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Lojas de shoppings pedem corte de rendas à medida do negócio

Fotografia: EPA / José Sena Goulão
Fotografia: EPA / José Sena Goulão

Restaurantes a meio gás deixam empresários a prever tempos difíceis. Desconto na renda ajudava lojistas, mas proprietários rejeitam ideia.

Sol, calor e a recentemente reconquistada liberdade de movimentos não foram suficientes para vencer o medo. Se até as esplanadas ficaram a meio gás, a reabertura dos restaurantes nesta semana teve alguns altos e muitos baixos, com os clientes que se atreveram a sair longe de completar a lotação reduzida por lei. Consequência: receitas 80% abaixo das de há um ano.

Se o desconfinamento está custoso, ter de pagar renda como se tivessem casa cheia está a deixar de cabeça perdida os donos de restaurantes e lojas. Mesmo nos centros comerciais que perdoaram ou suspenderam mensalidades aos lojistas durante o estado de emergência, a obrigação volta com a reabertura, em junho – exceto na Merlin Properties, dona do Almada Forum, que admite descontos nas rendas dos lojistas.

“Todos temos de pagar a crise, não são só os inquilinos”, lembra Miguel Pina Martins, presidente da Associação de Marcas de Retalho e Restauração de Portugal. “A partir de julho, as rendas de restaurantes e lojas vão aumentar 28% e isso é um problema porque não vai haver dinheiro”, defende o responsável, em nome de 100 empresas com 100 mil trabalhadores.

O tema é uma preocupação comum a António Querido, administrador do SeaMe Group. “O problema chega em julho com o fim das moratórias. Com menos clientes e turistas, temos quebras de receita de 80% e faria sentido um corte de renda de ao menos 50%, o mesmo que a lotação a que estamos limitados”, defende, adiantando estar a negociar com os senhorios.

É essa também a posição da AHRESP. Se os restaurantes funcionarão a metade, as rendas devem ser reduzidas em proporção desde a reabertura, sugerindo que se devia impor a isenção relativa ao período de 22 de março a 17 de maio.

O SeaMe abriu dois dos seus oito restaurantes na segunda-feira, Soão e Prego da Peixaria, ambos em Alvalade. “O negócio esteve abaixo das expectativas. Agora reabrimos o Prego na Peixaria no Saldanha e a esplanada esteve cheia”, descreve, admitindo que se avizinham tempos de contas apertadas. “Há um decréscimo do rendimento das famílias, alterações de hábitos – muitos dos que voltaram ao escritório vão almoçar a casa -, há empresas em teletrabalho, as pessoas não vão ao café.” Da primeira semana de abertura, é igualmente claro que o delivery baixou. “Caiu uns 30%, com as pessoas a terem mais opções.”

Com dois restaurantes Bira dos Namorados (Porto e Braga), Diogo Carvalho também reabriu esta semana. “O regresso será lento, com menos clientes e a trabalhar de forma muito mais restrita depois de alguns terem fechado dois meses, sofrendo quebras de receitas de 100%.” Sugere por isso ajuda para reerguer o setor de maneira a salvar milhares de postos de trabalho.

“A reabertura está a ser muito tímida. Poucos são os clientes”, refere fonte oficial da AHRESP. “Apesar de não termos ainda dados concretos, os relatos que nos chegam confirmam o que esperávamos: nem todos os estabelecimentos consideraram ter condições para abrir a 18 de maio. No inquérito que realizamos no fim de abril 20% das empresas diziam que não pensavam reabrir e cerca de 30% estavam a pensar avançar para a insolvência”, lembra a mesma fonte.

“A reabertura decorreu condicionada: as empresas estão a funcionar a 50% mas com despesas a 100%”, diz a AHRESP. “A confiança dos clientes não está completamente recuperada e, além disso, muitas pessoas estão ainda em casa, nomeadamente em teletrabalho, e muitas com rendimento diminuído.”

Rendas sem descontos

A restauração nos centros comerciais terá de esperar até junho para abrir, como a maioria das lojas de shopping e entre os lojistas as rendas são a maior preocupação. Operadores como a Sonae Sierra, dona do Norte Shopping e do Colombo, suspenderam-nas aos retalhistas durante o estado de emergência; Mundicenter (Amoreiras) e Ingka Center (Mar Shopping) perdoaram os custos. Mas com a reabertura à porta e esperando muito menos clientela, o foco dos lojistas é o dia seguinte. E sem grande abertura dos proprietários dos shoppings.

“Os centros comerciais estão irredutíveis, escudados num contrato que não é justo”, diz Frederico Fortunato, que detém as sapatarias Foreva. “Recusam descontos, mas com esta crise as condições não se podem manter”, argumenta o cofundador do grupo Kyaia. “Sou inquilino e senhorio e nessa qualidade dei descontos de 30% a 50%”, conta. “A mim, só um centro mostrou essa sensibilidade.”

É por isso que a AHRESP pede a isenção para trás, relativa ao período de emergência, e da renda fixa em junho, mantendo-se apenas o pagamento da renda variável e redução a metade das despesas comuns. O mesmo sugere a Associação de Marcas de Retalho e Restauração, de forma a partilhar perdas. É que, lembra, mesmo com as lojas fechadas, os lojistas continuaram a ter custos. Por cada 175 mil euros de prejuízo dos lojistas, os proprietários só tiveram mil, assegura.

Na Sonae Sierra a opção foi “aplicar um desconto de 50% nas remunerações devidas em abril, maio e junho e diferir o pagamento dos restantes 50% em dois anos, com início em janeiro de 2021”, explica Cristina Santos, administradora dos centros. “Esta posição assenta numa partilha do esforço exigido pela situação e tem um significativo impacto para os centros comerciais e o cumprimento das suas obrigações”, diz, quando questionada sobre novos cortes nas rendas. O operador tem 420 colaboradores em Portugal, gerindo 25 empreendimentos que representam 30 mil empregos.

Na Ingka Centres, responsável pelo MAR Shopping Algarve e Matosinhos, a opção foi perdoar a remuneração mínima e encargos comuns para “apoiar lojistas, quando o estado de emergência ainda não tinha sido decretado, minimizando o impactos nos seus negócios. Essa medida mantém-se até os nossos parceiros poderem reabrir, a 1 de junho”, diz. “Apesar de o governo ter imposto apenas o adiamento, nós decidimos prescindir desse valor”, adianta Mário Barros, deputy operations manager south Europe (Portugal, Espanha, Itália). E depois de 1 de junho? “As medidas que tomámos durante este período e enquanto os negócios estiveram fechados, põem os lojistas numa posição de maior solidez. Esperamos que isso lhes permita ver a continuidade dos seus negócios com mais otimismo. Relativamente ao futuro, a Ingka sempre terá uma posição de parceria com os lojistas”, diz Mário Barros. Os dois centros têm 303 lojistas com 5500 colaboradores.

Dos shoppings ouvidos pelo Dinheiro Vivo, a Mundicenter não quis comentar e a CBRE, por ser gestora dos espaços, não adiantou qual a política adotada nos centros que gere. Só a Merlin admite avançar com descontos, depois de ter “bonificado em 100% a renda das lojas que não puderam abrir no estado de emergência”. “Decidimos outorgar de forma unilateral uma série de bonificações adicionais para ajudar a maioria dos operadores até dezembro, tendo em conta a previsão da redução de faturação gerada pela limitação de pessoas nos espaços”, diz fonte oficial da dona do Almada Forum.

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