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Mais de metade dos jovens portugueses dependem financeiramente da família

Fotografia: Arquivo/ Global Imagens
Fotografia: Arquivo/ Global Imagens

Estudo da Century 21 conclui que quase 80% dos jovens portugueses não vivem onde gostariam e têm expetativas "desajustadas" à realidade do mercado.

Entre as quatro paredes da casa dos pais, Luís Pereira faz contas à vida. Com 23 anos e uma licenciatura por estrear, o jovem fotógrafo da Senhora da Hora, em Matosinhos, prepara-se para iniciar o estágio profissional que lhe vai carimbar o passaporte da idade adulta. A meta está traçada: dentro de “dois ou três anos, no máximo”, quer abandonar a casa-mãe e encontrar a morada da independência. Tal como Luís, 40% dos jovens portugueses entre os 18 e os 34 anos vivem debaixo do teto dos pais. E 55,7% dependem financeiramente da família.

A conclusão é de um estudo da Century 21, que permitiu perceber também que, “surpreendentemente,” perto de 80% dos jovens portugueses não vivem onde gostariam. A análise, feita com o objetivo de perceber os futuros clientes da imobiliária, “desmistifica uma ideia preconcebida sobre esta geração, de que é acomodada ao conforto da casa dos pais”, sublinha Ricardo Sousa, CEO da Centrury 21 Portugal.

“A idade média da emancipação em Portugal está próxima dos 30 anos. É esmagador o número de jovens que não estão satisfeitos com a sua situação atual. Há uma percentagem muito relevante de jovens que querem sair de casa para ter a sua independência. O que este estudo evidencia é a precariedade do trabalho e as limitações nos rendimentos, que fazem com que os jovens não se emancipem mais cedo”. Pouco mais de 62% dos inquiridos na análise ganham menos de mil euros mensais. Quase 20% não têm quaisquer rendimentos.

Outro dos números que apanhou a Century 21 de surpresa foi a quantidade de jovens que, apesar de já terem abandonado a casa de partida, continuam a depender da ajuda financeira dos progenitores. Há 37% de jovens adultos emancipados que ainda contam com a ajuda da família ao fim do mês. “Mais do que o mercado imobiliário, este estudo ajudou-nos a perceber as condições de vida precárias dos jovens em Portugal”, destaca Ricardo Sousa.

Uma geração (ainda) de pais e mães de família

Luís Pereira ainda não começou a procurar mas não lhe é difícil prever o futuro. Quando sair da casa dos pais, sabe que da Ribeira até à Foz não vai ser fácil arranjar uma morada que possa pagar. “No Porto é impossível ter casa própria. Mas não me importo de ir para os arredores, como Gaia, Maia ou Rio Tinto, onde não será difícil”. Ainda assim, a casa de sonho do fotógrafo de 23 anos seria uma moradia arrendada no Porto, com dois pisos, três quartos e quintal.

As aspirações de Luís encaixam em quase todas as conclusões do estudo da Century 21. À exceção de uma: a esmagadora maioria dos jovens inquiridos (87,9%) ambiciona comprar casa. “Isso não nos surpreendeu. No dia-a-dia, a abordagem que recebemos por parte dos jovens favorece a compra, porque o arrendamento é caro. Querem começar por uma casa arrendada, mas esta é uma passagem e não um destino”, explica Ricardo Sousa.

Para o responsável, os millennials são uma geração “quase conservadora, com valores e perspetivas de vida semelhantes às das gerações anteriores”. Têm “valores e atitudes tradicionais, o que não é necessariamente mau, porque pensam na estabilidade”, considera Ricardo Sousa.

E apesar de serem mais viajados e privilegiarem mais a mobilidade que os pais e os avós, ainda querem encontrar casa na cidade ou até no bairro onde cresceram. “Concluímos que a transformação cultural ainda vai demorar uma ou duas gerações. Talvez a geração que hoje tem 15 anos já vá ser diferente. Neste estudo temos jovens de 18 anos que dizem que a sua motivação para a emancipação é casar e ter filhos. É a cultura do sul da Europa”, conclui o responsável da imobiliária.

No geral, a Century 21 encontrou uma geração “com expectativas um pouco desajustadas face à realidade do mercado, havendo um gap entre aquilo que eles gostariam de ter e o que é, de facto, possível”. A resposta para as “dores de crescimento” da geração que vai dos 18 aos 34 poderá estar na expansão das áreas metropolitanas das cidades, aponta Ricardo Sousa, onde a oferta será mais adequada ao bolso dos jovens portugueses.

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