Ideias para o novo governo

Liberdade e sustentabilidade dos media, com ou sem apoio do governo?

Teste - Redação DV

Qual a medida que gostaria que o novo governo tomasse para os media? A pergunta foi feita a 13 líderes do setor e dez aceitaram o desafio.

 

Arsenio

Reconhecer o valor do jornalismo
Arsénio Reis, diretor da TSF

Raramente se resolve um problema despejando dinheiro sobre ele, pior se é o Estado a fazê-lo. E se – como disse Ferreira Leite – quem paga manda, a situação da comunicação social não pode ser resolvida com ajudas diretas do Estado. Não queremos pagar o preço desse apoio. Ainda assim, não podemos esquecer que a maioria dos órgãos de comunicação cumpre uma – mais ou menos – generosa quota de serviço público e não são todos compensados de igual forma. É um ponto de partida para discutir apoios. O que gostava mesmo era que o Estado ajudasse a combater a iliteracia nos media. As pessoas compram cada vez mais o que realmente lhes faz falta. Se não perceberem que o jornalismo faz falta, como estarão disponíveis para o ajudar? Nas escolas, universidades, leis e na própria relação com os jornalistas o poder político deveria dar o exemplo. Tudo o que é valioso tem um preço.

Catarina Carvalho

Combater as fake news
Catarina Carvalho, diretora executiva do DN

Se o próximo governo indicar logo um responsável pelos temas de media, será um bom indício de que a importância que atribuímos à crise da informação e do debate público é partilhada. O perigo da desinformação, mas também a influência das plataformas online e a necessidade de aumentar a literacia dos cidadãos influem na qualidade do debate democrático. E há imensas formas de as pensar e apoiar – sem apoios diretos, mais complicados numa questão sensível. São temas urgentes e relevantes. Medidas como as que França e Alemanha adotaram para combater as fake news ou a posição que a UE deve adotar para regular as redes sociais e o seu impacto informativo na opinião pública, são temas obrigatórios. Impopular que seja, o debate sobre apoios públicos ao jornalismo – seja qual for a forma – é mais preciso do que nunca.

Domingos de Andrade

Valorizar a leitura de jornais
Domingos Andrade, diretor do JN

O governo tem uma grande responsabilidade na literacia mediática que é, ela própria, esteio de uma democracia sã. Devia abrir programas sérios nesta área, numa altura em que os mais novos estão completamente desligados da informação e há dificuldade crescente em distinguir fontes e identificar conceitos básicos sobre notícias. Incentivar programas de leitura intergeracional e multiplataforma. Dar bolsas para grandes reportagens e projetos de investigação. Preservar o espaço para o jornalismo de qualidade é vital a uma sociedade esclarecida. Ideias não faltam, mas podia começar por valorizar os jornais nas instituições públicas, em vez de serviços de clipping.

Graça Franco

Criar uma lei Google
Graça Franco, diretora de Informação da Renascença
Gostaria que o próximo governo fosse proativo na adoção de soluções que permitissem reequilibrar as relações de mercado entre as grandes plataformas de conteúdos (Facebook, Google, Apple etc.) e os media. O abuso de posição dos gigantes traduz-se na apropriação indevida de mais de dois terços das receitas de publicidade, das quais depende o modelo de negócio, impedindo a sobrevivência dos verdadeiros autores. Criam-se lucros privados fruto de um comportamento antiético, reduz-se o pluralismo e a independência financeira dos meios de comunicação, põe-se em causa a saúde da democracia.

Mafalda Anjos

Criar benefícios fiscais à leitura
Mafalda Anjos, diretora da Visão

Há uma série de medidas que o governo pode tomar para apoiar os órgãos de comunicação social, e que não têm de passar pelo financiamento direto – que poria em causa a sua independência e liberdade. Sugiro benefícios fiscais para assinaturas de jornais e revistas com dedução à coleta do valor integral e duas medidas que baixariam os custos das empresas de media: portes pagos nas assinaturas em papel e redução das despesas com comunicações financiadas por uma comparticipação das empresas de telecom (que sem conteúdos não têm negócio). E o Estado deve agir de forma mais veemente contra gigantes tecnológicos que ficam com a parte de leão das receitas publicitárias digitais.

Manuel Carvalho

Financiar assinaturas a jovens
Manuel Carvalho, diretor do Público

É preciso especial cuidado quando se antecipam medidas para a imprensa vindas de um governo, mesmo nestes tempos em que uma imprensa fragilizada pelas mudanças tecnológicas começa a ser incapaz de produzir os bens públicos que lhe compete – informação credível, escrutínio de poderes, liberdade de expressão. Neste contexto só vejo uma medida aceitável: um fundo para financiar assinaturas a jovens. O governo financiaria e os jovens escolheriam que jornais apoiar. Qualquer ajuda direta seria uma intolerável intromissão na liberdade de imprensa.

Flor Pedroso

Apoiar os regionais
Maria Flor Pedroso, diretora de Informação da RTP

Apoiar a imprensa regional escrita e falada. São órgãos de comunicação social de proximidade, que conhecem bem os problemas das pessoas e têm enormes dificuldades de sobrevivência. Promovem a coesão social, criam massa crítica e espírito de comunidade. A informação é um pilar da democracia, determinante para o escrutínio de todos os poderes. Uma imprensa regional, escrita e falada, forte, independente e isenta, é fundamental.

Miguel Pinheiro

Não tocar para não condicionar
Miguel Pinheiro, diretor do Observador

Sempre que os governos tentam ajudar os media, acabam por ter a tentação de os condicionar. Nada é mais perigoso do que a ideia de que a solução para os problemas dos media está numa intervenção do poder político, seja qual for. Quando um jornal, uma televisão, rádio ou site ficam dependentes de um governo para a sua viabilidade económica arriscam-se a perder capacidade de escrutinar livremente.

Nicolau Santos

Pôr gigantes a pagar 15% a 25% aos media
Nicolau Santos, presidente da Lusa

O próximo governo deve ter consciência de que a dificílima situação que as empresas de media vivem é uma questão democrática e tomar medidas. Para as empresas públicas, é fundamental garantir a estabilidade do quadro financeiro e a autonomia de gestão. No privado, apoiar os esforços da Comissão Europeia para que os gigantes agregadores de conteúdos sejam obrigados a entregar às empresas de media uma percentagem (15% a 25%) dos lucros.

Octávio Ribeiro

Isenção fiscal nas vendas
Octávio Ribeiro, diretor-geral do Correio da Manhã e da CMTV

Os media escritos precisam de um plano de emergência. É estranho que, no plano político, só o Presidente da República esteja sensibilizado para tal. Está em risco a pluralidade da informação e milhares de empregos. Das gráficas, à distribuição, nem só de jornalistas é feito este ecossistema essencial ao ambiente onde vive a democracia. Isenções fiscais para vendas e assinaturas (papel e digital) deve ser a primeira medida – apoiando os media, não incorre em riscos de ingerência na liberdade e independência dos títulos.

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