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Matt Preston: “É possível ser uma atração turística e ser excelente”

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Em Portugal para apresentar um livro de receitas, o australiano admite que nunca seria um bom chef. Provar, diz, é a melhor profissão do mundo

A tarde já vai longa para Matt Preston, mas nem por isso o popular jurado do Masterchef Australia evita o abraço, a selfie ou o autógrafo a quem o pára. É alto como parece na televisão e de gargalhada fácil. O tom de voz é agradavelmente familiar. “Gosto muito de conversar, é um prazer”, começa por dizer, sem mostrar qualquer sinal de cansaço apesar dos dias longos e das várias abordagens que vai retribuindo com entusiasmo à custa de atrasos no programa milimetricamente desenhado. “Eu falo demasiado…” explica, olhando de relance para a equipa da Casa das Letras, editora do seu livro “Delicioso, Simples e Prático”, em jeito de mea culpa. “… Mas os portugueses são tão respeitadores, adoro. Têm óptimas maneiras, aproximam-se e ficam super excitados. Ainda ontem o funcionário da bomba de combustível olhou para mim e de repente fez ohhh e deu-me um enorme abraço. Foi maravilhoso!”

O reconhecimento é uma das maiores heranças dos 11 anos à frente do programa de culinária e que o colocou ao lado de Gary Mehigan e George Calombaris. Por agora, essa etapa está fechada e o programa regressará com outra equipa. Mas Preston, o jurado do lenço de seda e dos fatos excêntricos, deixa a porta aberta à TV e aos companheiros de sempre: “Definitivamente, quero fazer mais televisão. Tenho uma óptima relação com George e Gary, adoramos a nossa comida e trabalhar juntos”.

Aos 57 anos, já não se considera um crítico gastronómico, prefere definir-se como autor [de receitas], homenagem à enorme paixão que tem pela comida. Uma ultrapassagem à direita à carreira de chef que sempre procurou evitar. “Quando deixei a universidade, um amigo quis abrir um restaurante e eu ajudei-o, mas quando vi a cozinha pensei ‘não, isto é demasiado difícil’. Sem pensar muito, meti-me na música, comecei a trabalhar com revistas a fazer concertos, eventos, marketing. Um dia, bateram-me à porta para escrever sobre comida. Sair com amigos e escrever sobre comida parecia um emprego de sonho”, conta ao Dinheiro Vivo. “A cozinha é quente, tem um ambiente difícil e agressivo. A sala de jantar é elegante, sofisticada e divertida. Obviamente que preferia estar na sala de jantar”.

Com o tempo tudo ficou mais fácil. “Se eu ainda fosse crítico, vir a Lisboa seria um enorme stress, porque sentir-me-ia obrigado a provar tudo e eu não consigo provar tudo. Teriam de ser duas, quatro, seis semanas… mas agora estou mais descontraído. Fui a Beja e pude provar algumas coisas que me deram uma boa noção da região. Sei que há mais para descobrir e por isso irei voltar”. Por agora, Porto e Norte terão de esperar.

É, naturalmente, da cozinha que leva a sua palavra preferida em português: ‘raspa’. Mas também decorou ‘obrigado’, ‘bom dia’, ‘minis’ e ‘migas’. “Eu gosto de cozinhar de forma simples e rápida e Portugal é um sítio óptimo para isso. Todos os locais que visito são uma inspiração. E vou continuar a falar sobre Portugal, sobre o cachaço de porco, cortado bem fino e grelhado só com umas pedras de sal… que coisa tão simples e deliciosa; sobre as migas com espargos… ohhh as migas, têm algo de mágico, a carne de porco com amêijoas, as amêijoas que quase nem precisam de tempero…”

Com cada vez mais turistas a visitar Portugal, Preston admite que notou um “debate difícil” perante a tentação de esconder os melhores segredos para que não se percam. Deixa, por isso, um conselho: “Podes ser enorme e continuar a ter alma. E o que interessa é a alma, o orgulho, a herança”, assume dando o exemplo dos Pastéis de Belém: “Têm uma essência; tudo gira em torno da receita secreta. E cumprem a promessa que fazem. É possível ser uma grande atração turística, ser excelente e manter o orgulho dos portugueses”, reafirma, admitindo que o turista não quer sentir-se enganado para poder voltar. “Fazer dinheiro, servindo má comida aos turistas não dá. Há imensos exemplos: França é horrível, Roma é horrível e caro. Se fores um turista vais-te perguntar onde é que deves ir. Eu fui muito estratégico, fui a Beja porque pensei que ninguém lá iria.´Fui a Beja para ver Portugal. Se quiser ver um McDonalds vou à América”.

O que leva na despedida? “Havia uma imagem de que a comida portuguesa era simples, bastante neutra e unidimensional. Mas quando vens cá percebes que a diversidade regional é enorme, a profundidade é fantástica e confecção é muito boa”. Resta saber se terá abandonado o País com a resposta que também muitos portugueses querem saber: “Provei um pastel de bacalhau que tinha demasiada batata, e ainda me estou a debater onde poderei provar o melhor de todos”.

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