Lagarde mantém juros em 0% e avança com reforma profunda da política do BCE

Nível de juros vai ter em conta os efeitos das "mudanças climáticas", "as enormes mudanças tecnológicas" e também "as desigualdades" na zona euro.

A taxa de juro do Banco Central Europeu (BCE) mantém-se em 0% (taxa diretora principal), a taxa de depósito continua negativa (-0,5%) e os programas de compras de dívida pública e outros ativos aos bancos da zona euro mantêm-se ao ritmo de 20 mil milhões de euros por mês até ser necessário, garantiu, esta quinta-feira, o BCE. Estes juros são mínimos de sempre, sendo que a taxa central está em 0% vai fazer quatro anos março.

Mas há uma novidade, diz uma nota do BCE. A presidente da autoridade monetária, Christine Lagarde, vai arrancar com uma reforma profunda do guião da política monetária. Segundo disse em dezembro, a ideia é adicionar mais três dimensões no âmbito da "revisão estratégica" da qual nascerá a próxima vaga da política monetária.

Um programa que tenha em consideração três aspetos até agora relegados para segundo plano no discurso normal do BCE: os efeitos das "mudanças climáticas", "as enormes mudanças tecnológicas" e também "as desigualdades" que afetam as economias do euro, revelou a presidente da autoridade em dezembro.

O objetivo primeiro do BCE é a estabilidade dos preços e manter a inflação muito perto dos 2%, mas o banco central diz que quer inovar e inserir mais variáveis nos seus modelos, para depois decidir o preço do dinheiro. No fundo, é uma tentativa para ficar mais ligado às novas realidades e crises que emergiram desde 2003, nos últimos 16 anos.

A reforma da estratégia do Banco (ou "reexame") "abrangerá uma formulação quantitativa da estabilidade de preços, os instrumentos de política monetária, as análises económica e monetária e as práticas de comunicação" que tenha em consideração fatores que surgiram nesta última década e meia e que não são tidos em conta ou são relegados para segundo ou terceiro plano.

"Outras considerações, como a estabilidade financeira, o emprego e a sustentabilidade ambiental, serão também contempladas", diz a instituição de Frankfurt num comunicado separado, dedicado a este tema da reavaliação.

"O exercício deverá estar concluído até ao final de 2020" e "assentará numa análise aprofundada e será realizado com abertura de espírito, envolvendo todas as partes interessadas."

O mundo mudou, mas objetivo da inflação continuará em 2%

O Banco repara que "desde 2003, verificam-se alterações estruturais profundas na economia do euro e na economia mundial".

"A diminuição do crescimento tendencial, em resultado do abrandamento da produtividade e do envelhecimento da população, bem como o legado da crise financeira levaram a uma descida das taxas de juro, restringindo a margem do BCE e de outros bancos centrais para reduzir a restritividade da política monetária através de instrumentos convencionais em resposta a uma evolução cíclica adversa".

Esta quinta-feira, Lagarde disse mesmo, a este propósito, que está "preocupada com as taxas de juro baixas porque elas são baseadas num baixo crescimento. Eu preferia ter um crescimento muito maior e taxas mais altas. Mas não é essa a situação que temos no momento", lamentou.

Além disso, continua o BCE no comunicado, "dar resposta a uma inflação baixa é diferente do desafio histórico de lidar com uma inflação elevada". "As ameaças à sustentabilidade ambiental, a rapidez da digitalização, a globalização e a evolução das estruturas financeiras transformaram ainda mais o enquadramento em que a política monetária opera, incluindo a dinâmica da inflação."

"À luz destes desafios, o conselho do BCE decidiu lançar um reexame da sua estratégia de política monetária, no pleno respeito do seu mandato de manutenção da estabilidade de preços, tal como consagrado no Tratado."

Ou seja, a reforma é apenas interna, vai mexer nos fatores que são tidos em consideração e em novas medidas para chegar a uma decisão. Já o objetivo de manter a inflação perto, mas abaixo de 2% ficará intocado, como exige o Tratado.

Taxas em zero e abaixo de zero

No primeiro comunicado desta quinta-feira, o BCE refere que na reunião de hoje (quarta-feira, 23), o conselho do Banco Central Europeu (BCE) decidiu que a taxa de juro das operações principais de refinanciamento fica inalterada em 0%, a taxas de juro da cedência de liquidez fica em 0,25% e a taxa permanente de depósito fica inalterada em −0,5%.

O BCE espera que estas taxas de juro diretoras "se mantenham nos níveis atuais ou em níveis inferiores até observar que as perspetivas de inflação estão a convergir de forma robusta no sentido de um nível suficientemente próximo, mas abaixo, de 2% no seu horizonte de projeção e que essa convergência se tenha refletido consistentemente na dinâmica da inflação subjacente".

Adicionalmente, e não menos crucial para manter os juros muito baixos e os bancos com muito oxigénio para continuarem o seu saneamento, o BCE continuará com o programa de compra de ativos (asset purchase programme – APP ou quantitative easing) "a um ritmo mensal de 20 mil milhões de euros". "Estas aquisições devem decorrer enquanto for necessário para reforçar o impacto acomodatício das taxas diretoras e que cessem pouco antes de começar a aumentar as taxas de juro diretoras do BCE".

A primeira reforma da estratégia do BCE em 16 anos

Mas a grande novidade desta primeira reunião de 2020 é mesmo, como referido, a reforma profunda da política monetária, um trabalho que se vai prolongar até ao final do ano e que começará a dar os primeiros frutos em 2021.

Segundo disse Lagarde há um mês, há 16 anos que não há uma revisão profundo da estratégia monetária do banco central do euro, a última dois em 2003. Para a presidente Lagarde, esta revisão "já vem tarde", lamentou nesse encontro em dezembro.

"O conselho decidiu ainda lançar um reexame da estratégia de política monetária do BCE. Será fornecida mais informação sobre o âmbito e o calendário do reexame num comunicado a publicar hoje", diz o novo comunicado.

Lagarde saúda fase I do acordo Trump-Xi

Na conferência de imprensa que se seguiu à reunião de taxas de juro, Christine Lagarde explicou as razões que levaram o BCE a manter juros em mínimos, o programa de compra de dívida pública e outros títulos (alguma dívida privada de grandes empresas também).

"Os dados recebidos desde a nossa última reunião estão alinhados com o cenário de base de crescimento contínuo da economia da zona euro, mas moderado".

No entanto, "a fragilidade do setor industrial continua a ser um obstáculo à dinâmica de crescimento da área do euro".

Lagarde avisou ainda que embora "o crescimento do emprego e o aumento dos salários continuem em curso e a apoiar a resiliência da economia", já há sinais outra vez de "desaceleração".

"Embora a evolução da inflação permaneça moderada em geral, existem alguns sinais de um aumento moderado da inflação subjacente, em linha com as expectativas", contrapôs a líder do banco central.

No entanto, "os riscos que envolvem as perspetivas de crescimento da zona euro permanecem negativos e estão relacionados com fatores geopolíticos, um protecionismo crescente e vulnerabilidades nos mercados emergentes".

Mas "os riscos estão a tornar-se menos pronunciados à medida que parte da incerteza em torno do comércio internacional está a diminuir", o que pode ser entendido como uma saudação de Lagarde ao recente acordo entre os EUA e a China, ainda que seja só uma primeira fase do suposto entendimento entre os Presidentes Donald Trump e Xi Jinping.

(atualizado 15h10)

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