Manso Neto: "Tenho dúvidas de que Portugal vá ganhar alguma coisa com o corredor de energia verde"

O CEO da Greenvolt considera que as medidas recentes adotadas pela Comissão Europeia provam que o mecanismo ibérico de preços não foi uma boa solução e acabou por subsidiar os consumidores franceses.

A Greenvolt quer emitir 100 milhões de euros em dívida verde. João Manso Neto revelou em entrevista ao DV/TSF que a estratégia da empresa passa por ter entre um ano e meio a dois anos de pré-financiamento para aproveitar as oportunidades de mercado. O objetivo é entrar em novas geografias no segmento do autoconsumo. O CEO da Greenvolt não prevê que exista um risco na segurança de abastecimento energético em Portugal, mas defende que as centrais a carvão deveriam ter continuado a funcionar para prevenção.

Como é que avalia as medidas que têm sido tomadas para mitigar a crise energética, a nível europeu e nacional?
Ninguém esperava o que se passou. Uma relação com a Rússia era algo estabelecido desde os anos sessenta e estava estável. [...] De uma forma geral, as medidas tomadas até ao momento foram positivas, o que falta agora é o que diz respeito aos países. Ou seja, não podem estar à espera - nem é desejável -, que a Comissão Europeia decida tudo.

Parece-lhe que Portugal tem estado à espera?
Aqui temos outra questão. Vejamos o seguinte: Portugal já tomou medidas, o chamado simplex das renováveis, um pacote que diria que está bem-feito. A questão é que se definem boas leis - e Portugal tem boas leis -, mas depois a sua implementação é complicada.

Porque é que são difíceis de implementar?
O que se passa, designadamente na administração pública e especialmente nas entidades monopolistas, quer na distribuição quer no transporte de energia, é que há faltas de meios humanos.

Está a falar, por exemplo, da Direção-Geral de Energia (DGEG)?
Sim, aí estamos a falar na parte pública, mas não é que as pessoas não sejam competentes, porque são, mas não estão preparadas para um conjunto de requisitos necessários para depois tornar expedito. A questão é que não é só a DGEG, é a REN, é a EDP Distribuição, e o facto de se lhes estar a pedir um conjunto de coisas para as quais não estão preparadas. Fala-se muito em leis, e as leis estão bem, aliás, há áreas em que Portugal é pioneiro em legislação. Por exemplo, no fomento de comunidades de energia, uma pessoa poder utilizar o seu telhado para gerar energia para si, mas também para vizinhos. Portugal tem uma boa lei e define o conceito de vizinhança num raio de quatro quilómetros, mas depois é preciso que isso se aplique na prática. A questão é que se demora bastante tempo.

Na sua opinião, o corredor de energia verde que foi acordado em Portugal, Espanha e França um "embaraço" ou uma "vitória"?
É preciso analisar a questão em dois níveis: um deles é pensar o que é mais barato, se é construir mais terminais de gasificação na Europa Central ou se é construir um gasoduto na Península Ibérica.
Sabemos qual é mais barato? Não sei, se se estudou isso, então não tenho conhecimento. Às vezes as pessoas dizem que isto é dinheiro da Europa, mas esse dinheiro também é um bocadinho nosso, e se for para isso, não vai para outra coisa. Gostaria que sem complexos se visse o que é mais barato e mais eficiente, isto do ponto de vista da Europa. Do ponto de vista de Portugal, tenho ainda mais dúvidas sobre se Portugal ganha alguma coisa com isto. Porque, de facto, se se chegar à conclusão que a maneira mais eficiente de colocar mais gás na Europa é através de terminais na Península Ibérica, quem é que tem terminais a mais? É Espanha, não é Portugal. Inclusive, têm um nas Astúrias que nunca funcionou. Portanto, tenho as minhas dúvidas de que Portugal vá ganhar alguma coisa com isso. Não tenho a certeza, mas façam-se as contas.

A Agência Internacional de Energia alertou esta semana para o risco de falta de gás na Europa para o inverno de 2023/2024. A Europa vai conseguir sobreviver a esta dependência do gás russo?
Estou perfeitamente crente que em 2022 só vamos conseguir sobreviver se conseguirmos ter um tempo não muito frio com a redução da procura de materiais, designadamente na indústria. Em 2023/2024, ainda será apertado, mas julgo que aí já se consiga, sobretudo se formos para a solução de alguns terminais de gasificação, já se conseguiria minimizar. Mas o gasoduto não é certamente a solução para 2023/2024.

Em Portugal voltou a falar-se da reabertura das centrais de carvão, precisamente para colmatar a falta de renováveis. Faz sentido, na sua opinião?
Portugal tomou as decisões e estão tomadas. Se fazia sentido tê-las mantido, penso que sim, sempre o achei. Não para produzir, mas para estar ali como backup, no entanto, não se fez, mas deveria ter-se feito. Houve centrais em Espanha, umas ainda estão a funcionar porque não chegaram a fechar, e outras que até tiveram de ser reabilitadas. Mais uma vez, não para produzir em mercado, mas para ter prevenção. Podem dizer que isso é muito mau para o ambiente, mas se for para estarem de prevenção são utilizadas apenas de vez em quando.

Estaríamos agora noutra situação?
Não estaríamos, porque o gás era uma parte muito importante da energia na Europa em termos térmicos. Portanto, por razões geopolíticas, foi tudo feito através da Rússia. Foi um erro? Não, quem é que imaginaria isto? Os nossos maiores vultos políticos da Europa, desde que me lembro, criaram condições, e bem, para que a Rússia fosse progressivamente integrada na Europa. Mas quem adivinharia isto?

Mas crê que há risco de segurança de abastecimento de energia em Portugal?
Em Portugal, creio que não. Como não está dependente do gás russo e pode importar porque temos terminais, diria que não. Só se fosse numa situação absolutamente desastrosa. Claro que aguentamos porque temos a interligação com Espanha, mas estamos a admitir que Espanha vai continuar a produzir. E outra coisa muito importante é que Portugal aprenda com a lição de não ter mantido as centrais de carvão como backup.

O mecanismo ibérico para limitar os preços do gás e da eletricidade foi a melhor solução?
Não, não foi a melhor solução. Mais uma vez, a Comissão Europeia é um órgão competente, fez uma análise, e disse que a maneira mais adequada de reduzir os custos é através do price-cap [limite de preço] para as tecnologias inframarginais. Por acaso, as ligações à França até são pequenas, mas não deixamos de estar claramente a subsidiar os consumidores franceses. Portanto, a maneira mais adequada é definir um price-cap para as inframarginais. Ou seja, o objetivo é o mesmo, limitar os ganhos das tecnologias inframarginais, só que a metodologia era melhor com o que propôs a União Europeia, do que o que Portugal e Espanha implementaram.

As produtoras de renováveis [tecnologias inframarginais] não estão a ter sobre ganhos?
A esmagadora maioria das renováveis têm um preço máximo e mínimo, portanto, não têm sobre ganhos. Em Portugal, quem beneficia com os preços muito altos neste momento, são basicamente as hídricas. Mas como tem havido tão pouca água, os benefícios também não hão de ter sido grande coisa.

Teme que a taxa sobre os chamados lucros excessivos se estenda ao setor da energia como um todo e acabe por apanhar as renováveis?
Com as renováveis não vejo como porque têm um preço máximo, portanto não ganharam nada de extraordinário. Ou seja, podem ter ganho no sentido em que, em vez de estarem a meio do intervalo, estejam no top, mas isso é previsto por lei. Não houve nenhum lucro extraordinário, precisamente porque têm preços fixos. Por exemplo, os produtores de biomassa têm uma tarifa que cresce com a inflação, portanto, não beneficiaram com os preços altos. Quem teoricamente pode ter beneficiado com os preços altos serão as hídricas, mas mesmo aí houve um efeito de preço positivo, mas um efeito de quantidade muito negativo por causa da seca.

Em relação à Greenvolt, o crescimento da empresa tem sido feito sobretudo através de aquisições, principalmente nas áreas de energia solar e eólica. É uma estratégia para manter?
Temos três áreas de negócio bastante claras: a primeira é histórica que é a biomassa, com o aspeto muito importante de que é através de resíduos, não andamos a queimar florestas. Portanto, em Portugal já existia, comprámos no Reino Unido e estamos a otimizar. O nosso segundo vetor, são projetos solares e eólicos de maior dimensão que injetam diretamente na rede. Aqui fizemos uma aquisição de uma plataforma por aumento de capital em 2021, mas a partir daí não temos comprado mais nada de material. O que temos feito é pôr em valor aquilo que se faz. [...] No terceiro pilar, o de descentralizar, aí sim temos comprado participações minoritárias ou maioritárias em empresas de renováveis. A ideia de que andamos a comprar muita coisa é um bocado uma perceção que não corresponde propriamente à realidade. De facto, compramos uma empresa no Reino Unido em 2021, fizemos um aumento de capital em espécie que nos permitiu esta plataforma, e depois temos feito estas pequenas compras. Nós no descentralizar em Portugal, em termos de empresas, não somos menores. Neste momento, no segmento de médias e grandes empresas, no mínimo, disputamos a liderança.

Apesar de estarmos a falar de investimentos relativamente pequenos, como descreveu, teme que este ambiente de subida das taxas de juro acabe por vir dificultar e ser um obstáculo ao financiamento necessário para continuar esta estratégia?
Nós temos sempre uma política muito prudente na parte financeira. Para que isto funcione, são necessárias algumas condições. A primeira é a organização e, neste momento, estamos a instalar um novo sistema informático comum a todas as geografias. A segunda condição são as pessoas, que tentamos atrair e reter, e a terceira é que haja dinheiro. A questão financeira é gerida com muita prudência e trabalhamos sempre com muita liquidez. Tomamos o dinheiro sempre antes da oportunidade aparecer. Foi isso que fizemos no passado, desde o IPO [entrada em bolsa] em 2021, devemos ter levantado em dívida de médio e longo prazo, cerca de 350 milhões, o que num país como o nosso é importante.

E quanto investiram?
Não investimos todos, mas cerca de uns 200 milhões. Neste momento, temos na banca uma liquidez de cerca de 500 milhões, sendo 200 milhões depósitos e 300 milhões em linhas de crédito para utilizar. Mas vamos investir, claro que sim. Claro que os novos investimentos já vão refletir um ambiente mais inflacionista, portanto, para financiar outros investimentos que apareçam, temos de obter os fundos com antecedência para termos essa flexibilidade. Por exemplo, estas obrigações que estamos agora a lançar no mercado, serão 100 milhões de referência, é mais uma vez com a história de antecipar. Para mim, o segredo é ter um ano e meio ou dois anos de pré-financiamento.

Mas esses 100 milhões que estão a tentar captar, vão ser investidos em quê?
Não vamos inventar, vamos investir naqueles três setores que temos. Muitas vezes perguntam-me porque é que não investimos em offshore. A questão é que não tenho condições para me meter no offshore, portanto, a resposta é não.

Então não estão interessados nos leilões offshore que o Governo vai lançar no próximo ano?
Estou interessadíssimo, mas não tenho condições financeiras nem vantagens competitivas neste momento para entrar nisso. Não é que seja cético, de todo, mas acho que a tecnologia também ainda não está madura o suficiente do ponto de vista económico. Para estarmos a investir num sítio, são precisas duas coisas: que faça sentido e que tenhamos vantagens comparativas, caso contrário, não vamos para lá fazer nada.

Acha que o Governo está a dar um passo maior que a perna neste leilão?
Relativamente ao offshore, temos dois tipos: o fixo, que no fundo é igual ao onshore, mas debaixo de água, e há o offshore flutuante. Em Portugal, pela profundidade, só dá o offshore flutuante. Não é que esta tecnologia não funcione, porque funciona [...]. A questão é que ainda é muito caro porque a metodologia de fabrico ainda não está standardizada. Portanto, diria que os países não devem ter demasiada pressa.

Voltando aos investimentos da Greenvolt, está previsto entrar em novas geografias?
No descentralizado está previsto entrar em novas geografias, iremos ainda anunciar, mas será na Europa como base. Fora isso, já estamos em 12 países, e a primeira prioridade é retirar valor de onde já estamos.

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