Luís Miguel Ribeiro "País precisa de um compromisso ao centro. Da geringonça já vimos o resultado" 

Líder da AEP alerta para a necessidade de acordos de longo prazo que tragam estabilidade e permitam fazer investimentos estruturantes. Critica a forma como são aplicados os fundos e lembra a importância de atuar na formação e para a produtividade.

Presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), Luís Miguel Ribeiro acompanhou de perto as empresas na adaptação aos constrangimentos da pandemia e dos confinamentos, a aceder a apoios e agora aos fundos do PRR e do quadro plurianual europeu. Há um mês, lançou, para dar um impulso ao empreendedorismo português, o Desafios 5.0, para apoiar 22 startups tecnológicas e das indústrias culturais e criativas.

Vamos começar pelo que se espera neste fim de ano, com novas restrições e uma nova variante a impactar os negócios. Há muita preocupação das empresas?
Há preocupação com o fim do ano, com o próximo ano, com o futuro. Estamos a viver enormes incertezas a curto e médio prazo e há grande preocupação. A nova variante e as restrições anunciadas e implementadas vieram impactar sobretudo alguns setores, mas acima de tudo mexer de novo com o nosso comportamento, influencia as pessoas e a confiança para o investimento. Este problema só se resolve havendo um compromisso entre decisores políticos, aqueles que têm possibilidade de tomar medidas e pô-las em prática - que devem tornar o ambiente em que se movem as empresas menos difícil do que já é - e as empresas, que continuam a trabalhar, a encontrar soluções, como fizeram neste período. E tiveram um comportamento que nos deve orgulhar, porque além da resiliência as empresas puseram em prática medidas, a sua força e capacidade, o ADN português de criação de soluções perante grandes adversidades. Foram solidárias com os colaboradores, as instituições do meio em que estão instaladas e assumiram essa responsabilidade social.

Vêm aí novas quebras?
Há quebras, sim, e já percebemos que Portugal vai demorar mais a recuperar e a repor os níveis pré-pandemia - no volume de negócios, criação de riqueza... Há que reconhecer o esforço que o Estado fez em termos de medidas de apoio à capitalização de empresas, que foram importantíssimos para poderem aguentar. Mas também houve muitos empresários a colocar o seu património pessoal nas empresas para continuarem a funcionar, pagar salários e cumprir as suas obrigações. Isto tem de ser reconhecido. Não são grandes empresas, são micro, mas como diria o grande empresário António Mota, não há grandes e pequenas empresas mas sim boas e más empresas. E o país mostrou ter boas empresas e bons empresários.

Está de acordo com a imposição do teletrabalho e as escolas fechadas até 9 de janeiro?
A medida das escolas é bastante inteligente e importante para evitar que janeiro tenha semelhança com o de há um ano, porque hoje o contágio é muito junto dos mais jovens, que depois transmitem aos mais velhos com quem convivem. Por outro lado, entende-se que parte dos pais desses miúdos necessariamente terá de ficar em casa com eles... Quanto ao teletrabalho, a preocupação é maior em alguns setores: uma indústria com linha de produção, sem as pessoas fisicamente lá, não produz. Serviços como segurança, PSP, bombeiros não têm teletrabalho possível.

Estas novas restrições chegam num contexto já muito difícil: vimos de dois anos de quebras, a que se soma uma crise energética, as crises dos chips, das matérias-primas, da mão-de-obra, os combustíveis a subir a pique... É uma tempestade perfeita?
Uma pequena correção: vimos a cair há duas décadas...

Mas os últimos dois anos pioraram a situação.
Sim. A pandemia surpreendeu-nos com o que já esperávamos. O que aconteceu era expectável, não sabíamos era se demorava mais ou menos, mas a nossa dependência face a um continente como a Ásia, o desinvestimento de Portugal e da Europa na indústria, a não qualificação, não termos uma política adequada de formação, não termos instrumentos de apoio ao financiamento e à capitalização de empresas... tudo isto é que nos colocou nessa tempestade perfeita - agora agravada. A questão da logística é terrível, os preços dispararam e não se sabe quando chegam cá as entregas; estamos completamente dependentes na matéria-prima até de alguns jogos para subir preços. Mas a questão dos recursos humanos é óbvia e resulta sobretudo de dois fatores. Por um lado, a questão demográfica - já sabíamos que teríamos problemas, com a evolução dos últimos tempos. E depois o problema central que temos na economia e que enquanto não resolvermos vai causar danos: a produtividade, que sem subir impede de pagar melhor para retermos quem queremos que fique cá. Os nossos jovens, que cada vez mais estão abertos ao mundo têm consciência de que vão para qualquer país - e têm enorme facilidade de mobilidade - e tem melhores condições salariais. E têm competências para isso.

E hoje nem precisam de sair, com a digitalização, pode trabalhar daqui para fora.
Exato. Mas muitos vão sem qualquer problema e fazem-nos falta cá. Temos de ter políticas para recuperá-los.

Isso passa por que tipo de incentivos, salários? As empresas podem pagar nestas condições?
Temos de resolver o problema da produtividade e para isso é preciso instrumentos de apoio à capitalização. As nossas empresas precisam de investir, tanto mais agora com os novos desafios que a pandemia trouxe, de digitalização, transição climática... é preciso investimento das empresas. E temos uma banca que não está disposta a correr riscos com as empresas, a ser parceira. Não temos em Portugal outros instrumentos financeiros desenvolvidos - há residualmente capital de risco, alguns business angels...

O mercado de capitais não é solução?
Não porque as empresas não têm dimensão para estar cotadas. O nosso tecido empresarial, ao contrario da vontade anunciada de termos mais massa crítica e empresas de maior dimensão, nos últimos 15 anos só cresceu em micro e pequenas empresas. E esta questão da produtividade está diretamente relacionada com a dimensão. Estamos a fazer o percurso inverso ao necessário e é preciso alocar recursos para que as empresas possam investir em tecnologia, digitalização, processos de transição climática, na qualificação e requalificação dos ativos. Porque também pesam fatores que não dependem das empresas: os custos de contexto. Temos esta carga fiscal, esta burocracia que traz custos enormes a empresas e pessoas, esta justiça que funciona tarde e demora imenso tempo a resolver problemas, e ainda algumas questões de infraestruturas... Andamos há anos a discutir a ferrovia - já nem falo do novo aeroporto - e a sua falta limita-nos imenso a colocação de mercadorias no centro da Europa. 70% das nossas exportações são para a Europa. Se vamos ter cada vez mais restrições a passar os Pirenéus e mais de 60% destas exportações são rodoviárias e não temos alternativa, estamos a condicionar e a assumir riscos enormes para a competitividade.

As políticas europeias devem manter-se mais algum tempo - isso mesmo já foi sinalizado por Van der Leyen e Lagarde. Mas estamos a avançar o suficiente para estarmos prontos para o momento em que os limites (dívida e défice) forem retomados e os apoios retirados? Já temos o problema da inflação, que ainda é visto como conjuntural...
Em primeiro lugar, com todo este contexto da logística, falta de matérias-primas, etc, não sei se a inflação ainda é conjuntural... Falámos com muitos empresários que nos diziam o seguinte: levámos com este aumento de preços e estamos a repercutir no cliente. E achamos que este nível deverá começar a estabilizar, mas os preços anteriores não voltam. Ou seja, há sério risco de virmos a ter mexidas nas taxas de juro. E isso é altamente preocupante para um país com o nosso nível de endividamento e peso da função pública - despesa primária. Um país que não pode dar grandes garantias e esperanças de melhorar as condições do seu funcionamento, sobretudo na questão fiscal porque precisa desses recursos para pagar a despesa.

Para pagar o número recorde de funcionários públicos.
Exatamente. Outra questão é a dos fundos comunitários. E aí, devemos pensar: há anos que lidamos com fundos comunitários e ainda não conseguimos ter mecanismos, instrumentos para pôr os fundos ao serviço das empresas no momento em que precisam. É inaceitável que se demore meio ano a aprovar uma candidatura, mais um ou dois meses para assinar contrato, até o dinheiro chegar. Quando uma empresa faz uma candidatura é porque tem uma oportunidade, não pode estar oito meses à espera desse recurso. Por isso defendemos que os programas deviam estar abertos em contínuo. E por isso também temos uma taxa de execução pouco superior a 60% no PT2020. E veremos que parte do PRR chegará às empresas - além de um PT2030 que ainda não conhecemos. Isto é muito preocupante: a banca não coloca recursos para as empresas, que precisam de investir, e nós temos 60 mil milhões para uma década e não somos capazes de os colocar na economia. Está-se a prejudicar o país.

Não concorda com a forma como se dispara a bazuca, dando prioridade a projetos públicos?
Dissemos desde início que era um erro esta forma de construir o PRR: 2/3 para projetos públicos, 1/3 para privados. E com o exemplo das agendas mobilizadoras acredito que o governo já se deve ter arrependido. Não digo que 100% deviam ter apoio, mas havia projetos de elevada qualidade, que tinham o mérito de fazer o que há anos todos defendemos: pôr em cooperação o sistema científico e tecnológico, centros de investigação e empresas, para desenvolver projetos inovadores. Houve candidaturas de 14 mil milhões... para um apoio de mil milhões, de 2 mil milhões. Se tivéssemos feito a opção certa, podíamos estar a pôr dinheiro do PRR em projetos inovadores, com capacidade de mudar e contribuir para melhorar a nossa produtividade, as condições de atratividade do país para investimentos e as condições remuneratórias das pessoas.

Foi por isso que a AEP lançou o Desafios 5.0, que vai envolver mais de mil jovens empreendedores e tem 754 mil euros para apoiar 22 startups?
É uma das muitas iniciativas que temos. Em Portugal, temos no discurso a questão do empreendedorismo, mas não temos essa cultura. Lidamos mal com o insucesso, com aqueles que tentam e têm ambição de fazer diferente: se não correr bem colocamos um rótulo, a sociedade penaliza-os, o sistema financeiro penaliza-os, os parceiros e outros agentes do mundo empresarial... porque olham para a pessoa com desconfiança e não como alguém que teve a ousadia de tentar, de lançar o seu projeto e tentar transformar a sua ideia num negócio. Por outro lado, também temos de criar cultura nos empreendedores, porque ter a ideia não é sinónimo de negócio de sucesso, há muitos passos a dar e há que prepará-los para os desafios, para um conjunto competências necessárias, além das técnicas, ter a tal atitude de resiliência - e é também isso que queremos fazer. Também apresentámos ao governo um programa para a valorização da indústria, em queremos dar um contributo decisivo na próxima década. Ainda não temos resposta mas não desistimos. Portugal precisa de valorizar a indústria que tem. Há uma década, quando o país esteve em crise, foi isso que conseguiu, com arrojo e ambição, ajudar o país e chegarmos a 44% do PIB em intensidade exportadora antes da pandemia. E temos outros projetos para a transição ambiental, a qualificação profissional, que é marca da AEP há 172 anos. Nós temos falta de recursos humanos qualificados. Na indústria, quase 60% das pessoas tem no máximo o ensino básico. Quando falamos em transições digitais, climáticas, tecnologia, temos de ter esses números presentes.

E estamos a fazer o suficiente para reconverter essas pessoas?
Não. Porque mais uma vez estamos a fazer da forma errada: faz-se formação por catálogo, coloca-se recursos em instituições que abrem oferta de formação mas não se pergunta às empresas se é essa qualificação de que precisam. Temos de ouvir as empresas e ter capacidade de adequar a oferta às necessidades. E aí sim, vamos usar bem os recursos e dar respostas com resultados. Há quantos anos se faz formação profissional e se apontam erros ao processo? Porque é que não se quer mudar? Porque não se cria mecanismos de adequar a oferta de formação profissional, os recursos que temos, às necessidades das empresas?

Há complexos relativamente às escolas técnicas? Faria sentido apostar nisso?
Faria, mas isso foi uma opção política de há uns anos, quando decidiram colocar nas escolas secundárias o ensino profissional, uma aposta que na minha opinião é errada. As nossas escolas comerciais e industriais, que tanto sucesso tiveram, deviam ser adequadas e trazidas aos dias de hoje. Era preciso dar às associações empresariais um papel bem mais ativo na oferta de qualificação junto das empresas. Porque nós estamos diariamente juntos, é connosco que os empresários interagem, transmitem problemas, fazemos inquéritos mensais, sabemos do que precisam. O projeto de formação PME existe há mais de 22 anos com resultados fantásticos e nós somos o organismo intermédio. Porque não se aplica modelo semelhante à formação profissional. Se um projeto é de sucesso, porque não usar a boa prática e replicar para o resto da oferta formativa?

E porque não se faz?
Não é por falta de aviso da nossa parte. Acho que mais uma vez é a máquina do Estado. Todo o modelo que está desenhado é demasiado complexo, burocrático; muitas vezes dizem-nos que Bruxelas não permite que se faça de forma diferente, mas sinceramente não acredito nessa justificação.

Até porque a Alemanha tem formação excelente a esse nível.
Tem a formação dual, sim. Sendo que eu acho que não devemos importar modelos diretamente de outros países, porque alguns funcionam lá mas cá teriam de ser adequados à nossa realidade, ao nível das empresas em termos, à dimensão e capacidade de absorção e apoio para partilharem essa responsabilidade da formação e requalificação. Mas precisávamos de fazer uma restruturação, uma remodelação e reorganização da oferta formativa.

Corremos o risco de criar uma nova categoria de desempregados infoexcluídos?
Corremos sim. Se não requalificarmos as pessoas da indústria, corremos esse risco. Por outro lado, a nossa maior taxa de desemprego é na população jovem e qualificada. O que mostra o desajuste entre a tal oferta formativa, qualificação de RH e as necessidades que as empresas têm. É este trabalho que é preciso fazer e só se faz com quem está diariamente junto das empresas e pode apontar as áreas. Ter flexibilidade e capacidade de adequar e ajustar, ter rapidez na oferta e rigor na fiscalização, aplicação e avaliar resultados. Nós nunca nos preocupamos com os resultados dos recursos, do dinheiro que aplicamos. Os portugueses são o nosso melhor recurso e temos de o valorizar. Isso só se faz qualificando e requalificando.

Acredita que é desta que grandes projetos como o novo aeroporto e a ligação ferroviária moderna à Europa poderão concretizar-se?
Se olharmos o passado recente, diria que não. Se me pergunta se são necessários rapidamente, sobretudo a ferrovia, diria que sim. Mas isso vai depender do que se passar a 30 de janeiro com as eleições. Se me pergunta se acredito nos políticos e no seu sentido de responsabilidade, não. O exemplo recente que tivemos demonstra que puseram em primeiro lugar interesses estratégico-partidários e só depois o país. E eu não acredito em políticos com este tipo de comportamento.

Acha que vai mudar?
Espero que o que aconteceu tenha sido uma aprendizagem, que os portugueses possam assumir um compromisso entre os maiores partidos e isso traga estabilidade e permita termos projetos estruturantes. Enquanto não tivermos uma política de compromissos dos principais partidos, nunca mais vamos ter aeroporto nem ferrovia nem projetos estruturantes para o país - a reforma da justiça, da educação. Porque isso demora anos; não podemos estar sujeito a que as políticas mudem com o titular da pasta. Enquanto assim for, vamos continuar a falar e nada vai mudar. E isto não é por em causa a democracia e a alternativa democrática, esse discurso não pega: veja-se o exemplo da Alemanha, quem é hoje o chanceler e que função tinha antes... e isso não lhe tirou oportunidade, nem aos alemães de escolher uma alternativa diferente. Temos de dar passos, criar modelos mais exigentes, os portugueses têm de ser mais exigentes com os políticos - e não é abstendo-se que o fazem, é participando, fazendo as suas escolhas e exigindo que tenhamos pessoas ao nível dos desafios e daquilo que o país precisa. Temos portugueses de elevada qualidade, empresários que já mostraram do que são capazes, um país fantástico e cada vez mais procurado por todos. Temos de ser capazes de rentabilizar, tirar partido disso. E ter um país que cresça pelo menos o mesmo que os outros europeus - mas tem de crescer mais porque o que perdemos nas últimas duas décadas obriga a que seja superior para tentarmos equilibrar. Isto só com ambição, responsabilidade e compromisso é possível.

Esse compromisso tem de ser ao centro ou uma nova geringonça podia funcionar?
Só acredito num compromisso ao centro. A geringonça já mostrou o que foi o resultado. Ainda nesta semana vimos sair leis sobre o teletrabalho, o trabalho e outras tentações de leis sobre a rigidez salarial que prejudicam o país, a captação de investimento, a atratividade do país. Os dois principais partidos devem ser os primeiros a dar o exemplo. Se houver outros a juntar-se, tudo bem, mas o caminho que o país precisa é de compromisso entre os dois maiores. Até porque, sejamos claros: as diferenças ideológicas não são tantas assim. Haja bom senso e vontade e é possível.

E acredita que com a atual liderança de PS e PSD é possível?
Acredito, atendendo ao que se conhece das relações entre eles e ao que o líder do PSD disse - do PS não conheço ainda a mesma disponibilidade, mas o PSD disse claramente estar disponível para compromissos que viabilizassem um governo.

Dois orçamentos, disse Rui Rio.
Se formos por esse caminho vamos continuar na instabilidade e alternância que parece não ser o que o país precisa. Mas os portugueses escolherão.

Está com boas expectativas ou é mais esperança?
É vontade que se encontrem soluções e caminhos, um modelo que de facto permita que o país possa ter estabilidade, desenvolver projetos de médio e longo prazo estruturantes. Em democracia, temos de aguardar os resultados das eleições. Acredito que os portugueses já fizeram as suas leituras do que se passou e venham a decidir em nome do futuro do país.

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