo a União Europeia. Está escrever um livro sobre novo terrorismo. Além de inglês, fala árabe e francês.

Entrevista ao Dinheiro Vivo no dia da segunda conferência anual da The Economist sobre Portugal (Lisbon Summit), no passado dia 24 de fevereiro, em Cascais.

Entre as elites estrangeiras com as quais contacta, Portugal é interessante como investimento de longo prazo?

Há uma impressão positiva sobre Portugal e assim é porque o país, juntamente com a Irlanda, pagou a sua dívida no sentido em que aplicou medidas de austeridade, embora com muitos sofrimentos. E agora as coisas estão a melhorar. Mas também sabemos que parte desse sofrimento é real e tem a forma de emigração e de desemprego, fenómenos que podem ser mais duradouros e complicar a recuperação da economia. Na Grécia, penso que o sofrimento foi pior. Os gregos cortaram na despesa, mas não fizeram as reformas que Portugal está em vias de fazer.

Em vias de fazer?

Foram anunciadas, mas muitas precisam de ser concretizadas porque a carga fiscal é demasiado elevada, o Estado é demasiado grande. Ou seja, muitas das melhorias passaram necessariamente pelo corte da despesa pública, mas não por impulsos à produtividade. O que tem de acontecer agora é isso para que Portugal seja internacionalmente competitivo.

Nos salários?

Não digo numa base de salários baixos mas naquilo que realmente produz, e é bom a fazer.

Há décadas que se ouve falar disso.

De facto, é algo que não está inteiramente nas mãos dos portugueses. Aliás, é um problema para quase toda a Europa, que é a falta de crescimento, a falta de potencial de várias economias. Estamos num ambiente de inflação muito baixa, quase deflação, que é um sinal claro de que o problema está do lado da procura. Neste contexto, os mais endividados são atingidos em cheio. Quando há falta de procura, o fardo da dívida sobe e isso pode causar grandes problemas a países como Portugal no médio prazo.

Pode dar exemplos de "grandes problemas"?

Em deflação e com pouca procura, o crescimento é sempre baixo e as receitas públicas também. Com o tempo, como é que um país assim pode servir a dívida?

O Governo diz que a dívida é sustentável.

De momento, Portugal pode dizer que tem jogado bem segundo as regras existentes e as taxas de juro da dívida soberana estão historicamente baixas, mas tenho dúvidas de que isso seja sustentável no longo prazo.

Mesmo fazendo pagamentos antecipados, como ao FMI?

Isso ajuda, claro. Está a aproveitar, pode pedir emprestado mais barato agora, faz todo o sentido. Mas, mesmo abatendo mais cedo essa dívida, o país continuará muito endividado. Portugal está numa situação bem melhor do que a Grécia, mas não está livre de perigo.

Mas disse que Portugal está hoje mais distante da Grécia.

Penso que, de certa maneira, as pessoas usam a Grécia quase como referência e, ironicamente, Portugal, mesmo sem estar a ir muito longe nas reformas da produtividade, beneficia do mau comportamento dos gregos.

O perigo de contágio subsiste?

Se a Grécia sair da zona euro, eu não sei o que pode acontecer às taxas de juro do resto da zona euro. Nos mercados, há hoje dois cenários ou sentimentos. A Grécia sai e isso é um problema que desaparece da zona euro. Ou os especuladores vão explorar as fragilidades que encontrarem mais expostas.

E qual o cenário mais provável?

Penso que se vai "dar pontapés na lata pela rua fora" , isto é, que todos vão tentar adiar o mais possível ter de enfrentar o problema mais difícil. Isso é o que acontece constantemente na União Europeia com os problemas a sério. Adiar. Vai ser encontrada uma solução, mas não sei qual. Sei apenas que se a Grécia não estivesse na zona euro, estaria numa situação bem melhor. Mas isto é retrospetivo, estou a pensar no caso de a Grécia nunca ter abandonado a dracma.

A saída da Grécia do euro é ou não uma opção?

Não é realmente uma opção.

E a Alemanha sabe disso.

Sim, é um jogo de bluff.

Estamos aqui a falar de política, mas nem tudo se decide nos corredores da política.

Sim, as coisas podem correr mal por acidente.

Como por exemplo...

Se houver uma corrida maciça aos bancos gregos, se as pessoas se manifestarem de forma muito mais forte do que até aqui, penso que o rumo será diferente. Mas tenho a certeza de que, no fundo, ninguém deseja realmente a saída da Grécia.

Porquê?

Seria devastadora para os gregos e a zona euro daria um péssimo sinal. Abriria um precedente e outros países passariam a ser alvo dos especuladores.

Portugal deu o braço à Alemanha nestas semanas de indefinição com a Grécia e apareceu como tendo uma posição muito dura. O que pensa disto?

Penso que os gregos ficaram algo desapontados por não ter o mínimo sinal de apoio de Portugal. Mas também é verdade que não tiveram apoio claro de ninguém. Ironicamente, o apoio mais explícito veio da Comissão Europeia, de Pierre Moscovici. Portugal, Irlanda, Espanha, nenhum dos países apoiou um tratamento mais benevolente à Grécia. Na verdade, comportaram-se como seres humanos. Pensaram: nós sofremos, por que razão vamos apoiar-vos num programa sem condições associadas?

Não se está a pedir à Grécia medidas que afundam ainda mais o país?

O problema é que a Grécia precisa de reformas profundas, mas que não podem ser feitas de um dia para o outro, nem em quatro ou cinco anos, como se vê. Isso não existe. Não se pode mudar culturas com essa facilidade.

Os portugueses são mais dóceis do que os gregos?

Têm uma cultura diferente. Dou--lhe um exemplo. A corrupção em Portugal pode ser alta, mas não é o que vemos na Grécia. Estamos a falar de um país com níveis de corrupção extremamente graves, a todos os níveis.

Quem cedeu mais no Eurogrupo, Alemanha ou Grécia?

Penso que a Grécia cedeu muito mais do que a Alemanha. É interessante que as poucas cedências visíveis sejam puramente semânticas. Agora, em vez de troika temos "as instituições dantes conhecidas como troika". Penso que o vosso vice-primeiro-ministro já adotou a expressão. Na verdade isto acaba por ser uma cedência ao Syriza, que assentou a campanha eleitoral na ideia de ódio à troika, de que a troika tem de desaparecer. Mas, sejamos sinceros, a realidade não mudou. As três instituições continuam.

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