Krugman em Portugal: “As coisas estão terríveis aqui, mas na Irlanda estão piores”

O economista norte-americano, Paul Krugman, que chegou a Lisboa há três dias, não tem dúvidas: “as coisas estão terríveis aqui, o desemprego disparou, ultrapassando os 13%”. Mas diz que na Irlanda e até em Espanha a situação do mercado laboral – a variável decisiva para medir a magnitude da crise, segundo Krugman – é ainda mais grave.

Na coluna de opinião no “The New York Times”, ontem publicada, o laureado Nobel volta a criticar de forma contundente as políticas de austeridade seguidas pelos Governos: os cortes profundos na despesa pública, o papel predominante do BCE, que não deixa subir a inflação e o euro desvalorizar, a pressão dominante para cortar salários. E lamenta as consequências: um desemprego elevadíssimo.

O economista, que está em Lisboa para receber hoje o título de doutor honoris causa por três universidades (Lisboa, Técnica de Lisboa e Nova de Lisboa), diz que “as coisas estão terríveis aqui [em Lisboa]” e completa o cenário europeu: “as coisas estão ainda piores na Grécia, na Irlanda e, podemos argumentar, em Espanha. A Europa como um todo parece estar a deslizar para a recessão”.

Krugman olha com especial atenção para os números do mercado de trabalho: em Portugal, mostra o Eurostat, a taxa de desemprego ajustada (Novembro) já vai em 13,6% da população ativa, na Irlanda é de 14,5%, na Grécia 19,2% e em Espanha 22,9%.

A história da crise europeia está mal explicada, insiste o professor de Economia. Não é a despesa pública e a aposta no Estado social que são o problema, argumenta.

Há uma série de “histórias falsas acerca dos problemas europeus”, “histórias falsas que estão a ser usadas para forçar políticas que serão cruéis, destrutivas ou ambas”.

A Suécia, “que ainda têm um estado social muito generoso, é atualmente um dos países estrela, com crescimento económico mais rápido do que qualquer outra nação rica europeia”.

“Olhando para 15 nações europeias que usam atualmente o euro (deixando Malta e Chipre de fora), ordenando-as pela percentagem de PIB gasto em programas sociais antes da crise”, percebemos que os países com problemas (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália) “não são dos que têm Estados sociais mais pesados”. “Apenas as Itália estava no top cinco e, mesmo assim, o seu Estado social era mais pequeno que o da Alemanha”. “Estados sociais excessivamente grandes não provocam problemas”, reitera.

Portanto, conclui o economista, o problema é “sobretudo monetário”. “Ao introduzir a moeda única sem as instituições necessárias para que a moeda funcionasse, a Europa reinventou efetivamente os defeitos do padrão-ouro – defeitos que desempenharam um papel predominante nas causas e na perpetuação da Grande Depressão”.

Feita daquela maneira, “a criação do euro alimentou um falsa sensação de segurança entre os investidores privados, soltando fluxos enormes e insustentáveis de capitais para as nações da periferia europeia”. A consequência foi que, “com estes fluxos de capitais, os custos e os preços aumentaram, a indústria tornou-se não competitiva e as nações que tinham uma balança comercial relativamente equilibrada em 1999, começaram a ficar deficitárias. Depois a música acabou”.

Para Krugman, só há uma saída: em vez de oferecer às nações problemática mais austeridade e soluções drásticas como a ameaça de terem de sair do euro, a Europa (e em concreto a Alemanha) deve “reverter as suas políticas de austeridade e aceitar uma inflação mais alta”. “Mas não o fará”, lamenta.

O recado é também para o BCE: se a meta da inflação fosse mais alta (o objetivo em Frankfurt é de inflação próxima, mas abaixo de 2%), o euro tenderia a desvalorizar, aliviando muita da pressão que existe para os cortes a fundo na despesa e nos salários.

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