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Líderes rumam a Davos para debater a nova desordem mundial

The World Economic Forum, Davos
Fabrice COFFRINI/AFP
The World Economic Forum, Davos Fabrice COFFRINI/AFP

Com Donald Trump e Greta Thunberg no centro das atenções, a cimeira de Davos promete ficar marcada pelos debates sobre as alterações climáticas.

As temperaturas são negativas mas o ambiente promete aquecer. No ano em que o festival dos poderosos celebra as bodas de ouro, Donald Trump e Greta Thunberg são cabeças-de-cartaz. O Forum de Davos arranca na terça-feira, com o tema da sustentabilidade a dominar as atenções no palco principal.

A “crise climática” foi o tema escolhido para marcar os 50 anos da conferência que junta os principais líderes da política e economia mundial numa estância de esqui na Suíça. A organização do Fórum Económico Mundial quer ainda chamar a atenção para os “confrontos económicos” e a “polarização política doméstica”, apontados como os “riscos significativos” que o planeta enfrenta em 2020. A tensão entre EUA e Irão e a guerra comercial que opõe Washington a Pequim são temas que deverão provocar o aquecimento local.

Além do presidente dos Estados Unidos e da ativista sueca, a eclética guest list inclui nomes como a chanceler alemã Angela Merkel, o príncipe Carlos de Inglaterra ou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchéz. A China estará representada pelo vice-primeiro-ministro Han Zheng. Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, tinha a viagem marcada mas acabou por desistir por razões “económicas, políticas e de segurança”.

(Photo by Fabrice COFFRINI / AFP)

(Photo by Fabrice COFFRINI / AFP)

Portugal não vai faltar à cimeira, ainda que com uma comitiva mais curta do que o habitual. Pela primeira vez em seis anos, o ministro da Economia não irá a Davos. O governo estará representado por Mário Centeno, que enquanto presidente do Eurogrupo vai participar, na quinta-feira, num debate sobre o “domínio do dólar”.

A lista de portugueses ilustres é encabeçada, no entanto, pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Do setor privado estão asseguradas as presenças das duas únicas empresas que fazem parte do exclusivo clube de parceiros do Forum: a Sonae estará representada pela CEO, Cláudia Azevedo, enquanto Francisco Soares dos Santos irá em nome do grupo Jerónimo Martins.

O Dinheiro Vivo conseguiu ainda confirmar as presenças de José Luís Arnaut, membro do conselho consultivo da Goldman Sachs, e do CEO da Galp, Carlos Gomes da Silva. A banca não terá representantes diretos, mas há dois banqueiros portugueses na elite de Davos. São eles António Simões, que lidera o negócio global de banca privada do HSBC, e António Horta Osório, CEO do Lloyds. Ambos conhecem bem os cantos à casa.

“Participar em Davos é um privilégio, mas também uma responsabilidade. Este é um encontro importante para os líderes discutirem quais os principais desafios que o mundo enfrenta e tem como objetivo que se envolvam e atuem de forma a ajudar a resolvê-los”, destaca Horta Osório em declarações ao Dinheiro Vivo.

Para o banqueiro, “o tema deste ano é particularmente relevante”, tal como o apelo da organização do Forum, que pediu a todas as empresas que assumam o compromisso de eliminar as emissões de carbono até 2050. “Sabemos que as alterações climáticas são um dos maiores desafios que o mundo enfrenta e com consequências imprevisíveis para as futuras gerações. E é um desafio que exige os esforços de todos os setores da sociedade e de cada um de nós individualmente. No Lloyds, já assumimos esta responsabilidade”, sublinha.

O banco que o português lidera tem definidos “objetivos claros para apoiar a transição do país para uma economia de baixo carbono, investindo em projetos de energia renovável, fornecendo espaço imobiliário comercial eficiente em termos energéticos, liderando o apoio aos clientes na transição para frotas de veículos elétricos e de baixa emissão”. O líder do Lloyds vai a Davos com uma estratégia de sustentabilidade que “segue o Acordo de Paris de 2015 e a ambição Net Zero do governo do Reino Unido”.

“Uma boa oportunidade”

O foco do Forum nas alterações climáticas é reflexo da “evolução” de Davos nos últimos 10 anos, bem como da sua capacidade de “ditar tendências”. Quem o diz é Manuel Caldeira Cabral, ex-ministro da Economia, que fez questão de marcar presença na pequena localidade alpina nos três anos em que ocupou o cargo.

“Há uma década era sobretudo um encontro de financeiros. Nos últimos anos começou a estar mais centrado na discussão sobre o crescimento sustentável. O setor financeiro apercebeu-se de que estas questões estavam a gerar instabilidade política e a aumentar os populismos”, afirma o ex-governante ao Dinheiro Vivo.

Para Caldeira Cabral, a importância de Davos está, por um lado, “nas pessoas que lá vão”. As discussões acabam por ser “produtivas”, porque “quem discute os problemas é quem tem poder para resolvê-los”. O antigo ministro reconhece que os quatro dias em que a estância dos Alpes se torna o lugar mais vigiado do mundo são “uma boa oportunidade para fazer contactos, passar mensagens importantes e dar visibilidade às melhorias que acontecem num país”. Foi isso que Portugal tentou fazer no rescaldo da crise financeira.

Segundo o antigo ministro, entre 2016 e 2018 notou-se uma diferença “brutal” na receção à comitiva portuguesa. “Em 2016 havia muitas dúvidas sobre a situação financeira do país, e foi fundamental transmitir que estávamos no caminho certo, não só aos líderes mas também às empresas e meios de comunicação internacionais. Um ano depois, as perguntas já eram outras. Havia interesse das empresas em conhecer o país.” O “pico” da exposição aconteceu em 2018, quando António Costa anunciou em Davos a vinda da Google para Portugal.

“Hoje a mensagem já está consolidada mas continua a ser importante ir a Davos. Marcam-se posições do interesse de Portugal e criam-se relações com empresas, para que elas nos considerem como destino de investimento. Nos últimos anos os resultados foram interessantes.”

Entre Hollywood e o Brexit

Não foram só as questões sociais que ganharam peso em Davos. Nos últimos anos, as grandes petrolíferas e financeiras estenderam a passadeira aos unicórnios.

Stephan Morais não perde uma reunião desde 2013. Nos corredores de Davos, o gestor da Indico Capital Partners e membro dos Young Global Leaders do Forum já conversou com Charlize Theron e com alguns dos investidores mais importantes do mundo. Houve um momento que lhe ficou guardado na memória.

“Estive lá no dia em que David Cameron anunciou que ia fazer o referendo, num encontro privado com 40 pessoas. Perguntámos-lhe se estava seguro da decisão e ele respondeu que tinha absoluta confiança de que os ingleses iam fazer a escolha certa. Como sabemos, enganou-se.”

Para o líder da comunidade portuguesa de Global Shapers, que reúne jovens líderes promissores, Davos é um ecossistema “único no mundo”. É por isso que não percebe o “alheamento” dos empresários portugueses em relação ao Forum. “Como é que o PSI 20 inteiro não está lá? Onde é que estão os CEO das empresas portuguesas? A fazer negócios internacionais a partir de Lisboa? Com raras exceções, as nossas elites económicas ainda não perceberam que quem não está em organizações destas não existe como país. Não passamos de uma curiosidade económica, que umas vezes está bem e outras está mal”, atira.

O investidor estranha o facto de países mais pequenos que Portugal, “como o Ruanda ou Barbados”, enviarem à Suíça delegações mais extensas. “Para sermos levados a sério, termos uma posição económica mais avançada e retirarmos lições do que os outros fazem, não basta irem 11 portugueses. Continuamos muito fechados. Temos de estar em todas. Ali fazem-se contactos, abre-se a mente, expande-se o campo de visão, não é só o networking“.

Neste ano, Stephan Morais segue para Davos acompanhado por David Braga Malta, da Vesalius Biocapital, Afonso Mendonça Reis, professor e empreendedor, e ainda Ricardo Torgal e Cristina Fonseca, gestores da Indico. É neles, e noutros líderes da mesma geração, que o investidor vê a ambição de agarrar todo o potencial de Davos. “Mas isso vai demorar décadas”, lamenta.

Para Cristina Fonseca, gestora da Indico, esta será a sexta participação no Forum Mundial. De todas as vezes que a fundadora da Talkdesk rumou à estância, houve uma que mais a marcou. “Quando participei na conferência principal como uma das 50 Global Shapers selecionadas, entre toda a comunidade, para participar ativamente no programa organizado pelo Fórum Económico Mundial. Tive oportunidade de conhecer pessoalmente a Christine Lagarde, o Jack Ma ou o John Chambers, ex-CEO da Cisco, e assistir muito de perto às palestras mais incríveis. Foi muito intenso mas marcante”, recorda.

Foto: ( Igor Martins / Global Imagens )

Foto: ( Igor Martins / Global Imagens )

A empreendedora vê a cimeira como “um ótimo barómetro mundial” e também lamenta a “participação ainda relativamente baixa” de Portugal. Nos encontros paralelos que frequenta, Cristina Fonseca revela já ter conhecido parceiros de negócio, investidores e até “bons amigos”. “Mas é um investimento a longo prazo e não é fácil medir o retorno no imediato”, confessa.

Tal como Stephan Morais, a gestora da capital de risco não tem dúvidas de que Davos vai continuar a ser um dos grandes palcos das decisões mundiais, e onde as novas gerações terão cada vez mais um lugar cativo. “Os grandes líderes e as grandes empresas têm um desafio crescente de se adaptar a um mundo que está a mudar muito rápido, que é altamente tecnológico e onde as gerações mais novas têm uma voz, muitas vezes amplificada através das redes sociais e afins. Por isso mesmo é uma geração que eles querem ouvir. Perguntam-nos activamente por ideias e opiniões relativas a problemas diversos”.

Este ano Cristina Fonseca vai participar “em várias sessões relacionadas com tecnologia, inteligência artificial, sustentabilidade”. Ainda por marcar está o jantar que Stephan Morais organiza todos os anos, e que reúne o grupo de portugueses que rumam à estância suíça. Já chegaram a ser mais de 30. A festa das bodas de ouro vai ter menos lugares à mesa.

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