Mário Soares ataca Seguro e diz que Costa fará “grande” partido de esquerda

Mário Soares, antigo Presidente da República
Mário Soares, antigo Presidente da República

O ex-Presidente da República Mário Soares afirmou hoje que apoia a candidatura de António Costa à liderança dos socialistas porque construirá "um grande partido de esquerda" e não um PS "feito com a direita" para ter lugares.

Mário Soares falava na sessão de apresentação da candidatura do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, à liderança do PS e às eleições primárias para a escolha do candidato socialista a primeiro-ministro.

Num Teatro Tivoli completamente cheio, António Costa foi recebido em ambiente de euforia por centenas de apoiantes socialistas, entre os quais, na primeira fila, o fundador e primeiro líder do partido, Mário Soares.

Mário Soares fez depois um ataque cerrado à atual direção do PS, embora sem nunca referir diretamente o nome do secretário-geral, António José Seguro.

“António Costa vai fazer do PS um grande partido, um partido de esquerda. E não vai ser um PS feito com a direita, só para ter lugares”, disse na parte final da sua curta intervenção.

Logo nas suas primeiras palavras, o antigo chefe de Estado lançou críticas à atual linha dominante do PS, elogiando os socialistas presentes na sessão e, em seguida, sustentando que há muito tempo que não ouvia gritar com punho esquerdo erguido “PS, PS” e que também há muito tempo que não ouvia a palavra “camarada”.

“A palavra camarada foi perdida e até hoje só via gente a tratar de si próprio, o que não posso admitir”, afirmou o fundador do PS.

Mas Mário Soares foi ainda mais longe: “Nestes últimos três anos nunca ouvi falar do PS. Isto acontece porque aqueles que se diziam chefes do PS não têm nada a ver com o PS. É preciso que as coisas mudem – e vão mudar com António Costa, que é do PS desde 14 anos”, disse, recebendo uma prolongada ovação.

Sem citar o nome de António José Seguro, Soares fez ainda a seguinte observação: “Há quem nunca fale do PS, mas ande sempre a dizer que ‘vou ser primeiro-ministro, quero ser primeiro-ministro’. É qualquer coisa de estranhíssimo”, referiu.

Antes de Mário Soares, a primeira intervenção da sessão pertenceu a Ferro Rodrigues, que foi secretário-geral do PS entre 2002 e 2004, num discurso em que defendeu que António Costa “é uma esperança” para mudar o curso político “depressivo” em Portugal.

“A esperança está a renascer”, gritou Ferro Rodrigues para a plateia, dizendo que “é preciso que cessem os ataques ao Estado social e aos direitos dos trabalhadores”.

“É preciso acabar com a liquidação gradual dos direitos sociais, é preciso acabar com os ataques à escola pública, ao Serviço Nacional de Saúde e à segurança social pública”, declarou, numa intervenção em que criticou o posicionamento dos comunistas na história da democracia portuguesa.

Depois, Ferro Rodrigues deixou um recado ao atual secretário-geral do PS, falando do seu caso pessoal como líder do partido em 2004.

“É compreensível a mágoa do atual secretário-geral do PS e eu próprio sei que, há dez anos, se em vez de ter 44 por cento obtivesse antes 34 por cento nas europeias, teria de enfrentar desafios internos – e estou certo que não reagiria muito bem. Mas de uma coisa estou certo: Faria tudo para que a crise interna do PS fosse resolvida o mais depressa possível, como é próprio de um partido democrático”, declarou o atual vice-presidente da Assembleia da República, levantando a plateia.

Ferro Rodrigues pediu ainda que todos os socialistas “pensem no dia seguinte a este processo interno que promete ser longo”.

“É preciso sempre manter a dignidade, manter as pontes, a firmeza e a ideia de que vamos sair mais fortes depois deste processo. Não há homens providenciais, mas há homens que são mais importantes que outros em cada momento – e esse é o caso de António Costa”, concluiu.

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