entrevista

“Macau deu um salto muito grande mas não resolveu a injustiça social”

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Macau pode reforçar o seu papel de porta de ligação entre o Oriente e a Europa, defende o presidente da Fundação Jorge Álvares. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, à margem de uma conferência em Lisboa, o general Garcia Leandro explica as ambições económicas da China numa nova ordem mundial.

Numa altura em que a China assume uma nova ambição económica e política, qual a importância desta conferência “Macau: Plataforma de Cooperação no Contexto da Grande Baía e da Nova Rota da Seda”?
A nossa ideia é fazermos esta conferência anualmente, para fazermos um balanço da evolução da Nova Rota da Seda. Tivemos três autores com abordagens diferentes: uma mais voltada para a segurança, outra para a economia e outra mais política, sobre o funcionamento do sistema. Esta nova realidade levanta muitas dúvidas, grandes problemas e, portanto, é bom discutirmos, observarmos as realidades, para tentar responder às interrogações.

General Garcia Leandro

General Garcia Leandro

De que forma Macau pode assumir um papel de relevo entre o Oriente e o Ocidente?
Pode, pode. Macau tem tido, até por intervenção da China, esse papel. Os antigos governadores portugueses de Macau fizeram um esforço no sentido de aproveitar essa ligação que Lisboa não soube aproveitar bem. A China, até pela proximidade física, tem aproveitado mehor essa ligação. Até pelos sinais que têm dado.

Que sinais foram esses?
Olhe, desde logo com a proposta para a Unesco do reconhecimento do Centro Histórico de Macau como Património da Humanidade e, mais recentemente, dando força a Macau no contexto da Grande Baía. Macau tem-se transformado num centro de congressos permanente. Creio que Macau, com este reposicionamento, tem tentado ser um complemento àquela velha pergunta que se tem colocado: “Pode Macau viver só dos casinos?” Não deve, não pode. Mas se lhe derem a componente cultural e tecnológica, pode lá chegar, aproximando-se da Europa e de Portugal. Macau coloca em contacto empresários de lá e de cá.

Acredita que a criação da Nova Rota da Seda pode ser essa porta de entrada no Ocidente?
É essa a intenção da China. O que a China procura é a criação de uma nova ordem mundial, a pensar nos seus próprios interesses. Mas de uma forma muito hábil.

Porquê?
Porque todos aqueles que entram vão beneficiar também. Isto é um projeto que atira a China para o topo da importância mundial. Mas os Estados Unidos, a Rússia e outros países vão mexer-se. Esta Nova Rota da Seda permite também à administração chinesa resolver alguns problemas internos, melhorar a justiça social e a distribuição de rendimentos.

Como é que tem visto a evolução do território nestas duas décadas de administração chinesa?
Macau deu um salto muito grande porque há, de facto, uma mudança de sistema. O sistema de jogo do casino era de monopólio de uma empresa e agora abriu-se à concorrência: e aí vieram as receitas. A riqueza hoje de Macau vive muito de gente que vem da China. Pode-se gostar ou não gostar, mas é um desenvolvimento impressionante. Mas atenção: não se resolveram problemas de justiça social. Há um grande desequilíbrio nos níveis de rendimento. E aquelas pessoas mais velhas, com menos posses, ainda precisam de grande apoio social. O rendimento per capita elevado não significa uma boa distribuição do rendimento.

De que forma é que a Fundação Jorge Álvares, a que o general preside, tem contribuído para o estreitar de relações entre Macau e Portugal?
A Fundação é a entidade que o último governador português de Macau [Rocha Vieira] criou no sentido de manter essa ligação. Essa decisão foi tomada em cima de três pilares: o Instituto Internacional de Macau, o Centro Científico e Cultural de Macau e a Fundação Jorge Álvares. A Fundação Jorge Álvares não é rica, mas tem a maior riqueza possível: o know how. E o know how são as pessoas. Tenho pessoas a trabalhar connosco que não ganham nada pelo seu trabalho. Mas têm uma relação cultural, social e afetiva com Macau. Por exemplo, como é que eu fui agora eleito Irmão de Mérito da Santa Casa das Misericórdias 40 anos depois de eu sair de lá? É impressionante, não é? Alguma coisa ficou.

E em troca o que dá a Fundação?
A Fundação tem objetivos muito claros: a prossecução de atividades de natureza cultural, educativa, científica, artística e social que possam desenvolver o diálogo intercultural entre Portugal e Macau, depois da secular presença portuguesa no território. É isso que temos feito, com iniciativas várias e apoiando os que se dedicam ao estudo e divulgação de Macau.

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