Lemon Jelly alarga reciclagem à recolha de calçado antigo

A marca portuguesa de sapatos de plástico lançou, há um ano, uma linha de reciclados, na qual vai incorporar uma etiqueta NFC para que o cliente saiba a composição do produto

Com os consumidores cada vez mais conscientes das alterações climáticas e da necessidade de fazerem escolhas responsáveis, também as empresas vão implementando novos projetos para ajudar nessas escolhas. É o caso da Lemon Jelly, a marca de calçado de plástico da Procalçado, de Grijó, Vila Nova de Gaia, que, há um ano, lançou a sua linha Wasteless Act, produzida a partir de desperdícios da fábrica. Agora, a Lemon Jelly vai fechar o ciclo, começando a recolher sapatos e botas antigas da marca para as reintroduzir no processo produtivo. Além disso, a sua linha de reciclados vai passar a integrar uma etiqueta NFC que permitirá ao cliente final saber exatamente o que está a comprar.

O projeto, que visa implementar uma estratégia de “total transparência” para com os clientes, permitirá que estes, ao receberem o seu novo par de sapatos reciclados, possam, mediante um scan à etiqueta NFC-Near Field Communication, saber no seu telemóvel “quais são os vários componentes que integram o sapatos e qual a sua composição exata”, explica Catarina Vestia, responsável de vendas da marca. Os forros, por exemplo, incorporam 60% de garrafas de plástico recicladas. E a linha Wasteless tem sempre que integrar “mais de 50%” de resíduos.

Uma estratégia que está a ser alargada ao resto da marca. “A linha de reciclados representou, no primeiro ano, 5% da coleção, mas o objetivo é aumentar essa percentagem. E estamos a incorporar cada vez mais reciclados em toda a coleção. As solas pretas, por exemplo, já são feitas com 20% de resíduos”, diz Catarina Vestia, que garante que o mercado está a receber esta aposta de forma “muito positiva”. Exemplo disso são as parcerias crescentes que a marca tem vindo a implementar, como a Lemon Jelly by Bonpoint, a linha de verão criada para esta cadeia francesa de moda infantil, ou com o Le Bon Marché, do grupo Louis Vuitton.

E a partir de setembro, com a chegada às lojas na nova coleção de outono/inverno, a Procalçado fecha o ciclo que iniciou em 2013, com o lançamento da Lemon Jelly (referência ao cheirinho a limão dos produtos da marca), começando a recolher os modelos mais antigos. “Acreditamos verdadeiramente que sapatos de plástico, graças às suas capacidades de reciclagem quase ‘intermináveis’, podem ter um grande papel a desempenhar no futuro da moda”, diz José Pinto, CEO da empresa.

Um projeto-piloto que pretende envolver todos os retalhistas que assim o desejarem, mas cujos pormenores, designadamente em termos de questões burocráticas, fiscais e logísticas nos vários países, estão ainda a ser desenhados. “Nem todos os retalhistas estão preparados para isto, mas já temos algumas adesões, sobretudo na Alemanha e em França. Vamos ver como é que, na prática, tudo isto se vai articular”, diz José Pinto. Definido está já que a devolução de usados poderá ser feita através do “site” da Lemon Jelly e que os clientes receberão “um desconto especial” na compra de um novo par. “A economia circular é uma responsabilidade real que, mais cedo ou mais tarde, se vai tornar numa obrigação. O que estamos a fazer é prepará-la desde já, sendo que temos a vantagem do nosso calçado não incorporar produtos muito diversos”, sublinha.

E se 2019 foi um ano de “estagnação” para a Lemon Jelly, 2020 promete “crescimentos substanciais, apesar de toda a complexidade do mercado”. José Pinto admite que a expectativa é de crescimentos “acima dos dois dígitos”. O crescimento do destino americano, graças à boa aceitação que a coleção de verão teve, e do europeu, permite antever um bom ano. Pelo contrário, na Ásia as expectativas não são as melhores. “O negócio vai estagnar ou até cair”, refere. Sem ser muito grande para a Lemon Jelly, este é, no entanto, um mercado “interessante”. A marca está presente em 30 mercados, com especial destaque para a Alemanha, a França, o Canadá e os Estados Unidos.

Criada em 2013, a Lemon Jelly é uma das marcas da Procalçado, que detém, ainda, a ForEver, nas solas, que constituem a origem do grupo, e a Wock, especializada em calçado profissional, designadamente para os sectores da saúde e da hotelaria. O grupo dá emprego a 350 pessoas e fatura cerca de 20 milhões de euros. Foi uma das 69 empresas portuguesas presentes na Micam, a maior feira de calçado do mundo que decorreu, recentemente, em Milão.

Sustentabilidade nas solas

Para que o sapato seja amigo do ambiente é preciso não esquecer os componentes. O último dia da Micam coincidiu com o primeiro da Lineapelle, a feira de componentes, e Portugal teve aí mais de 30 empresas aí representadas. A Procalçado marcou presença com a ForEver, a sua marca de solas, apresentando soluções diversificadas ao nível dos biomateriais. A incorporação de cortiça e de algas são alguns exemplos. “Há mais de 10 anos que apresentamos os primeiros materiais alternativos, mas o mercado não estava preparado e não os querias. Hoje somos das marcas com mais soluções nesta área”, garante José Pinto.

Solas a partir de bolas de ténis…

A ISI Soles, de Felgueiras, implementa as modernas ideias da economia circular “há mais de 20 anos”, reciclando matérias-primas suas e de outros sectores. O mais recente exemplo é o das solas produzidas a partir de bolas de ténis, a resposta a um desafio lançado por um cliente holandês. A cortiça é outros dos muitos materiais que usa, com os reciclados a pesarem já 30% das suas vendas. Com 94 trabalhadores e uma faturação superior a 10 milhões de euros, a ISI Soles, de Vítor Mendes, investiu 6 milhões nos últimos seis anos, em equipamentos, designadamente de desenho e impressão 3D.

… e de cana de açúcar

Já a Vapesol, que é também de Felgueiras e que aproveitou a Lineapelle para lançar a VP Sustainable, apresentou a sola Eva Green, desenvolvida com 70% de cana de açúcar. Um produto “único em Portugal”, garante Décio Pereira, sem recurso a quaisquer “derivados de petróleo”. E a 3DCork levou as suas múltiplas soluções ao nível das palmilhas e solas com cortiça. Com 35 trabalhadores e a laborar em contínuo, a unidade de Paços de Brandão exporta 95% do que produz para a Europa, EUA, Médio Oriente e Austrália. Além da indústria do calçado trabalha, também, para a fileira casa, conjugando a cortiça com o vidro e com a cerâmica.

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