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Lagarde quer ligar as taxas de juro do BCE às alterações climáticas

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Christine Lagarde, presidente do BCE. Fotografia: EPA/FILIP SINGER

BCE mantém juros em zero, mas em 2021 outros objetivos, como "emprego e sustentabilidade ambiental", vão subir na escala de preocupações de Frankfurt

A partir de 2021, inclusive, as taxas de juro e outras ferramentas do Banco Central Europeu (BCE) para mexer no preço do dinheiro e conseguir cumprir a sua meta de inflação vão passar a “ter em conta” novos fatores, além das já tradicionais análises económica (crescimento e preços) e monetária.

Uma das ideias mais fortes é que a condução da política monetária passe a ter em conta diretamente “a sustentabilidade ambiental”, sabe-se agora.

A presidente da autoridade monetária, Christine Lagarde, anunciou ontem que vai arrancar com uma reforma profunda (“reexame”) do guião da política monetária. Em dezembro, revelou que a ideia é adicionar mais três dimensões no âmbito da “revisão estratégica” da qual nascerá a próxima vaga da política monetária.

Em dezembro, Lagarde tinha defendido que a estratégia futura do BCE deve “ter em consideração” e de forma explícita e direta no discurso monetário três aspetos até agora relegados para segundo plano: os efeitos das “alterações climáticas”, “as enormes mudanças tecnológicas” e também “as desigualdades” que afetam as economias do euro.

Ontem, deu-se o de tiro de partida para que, no final desta discussão, lá para novembro ou dezembro de 2020 (reafirmou ontem Lagarde), o BCE tenha uma nova estratégia, mais consentânea com os novos tempos.

O objetivo primeiro do BCE continuará a ser “cumprir o Tratado”, isto é, garantir a estabilidade dos preços e manter a inflação muito perto dos 2%, mas o banco central diz que quer inovar e inserir mais variáveis nos seus modelos de decisão. No fundo, é uma tentativa para ficar mais ligado às novas realidades e crises que emergiram nos últimos 16 anos. A última reforma estratégica do BCE aconteceu justamente em 2003.

A reforma da estratégia do Banco “abrangerá uma formulação quantitativa da estabilidade de preços, os instrumentos de política monetária, as análises económica e monetária e as práticas de comunicação” que tenha em consideração novos fatores e realidades que surgiram nesta última década e meia, admite o BCE, numa nota exclusiva sobre o tema.

“Outras considerações, como a estabilidade financeira, o emprego e a sustentabilidade ambiental, serão também contempladas”, acrescenta a instituição de Frankfurt.

“O exercício deverá estar concluído até ao final de 2020” e “assentará numa análise aprofundada e será realizado com abertura de espírito, envolvendo todas as partes interessadas.”

O BCE sublinha que “desde 2003, verificam-se alterações estruturais profundas na economia do euro e na economia mundial”.

“A diminuição do crescimento tendencial, em resultado do abrandamento da produtividade e do envelhecimento da população, bem como o legado da crise financeira levaram a uma descida das taxas de juro, restringindo a margem do BCE e de outros bancos centrais para reduzir a restritividade [ou aumentar os apoios] da política monetária através de instrumentos convencionais em resposta a uma evolução cíclica adversa”.

Esta quinta-feira, Lagarde disse mesmo, a este propósito, que está “preocupada com as taxas de juro baixas porque elas são baseadas num baixo crescimento. Eu preferia ter um crescimento muito maior e taxas mais altas. Mas não é essa a situação que temos no momento”, lamentou.

Além disso, continua o BCE, em comunicado, “dar resposta a uma inflação baixa é diferente do desafio histórico de lidar com uma inflação elevada”. “As ameaças à sustentabilidade ambiental, a rapidez da digitalização, a globalização e a evolução das estruturas financeiras transformaram ainda mais o enquadramento em que a política monetária opera, incluindo a dinâmica da inflação.”

Mudar a forma e o modo sem mudar as metas do Tratado

“À luz destes desafios, o Conselho do BCE decidiu lançar um reexame da sua estratégia de política monetária, no pleno respeito do seu mandato de manutenção da estabilidade de preços, tal como consagrado no Tratado.”

Ou seja, a reforma é interna, nos fatores que são tidos em consideração e em novas medidas para chegar a uma decisão, na forma como o BCE trabalha e como comunica as suas decisões. Já o objetivo de manter a inflação perto, mas abaixo de 2% deve ficar intocado, como exige o Tratado.

Lagarde nota que esta reforma é urgente e já vem tarde. Segundo disse há um mês, em Frankfurt, há 16 anos que não há uma revisão profunda da estratégia monetária do banco central do euro pelo que este “reexame já vem tarde”, lamentou.

Ontem, segundo o comunicado, a taxa de juro diretora do Banco Central Europeu manteve-se em 0% (taxa principal), a taxa de depósito continuou no mesmo nível negativo (-0,5%) e os programas de compras de dívida pública e outros ativos aos bancos da zona euro mantêm-se ao ritmo de 20 mil milhões de euros por mês até ser necessário, garantiu, esta quinta-feira, o BCE. Estes juros são mínimos de sempre, sendo que a taxa central está em 0% vai fazer quatro anos em março.

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