"Marcas fortes na restauração estão a desenvolver produtos para serem vendidos no super"

David Lacasa, sócio da consultora Lantern, faz um retrato de como a pandemia obrigou o setor agroalimentar, retalho alimentar e restauração a mudar o seu negócio.

A pandemia obrigou ao teletrabalho, gerou desemprego e mais refeições domésticas: 38% dos portugueses começaram a trabalhar em casa, o valor mais alto dos países do Sul da Europa, só suplantado pelos 41% de Itália, segundo o EIT Food Foresight: impact of covid-19 on the food sector in Southern Europe, da Lantern - divulgado na próxima terça-feira e a que o Dinheiro Vivo teve acesso. E encomendar comida em serviços de entrega passou a ser habitual: 7% usou pelo menos 1 vez, 23% usou mais, 11% menos ou o mesmo, e 59% nunca.

Mudanças no comportamento do consumidor que estão a alterar a forma como setor agroalimentar produz e o modo como a restauração se está a organizar.

"Da mesma maneira que agora podemos comprar cápsulas de café do Starbucks, podemos chegar a ver pratos da Portugália o de qualquer outra marca, prontos para comer, nas prateleiras", dos supermercados, vaticina David Lacasa, sócio da consultora Lantern, um dos oradores do webinar Depois da pandemia: cenários futuros para o setor agroalimentar, que decorre amanhã.

Imagens de prateleiras de supermercados vazias marcaram o eclodir da pandemia e colocaram uma enorme pressão sobre as cadeias para garantir o reabastecimento. O que retirou a indústria desta dura aprendizagem?

Fundamentalmente aprendemos três coisas: a gestão da mudança; uma revisão do benefício e colaboração. O setor agroalimentar sempre foi muito lento a fazer mudanças, mas em muito pouco tempo conseguiu manter as prateleiras cheias de uma forma nunca antes conhecida e a desenvolver o teletrabalho nos seus escritórios. Ao mesmo tempo, vimos como as companhias procuraram o bem comum antes dos lucros e deixaram de fazer estratégias ao longo prazo para focar-se no muito curto. Por último, o setor foi um exemplo de colaboração entre companhias e entidades - fabricantes e retalhistas fortaleceram seus relacionamentos através de uma estreita colaboração durante os primeiros momentos caóticos do confinamento.

No agrolimentar receou-se que o fecho de fronteiras levasse a quebras de fornecimento de produtos, a quebra de exportações. Mas em Portugal, pelo menos, foi dos poucos setores a ver subir exportações em 2020. O que tornou o setor tão resiliente?

Nas primeiras semanas verificaram-se alguns problemas na exportação, mas foi quase sem relevância. A alimentação foi um dos setores que menos sofreu com a crise porque é uma necessidade comum a todos. Ao mesmo tempo, temos que ter em conta que o sul da Europa, e nomeadamente também Portugal, são países produtores. O Norte da Europa não tem uma agricultura tão forte e importa grande parte da sua alimentação. Juntamente a esse fator, beneficiámos de uma política comum da UE ajudou a que nestes países não houvesse essa quebra.

Muitos produtores - com o fecho do Horeca - viram muitos dos seus canais tradicionais de escoamento encerrados. Abriram lojas em marketplaces, de vendas diretas aos consumidores... Que ensinamentos se podem retirar destas experiências até ao momento? O que pode ser melhorado?

O maior ensinamento é que há consumidores que estão à procura deste tipo de produtos. Mais ainda há muitas complicações do lado logístico e na gestão deste tipo de plataformas. Possivelmente vamos a ver menos produtores a desenvolver este canal, mas mais plataformas que ponham em contato produtores e compradores. Em Itália, Cortilia - que se apresenta como o primeiro marketplace agroalimentar, agora já com 2500 artigos alimentares disponíveis, e que opera nas regiões da Lombardia, Emilia-Romagna e Piedmont -é um bom exemplo.

Assistimos em 2020 a um boom do ecommerce, até no retalho alimentar. São tendências a manter?

O e-commerce vai continuar a crescer nos próximos anos. A tendência acelerou por 3-5 anos em muitos países, e muitos mais lares começaram a usar este canal. Sobretudo foi muito relevante que lares como os dos idosos também fizeram pela primeira vez uma compra online. O crescimento não continuará a ser tão rápido, mas será constante. O desafio agora para as marcas passa por desenvolver uma oferta relevante e diferencial do aquilo que estão a vender nos supermercados.

Vender online traz ainda um conhecimento personalizado dos interesses do consumidor. De que modo as empresas estão a "rentabilizar" a data que recolhem e a usar a inteligência artificial para melhorar procedimentos e servir melhor o cliente?

O processo atual, na maioria das empresas, ainda está muito longe de ter uma gestão tão avançada quanto isso. Só as grandes marcas do ecommerce estão a rentabilizar a data. As que já estão a gerir adequadamente essa data estão agora muito focadas em melhorar a logística e otimizar as entregas. Conseguir agora uma entrega mais rápida e mais económica vai a ser o fator de maior impacto na satisfação do cliente.

Muitos super começaram a usar plataformas de entregas para garantir entregas rápidas de compras de mercearia em vez de, ou complementando a sua rede logística. Que outras tendências estão a emergir?

Neste aspeto, sobretudo vamos ver que as tendências do delivery vão também chegar ao retalho. Vamos a ver dark stores da mesma maneira que estamos a ver dark kitchens. Locais que servem de pequenos armazéns para server de ponto logístico para a última milha.

Para os restaurantes as plataformas de entrega foram a opção para manter alguma atividade através das entregas ao domicílio ou take away, mas com isso surgiu o tema do valor das taxas cobradas. Em Portugal, o Governo determinou um tecto para o valor das taxas cobradas aos restaurantes e consumidores. Como comenta?

O modelo de negócio do delivery precisa de uma mudança séria. Agora não é rentável nem para as plataformas nem para os restaurantes. O principal problema é o custo da entrega, que agora mesmo o consumidor não está a pagar. Temos que rever também como consumidores o impacto das nossas ações. Se o modelo não resultar para os negócios, veremos uma maior concentração de plataformas e uma mudança na relação de forças.

Que outras medidas faria sentido implementar para que se tornasse um negócio viável para todas as partes?

É preciso que os consumidores paguem pelo serviço e valorizem o mesmo. Ao mesmo tempo, os restaurantes têm que modificar o seu modelo de negócio para que o delivery seja uma parte relevante da oferta. Por isso, vai ser preciso elaborar uma oferta definida para este canal, com uns custos adaptados, pacote, etc. Em alguns casos transformarem-se em novas marcas e dark kitchens.

Restaurantes têm aberto "dark kitchens" para servir este crescimento das entregas. Que outras tendências vão marcar o futuro da restauração num momento em que o teletrabalho levou a um aumento de consumo de refeições em casa?

Um serviço que vai mudar muito é o da restauração nos centros de escritórios. Até agora este era um benefício para os empregados, mas se trabalham em casa, perde parte do sentido. Por isso, estimamos um crescimento de entrega de menus a casa como uma alternativa. Por outro lado, as marcas mais fortes de restauração vão fazer o percurso contrário e estão a desenvolver produtos para serem vendidos no supermercado. Da mesma maneira que agora podemos comprar cápsulas de café do Starbucks, podemos chegar a ver pratos da Portugália o de qualquer outra marca, prontos para comer, nas prateleiras.

Consumidores estão cada vez mais atentos à saúde. Que oportunidades isso pode trazer para o setor agroalimentar?

Esta é uma tendência que já era forte antes da pandemia mas que agora aumentou consideravelmente. Fundamentalmente vamos a ver etiquetas muito mais limpas e produtos mais naturais no futuro próximo. Mas, ao mesmo tempo, a saúde é agora um conceito muito mais aberto, cada vez mais holístico e mais perto do wellness. O cuidado da alimentação não é a única vertente. Os consumidores entendem que a saúde mental é um elemento muito mais relevante agora, e nesta área a indulgência e o prazer vão a continuar a crescer, não é tudo comida saudável.

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