Liberlândia

Mais de 800 portugueses querem ser cidadãos do “país mais livre do mundo”

António Pedro Santos / Global Imagens
António Pedro Santos / Global Imagens

Nasceu há três anos após uma pesquisa na Wikipedia e hoje tem meio milhão de pessoas à espera de cidadania

Em terra de ninguém quem lhe deita a mão é rei. Foi o que fez Vít Jedlička a um enclave de sete quilómetros quadrados entre a Croácia e a Sérvia. Hoje é presidente da República Livre da Liberlândia, uma nação autoproclamada que tem como missão ser o país mais livre do mundo.

Três anos depois da fundação, no dia 13 de abril “para coincidir com o aniversário de Thomas Jefferson”, o país já tem 118 mil cidadãos elegíveis e mais meio milhão de candidatos em lista de espera. “Para ser cidadão é preciso ganhar méritos, através de propostas que beneficiem o país. Quem acumula cinco mil méritos torna-se cidadão”, explica Vít Jedlička em entrevista ao Dinheiro Vivo, no âmbito da visita que fez a Portugal no início de maio.

O líder de um dos países mais pequenos do mundo, a par com o Mónaco e o Vaticano, foi um dos convidados das conferências Horasis, que juntaram em Cascais mais de 600 participantes, entre políticos, empresários e académicos. Durante os quatro dias do evento, Vít aproveitou para recrutar mais algumas dezenas de partidários da liberdade. A Liberlândia já conta com um representante oficial em Portugal e mais de 800 pedidos de cidadania. “São pessoas em busca de uma nova identidade, que não se sentem bem com os atuais modelos de governo que dominam o mundo. As pessoas hoje vivem sujeitas a demasiados impostos e demasiadas regras”, sublinha.

A principal regra da Liberlândia é “vive e deixa viver” e os impostos não existem. “As pessoas podem contribuir livremente. Quem contribui com dinheiro ou com o seu esforço ganha méritos, ao contrário do que acontece nos outros países, onde não se recebe nada em troca. Aqui os méritos contribuem para a reputação dos cidadãos e funcionam como colateral do nosso sistema judicial”, esclarece.

Além do presidente, a Liberlândia conta com ministros das Finanças, do Interior e dos Negócios Estrangeiros. Apesar de ocupar um pedaço de “terra de ninguém”, encontrado após uma busca na Wikipedia, o país não está totalmente livre de disputas territoriais. “Temos alguns problemas com a Croácia, que apesar de não querer aquele território, quer que ele pertença à Sérvia. Mas a Sérvia nunca o reclamou. Estamos a lutar pelo reconhecimento. Já há um partido croata que nos apoia”.

Víc Jedlička quer convencer os croatas com números. Garante que os mais de 500 mil candidatos à cidadania na Liberlândia são potenciais investidores, e que o desenvolvimento pleno da pequena nação à margem do Danúbio pode contribuir para um aumento do PIB croata de 1% por ano e uma redução “dramática” do desemprego” na região.

Para já, por questões de segurança, os poucos habitantes da Liberlândia vivem em barcos-casa, mas existe um plano para urbanizar o país, que prevê a construção de infraestruturas com capacidade para acolher até 340 mil habitantes.

Vít já tem data marcada para regressar a Portugal. Nos dias 19 e 20 de julho estará no Porto para participar no Anarchaportugal, o “primeiro colóquio do mundo para pensadores livres”. O evento vai reunir na Alfândega os especialistas “mais livres do mundo” em temas como a tecnologia blockchain ou criptomoedas. A lista de oradores inclui Brittany Kaiser, uma das ex-funcionárias da Cambridge Analytica que denunciou a polémica de abuso de dados do Facebook.

Entrevista a Vít Jedlička, presidente da Liberlândia

 ( António Pedro Santos / Global Imagens )

( António Pedro Santos / Global Imagens )

Como surgiu a ideia de criar a Liberlândia?
Eu e mais um grupo de pessoas sentimos que não pertencíamos a lugar nenhum e quisémos criar o país mais livre do mundo, onde as pessoas possam viver sem a interferência de um Governo. Um país que adopte as melhores práticas de governação do passado com as tecnologias descentralizadas de governação do futuro. Escolhemos de propósito o dia 13 de abril por ser o aniversário de Thomas Jefferson. Foi graças às suas medidas que os EUA foram o país mais livre do mundo durante muitos anos, até à criação da Reserva Federal no início do século passado.

O que é preciso fazer para ser cidadão?
Basta preencher um formulário e apresentar propostas que possam beneficiar o desenvolvimento do país. Pode ser algo tão simples como representar a Liberlândia no respetivo país de origem ou ajudar-nos com questões legais. Temos agora uma nova aplicação móvel na qual é possível fazer pedidos de residência. E o grande acontecimento na Liberlândia este ano será o lançamento de uma moeda virtual, anónima. Queremos ser um smart country.

Como se chega à Liberlândia?
A forma mais fácil de chegar é de barco, partido de Apatin, na Sérvia.

Quantas pessoas lá vivem?
Ainda são poucas e vivem em barcos casa. Eu vivo um pouco por todo o mundo mas quando passo tempo na Liberlândia também fico num barco. Daqui a algumas semanas vai abrir um barco-restaurante. Há algumas semanas recebemos cerca de 50 pessoas de todo o mundo, que vieram conhecer o país. Empreendedores, diplomatas… Já temos a nossa própria equipa de xadrez, que vai reunir-se no verão. E temos uma marca de vinho e outra de cerveja. São investimentos privados e estão a correr bem.

Quantos países reconhecem a Liberlândia?
Temos representantes em mais de 80 países nos cinco continentes mas o nosso passaporte ainda dá acesso a poucos países.

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