Luís Salvaterra: "O Estado, mais do que nunca, deve pagar a tempo e horas"

O estudo anual da ​​​​​​​Intrum mostrou que metade das empresas portuguesas espera que a recuperação da sua atividade demore anos devido à crise económica, que se está a revelar ser desigual.

São tempos de incerteza. Segundo Luís Salvaterra, diretor-geral da Intrum Portugal, esse é o principal sinal dado pelas empresas que responderam ao estudo anual da empresa sobre pagamentos na Europa. As moratórias, que terminam no final de setembro, na sua maioria, deverão levar ao aumento do crédito malparado. Mas o principal recado volta a ser dirigido ao Estado, no sentido de pagar a tempo e horas. O setor público demora em média 64 dias a fazer os seus pagamentos a fornecedores.

Segundo o estudo anual de pagamentos da Intrum, as empresas portuguesas esperam que a recuperação económica vai demorar a chegar?

O estudo é o European Payments Report, de 29 países da Europa, que tem como base entrevistas diretas com empresas. O estudo reflete exatamente isso. Analisa os hábitos de pagamentos das empresas e perspetivas. A palavra que caracteriza o estudo este ano é incerteza. Toda a gente está na incerteza do que vai acontecer. Se já estamos ou não a sair desta crise. Para os países do norte da Europa, a recuperação pode chegar mais rapidamente. Para os países do sul da Europa, que são economias mais débeis e muito mais dependentes do turismo, pode levar mais tempo a chegar a recuperação. O turismo é uma das áreas que vão recuperar mais tarde porque, até as pessoas começarem a ganhar confiança, vai ser mais tardio. Isto provoca uma certa incerteza em relação ao futuro. Em Portugal, ainda há uma percentagem muito grande de empresas que não sabem quando chegará essa recuperação e se a recuperação vai ser mais lenta do que pretendia. E o quão vai começar a recuperar. Toda a gente pensava que o desconfinamento não ia voltar atrás e se calhar vai. Isso tem consequências económicas para as empresas e para os setores mais afetados, como o do turismo e o da restauração, e todos os que estão dependentes do setor do turismo, como o rent-a-car, por exemplo. Grandes empresas foram muito afetadas. Turismo é muito mais do que só hotéis e restauração.

As empresas do sul da Europa estão mais pessimistas.

Tem a ver com a economia ser mais débil. Se virmos países como Portugal, Itália e Espanha, o nível de endividamento é muito maior, logo, o dinheiro que se vai injetar e que o Estado injetou na economia é muito, mas comparativamente com países do centro e do norte da Europa é muito menor. Mas o nível de endividamento já é tão grande que não dá para o Estado injetar mais. Vamos ver o que vai acontecer com o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que foi aprovado. Há empresas que vão demorar tempo a recuperar. Por exemplo, para a restauração, com o teletrabalho, os restaurantes abriram mas não têm pessoas.

Houve alterações de comportamento de consumidores, em algumas áreas. Também não se exclui um novo confinamento no futuro. Há empresas portuguesas que esperam que a recuperação possa levar anos.

Ninguém pode afirmar hoje que não voltamos a um novo confinamento, que não voltamos a andar para trás. Há uma grande aposta na vacina. Mas também em termos científicos estamos a ver coisas que não esperávamos ver, mesmo pessoas vacinadas a ficarem contaminadas. Há muita incerteza. Quer em termos científicos, do conhecimento que se tem da pandemia e, consequentemente, depois, as consequências que isso vai ter na economia...

Um terço das empresas espera cortar custos nos próximos 12 meses. Pode envolver despedimentos?

Isto está a afetar os resultados das empresas. O que pode advir é desemprego. Mas as empresas também estão com mais dificuldades em sobreviver, estão a alargar prazos de pagamento. Para as empresas com mais capacidade financeira não haverá problemas. O Estado atrasou os pagamentos. Isso é que não deve acontecer. O Estado, mais do que nunca, deve pagar a tempo e horas para injetar dinheiro na economia. O setor público é muito grande e com um grande peso na economia. Há uma série de incógnitas.

Esta é uma crise desigual para empresas e famílias.

Isso é evidente. Há aqui um paradoxo. Há pessoas que estão a sofrer como nunca sofreram. Sobretudo pessoas que trabalhavam em setores como o do turismo. É um setor com vínculo laboral mais débil. Pessoas com vínculos laborais mais fixos, não tiveram os seus rendimentos cortados, pelo contrário, tiveram algumas poupanças. O nível de poupança nunca foi tão grande. Temo que ainda vá provocar mais desigualdades. Estamos a falar de imigrantes, pessoas com vínculos laborais precários, pessoas ligadas a eventos de cultura, essas pessoas estão com muitas dificuldades. Há uma dualidade, o que vai provocar no futuro é mais desigualdades.

Há também desigualdade nas empresas, já que as micro e pequenas estão a ser mais afetadas.

Sim, muito mais afetadas. Porque muitas estão nestes setores, que são os mais afetados. É verdade também - e isso é um dos aspetos positivos do estudo - que muitas empresas se reinventaram e, em termos de inovação e tecnologia, deu-se um pulo que não se daria de outro modo, e em termos de trabalho em casa e vendas online. Mas a realidade da generalidade das empresas no País não é essa, sobretudo nestes setores.

Por um lado, temos as expectativas em relação ao PRR e depois temos as moratórias que terminam em setembro e a inflação que está a disparar. Como a Intrum vê as perspetivas com este cenário?

As moratórias , pensamos que é um problema com duas faces: para os bancos e para os clientes. A maioria dos bancos tem feito já provisões. Mas, de qualquer maneira, o malparado vai aumentar e isso é natural. A dimensão desse malparado depende do trabalho que os bancos estão a fazer antes de chegar ao fim das moratórias. Se os bancos fizerem isso razoavelmente bem o impacto pode não ser muito grande. As moratórias deverão terminar mesmo em setembro. Para alguns setores, se calhar, podem continuar. Também é importante que os bancos não cheguem em termos de malparado a valores que já tiveram no passado. Na perspetiva das empresas e famílias que têm moratórias, também deve haver proatividade. Preocupo-me mais com as empresas do que com os particulares. O crédito das famílias com moratória é mais o hipotecário.

A Intrum também compra e gere malparado. Qual o valor global?

Nós temos uma área de prestação de serviço e uma área de compra de carteira própria. No total, temos 5 mil milhões de euros para gerir.

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