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Margarida Couto: “Tem havido diabolização injusta das fundações”

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O impacto da digitalização da economia sobre o trabalho é o grande desafio do futuro, avisa a presidente do GRACE.

O GRACE – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial nasceu há quase duas décadas para ajudar as empresas a desenvolverem políticas de responsabilidade social. Margarida Couto, presidente da associação, diz que Portugal “não é amigo da filantropia”, e que tem havido uma “diabolização particularmente injusta” das fundações.

O que mudou na atuação do GRACE em quase 20 anos de história?
Felizmente mudou muita coisa. Em 2000, quando o GRACE foi criado, foi por meia dúzia de empresas e hoje representa 170. O GRACE cresceu todos os anos e é representativo do tecido empresarial português.

Como se explica essa mudança? O consumidor está a exigir isso das empresas?
Foi uma evolução. Mas acho que há um momento de viragem, que foi a aprovação pelas Nações Unidas da agenda 2030, e dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável. Ou seja, as empresas começaram a perceber que não podem pensar apenas no retorno acionista.

Também há pressão de trabalhadores e consumidores?
Há muitos stakeholders, começando pelos internos, os colaboradores. Às tantas também é um tema de retenção de talento. Porque esta é uma mudança geracional. Por outro lado, o perfil do consumidor também mudou, por exemplo, há estudos que demonstram que hoje o consumidor médio, que obviamente tem muitos millennials, está disposto a pagar até mais 15% de preço por um produto ou serviço que seja produzido com valores da sustentabilidade. Essa é outra pressão. E depois as empresas começam a exigir que na sua cadeia de fornecedores essas práticas sejam implementadas.

E quais são os maiores desafios do futuro para as empresas?
Hoje todas as empresas já estão completamente atentas e conscientes para os temas ambientais, isso está mais ou menos garantido mas, por exemplo, são muito poucas ainda as empresas que têm noção do gigantesco desafio que é a digitalização da economia para o futuro do trabalho. Ou seja, são muito poucas as empresas que têm noção de que muitas das funções que os seus trabalhadores têm agora vão desaparecer no futuro, e não é num futuro daqui a 50 anos, é num futuro próximo. E há um risco enorme de haver uma fatia muito grande de empregos ótimos, e se calhar até bem remunerados, que pura e simplesmente desaparecerão, e são poucas as empresas que já estão a requalificar os seus trabalhadores para o future of work, para esse futuro.

Vídeo: Conciliação entre vida laboral e pessoal

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Falando de conciliação da vida profissional e laboral. Só 15 empresas aderiram ao Pacto para a Conciliação do governo. As empresas estão atrasadas na adoção de formas de trabalho flexíveis?
Atrasadas é um termo um bocadinho forte, mas se calhar têm menos consciência para o impacto que podem ter na sua própria organização se não compreenderem o fenómeno rapidamente. Se não for adequadamente compreendido e a tempo, pode acabar por ter um impacto na retenção de talento e na saída de colaboradores, justamente para as empresas que chegaram mais cedo a essa consciência e que têm práticas mais amigáveis de conciliação. Enquanto presidente do GRACE, noto que o tema está crescentemente presente nas preocupações das empresas.

No atual contexto, com muitos setores a queixarem-se de falta de mão-de-obra, há pressão nesse sentido?
Vai haver pressão, sobretudo porque esta geração é uma geração de movers, ou seja, enquanto na minha geração pensávamos no emprego para a vida, hoje ninguém desta nova geração encara um emprego como para a vida. E como nós estamos a atingir o pleno emprego, é evidente que se torna mais importante reter pelo menos aquelas pessoas que as empresas querem reter e se a conciliação for, como parece que é, um tema importante, as empresas acabam por ser forçadas a chegar lá. E atenção, nem sempre os labels significam tudo. Acredito que há muito mais do que 15 empresas familiarmente responsáveis, ou que conciliam a vida pessoal com a vida do trabalho.

Há cada vez mais líderes empresariais a defenderem causas, os chamados CEO “ativistas”. Quais os riscos e as vantagens para as empresas?
O principal risco é as empresas serem mal compreendidas neste esforço que estão a fazer. Infelizmente também há más práticas, e basta olhar para o que aconteceu na crise económico-financeira, que começou por ser sobretudo uma crise de valores empresariais. Isso faz que se não houver um alinhamento muito forte entre aquilo que a empresa ou o CEO anuncia publicamente como o seu posicionamento e aquilo que acontece na prática, então há riscos. Porque há uma tentação muito grande de todos – os stakeholders, seja os consumidores, os colaboradores, os media – pensarem “isto é greenwashing, isto é só socialwashing”, não adere à realidade do que se passa. É um dos grandes riscos que as empresas correm, mas acho que há muita consciência desse risco.

Vídeo: Filantropia estratégica

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Relativamente à filantropia, tem dados sobre os donativos das empresas em Portugal?
Os dados são absolutamente surpreendentes em termos do que é a generosidade das empresas. Cerca de 200 milhões de euros por ano em filantropia é muito dinheiro. Mas há muito caminho a ser feito no sentido de essa filantropia ser mais estratégica. Ou seja, em vez de ser a filantropia do donativo puro, ser a filantropia da lógica da parceria de longo prazo, a filantropia de impacto, de medir o impacto. Ou seja, uma coisa é fazer uma doação de cem mil euros, mas depois não saber verdadeiramente o que é que aqueles cem mil euros mudaram para melhor na sociedade ou na comunidade local; outra coisa é saber qual foi o retorno social que esses cem mil euros tiveram. Isso implica um reposicionamento da visão que as empresas têm da filantropia.

Os incentivos à filantropia são adequados?
Portugal não é muito amigo da filantropia, há países com os quais temos muito a aprender, mas, apesar de tudo, também não é péssimo. Ou seja, de facto, há incentivos fiscais à filantropia. Um donativo a uma IPSS não só é descontado nos impostos de uma empresa, como é majorado. Claro que é um incentivo, mas podia haver muitos mais, e não apenas de índole fiscal. Há muitas empresas que já estão no último patamar da responsabilidade social, que é a criação de uma fundação corporativa, portanto, fazem quase como que um spin off desta sua ação de responsabilidade social, e colocam uma fatia muito considerável de fundos financeiros, que só podem usar para a missão da fundação. Eu acredito que uma das razões pelas quais existem em Portugal relativamente poucas fundações corporativas, em comparação com outros países, é porque não há os incentivos certos para que mais empresas deem esse passo, um bocadinho mais agigantado, de criar uma fundação.

Há uma certa diabolização das fundações?
Tem havido uma diabolização, que é particularmente injusta. Como em tudo, não há nenhum pomar que não tenha pelo menos um fruto podre, e o setor fundacional, o setor corporativo e o setor associativo, todos os setores têm maus exemplos. O que é absolutamente lamentável é que, quando o setor é filantrópico por natureza, porque uma fundação tem de ter uma missão social, todo o setor seja contaminado negativamente por haver um ou outro mau uso da figura da fundação. O setor fundacional é um setor altruísta, e quando uma empresa dá o passo de criar uma fundação corporativa, é muito frustrante às vezes assistir ao olhar crítico de “pois, isso é para lavar…” É muito frustrante, mas as empresas são resilientes.

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