Ambiente

Meet 2030. A revolução das empresas e da economia começa aqui

António Alvarenga, Sofia Santos e Tiago Domingos são os mentores do Meet 2030 da BCSD Portugal.
(Diana Quintela /Global Imagens)
António Alvarenga, Sofia Santos e Tiago Domingos são os mentores do Meet 2030 da BCSD Portugal. (Diana Quintela /Global Imagens)

Perante o desafio de uma economia neutra em carbono, a BCSD lançou uma iniciativa para propor medidas. Em entrevista, os mentores explicam o projeto.

Quando, em dezembro de 2015, uma grande maioria das nações mundiais assinou o Acordo de Paris estava dado o pontapé de saída para a mudança de paradigma nas alterações climáticas. O objetivo é ambicioso: chegar a 2050 com uma economia neutra em carbono.

A pensar na preparação da sociedade, da economia e do tecido empresarial português para enfrentar o desafio da descarbonização, o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD), constituído por 80 membros que representam 38% do PIB nacional e empregam mais de 270 mil pessoas, tem promovido o debate da descarbonização e lançado iniciativas para preparar as empresas para a nova realidade económica e ambiental.

Empresas como a EDP, a Jerónimo Martins, a Cimpor, a Galp, a PT, a Nos ou a Navigator Company já estão a preparar medidas mas a BCSD lançou uma iniciativa paralela para que se perceba o papel da eficiência energética no crescimento económico: o Meet 2030 – Energia, clima e crescimento económico – oportunidades de negócio em Portugal, onde as empresas procuram imaginar como será a economia em 2030.

Esta é uma iniciativa que envolve as empresas e vai desenhar cenários para 2030 que permitam que estas empresas melhorem a competitividade quando estiverem a fazer a transição dos combustíveis fósseis para as energias limpas. Um desafio que passa também pelos gestores.

Numa entrevista conjunta ao Dinheiro Vivo, os três cérebros do projeto – Sofia Santos, secretária-geral da BCSD, Tiago Domingos, professor associado do Técnico e António Alvarenga, diretor executivo da ALVA Research and Consulting – explicam o objetivo do projeto, qual deve ser o envolvimento das empresas e do Governo e de que forma podem as empresas aproveitar esta mudança de paradigma para se tornarem mais eficiente e de que forma é que os gestores e decisores têm de se adaptar a esta realidade.

“Este projeto é um esforço do setor privado em tentar compreender como é que os temas da neutralidade de carbono e as consequências do acordo de paris podem trazer ao nível das mudanças de negócios, das empresas e de oportunidades. É a preocupação do setor privado em tentar antecipar o futuro”, começa por explicar Sofia Santos, secretária-geral da BCSD.

O projeto, diz, surge a partir de um trabalho técnico desenvolvido por Tiago Domingos e onde se juntou o trabalho que o Instituto Superior Técnico já estava a desenvolver sobre mudanças tecnológicas no futuro ao desenvolvimento de cenários relacionados com os modelos das empresas. “No fundo foi uma junção destas duas componentes”, diz. E a meta de 2030, apesar da transformação só estar prevista para 2050, é para trazer este horizonte temporal para uma realidade mais atual.

Tiago Domingos dá mais detalhes: o Técnico tem vindo a desenvolver, já há cinco anos, um trabalho para “perceber qual o papel que a energia tem no crescimento económico”, um comportamento que começou de forma massiva durante a Revolução Industrial e está relacionada com a capacidade de “mobilizar massivamente os recursos estratégicos”.

“Ao perceber o papel no passado ficamos com ideias de como é que políticas adequadas e modelos de negócio adequados podem permitir relançar o crescimento económico, que em Portugal está estagnado”, refere, acrescentando que “no mundo Ocidental não há crescimento económico significativo desde os anos 70”. Assim, a ideia é tentar perceber como se pode relançar o crescimento económico “no contexto da quarta revolução industrial”.

António Alvarenga, da ALVA, acrescenta que “este é um projeto muito amplo mas com metas muito concretas”. Assim, o objetivo final é apresentar “novas soluções com esta ideia de que há uma relação entre criação de valor e o aumento da eficiência energética”.

“É um grande desafio para os gestores e há uma nova geração de gestores de topo em Portugal que têm de olhar para este tema”, avisa, lembrando que há já várias formações para CEOs que incluem o tema da inovação. Até porque a dificuldade das empresas é perceber que é preciso alterar o que funcionou até agora para um método que não é certo de que vá funcionar. Neste sentido, é essencial a colaboração e a partilha de experiências entre empresas. “Há muito a ganhar com a partilha de informação e projetos, de um conjunto de empresas que partilham um ecossistema”, diz o responsável.

António Alvarenga, questionado, afasta a ideia de que as PME terão mais dificuldades em fazer essa transição por terem uma menor estrutura ou menos recursos económicos. “Há PME portuguesas que trabalham para o mundo inteiro. Os mecanismos de implementação é que podem não ser os mesmos dos de uma grande empresa”, admite. Sofia Santos contrapõe: “mas podem ser mais ágeis”. Alvarenga concorda: “quando somos poucos podemos ter uma forma mais rápida de decisão”.

Assim, para António Alvarenga, esta mudança está “muito mais dependente da capacidade de, mentalmente, os seus líderes fazerem a mudança”. Sofia Santos concorda e diz que há exemplos de PME em Portual onde a abordagem dos gestores evidencia uma dinâmica e “a percepção muito clara da relevância que estes temas têm”.

“Esta mudança está muito dependente da capacidade de, mentalmente, os líderes fazerem a mudança”.

Questionada sobre quais os principais desafios para as empresas, Sofia Santos refere que estes estão relacionados com a “potencial mudança na estrutura dos setores que existem atualmente na economia. Neste momento podemos estar em tal transição que uma empresa de um determinado setor se calhar já não vai pertencer a esse setor”. E, num contexto de descarbonização profunda, as empresas terão de alterar os seus processos de produção, o que implica “mudanças na inovação e também na forma como os consumidores consomem o produto final”. Nesta transição a mudança também passa pelos consumidores, já que também estes deverão alterar a forma como consomem e se relacionam com determinados produtos.

Para Tiago Domingos, essa mudança nos processos e na perceção é como se transforma energia em valor económico. “As empresas precisam de encontrar formas de poder criar mais valor a partir da energia que utilizam. Tem de se trabalhar nas duas componentes: na conversão da energia em energia e na conversão da energia em valor económico”. E exemplifica: “se eu produzir mais luz com a mesma energia estou a criar mais valor”. As empresas, avisa, têm de mudar “profundamente” os seus modelos de negócio para “transformar problemas em oportunidades”.

“Parte do problema é criado por uma sucessão”, diz António Alvarenga. “Se eu não mudar o modelo ninguém vai notar muito mas se eu mudar e correr mal isso vai ser muito difícil por isso o grande desafio é perceber se o gestor tem os incentivos próprios para mudar”, acrescenta. E, para Tiago Domingos, o atual enquadramento económico do país, a começar a sair de uma crise profunda, pode ser uma oportunidade porque não deverão existir desvantagens em mudar os processos.

Os governos também devem ter um papel ativo nesta nova realidade. E o seu papel, para Sofia Santos, acaba por ser “muito semelhante ao papel das empresas, procurando um consenso sobre estes temas que são de médio e longo prazo. 2030 é distante, é anos-luz para a maioria dos empresários e políticos, que já não estarão no ativo nessa altura”. Assim, é preciso trazer o tema para a agenda atual, a pensar no futuro, no centro das preocupações da sociedade. “

“Este é um projeto sobre relançamento económico”, avisa Tiago Domingos, frisando que este tema deve estar no centro das preocupações, numa altura em que as economias se debatem com o crescimento das economias locais e globais. “Isto coloca-nos no centro das preocupações. Estamos a lidar diretamente com esse problema, transformando-o numa oportunidade”.

“Este é um projeto sobre relançamento económico. Isto coloca-nos no centro das preocupações. Estamos a lidar diretamente com o problema, transformando-o numa oportunidade.”

O Meet 2030 vai ter vários workshops ao longo deste ano e apresentará um documento com conclusões no final deste ano. “Traremos propostas que, se tudo correr bem, serão propostas de relançamento da economia e de crescimento económico e que, quase como bónus, trazem a descarbonização e o cumprimento dos compromissos climáticos”, diz Tiago Domingos.

E se pudesse escolher apenas um dos objetivos para concretizar? “O que eu acho que o Meet pode inaugurar é uma continuidade do envolvimento das empresas no planeamento estratégico do país”, diz António Alvarenga. “Não ser tanto uma proposta de política pública e a declinação do privado a essa proposta mas consensualizar a nossa visão do mundo”.

Sofia Santos refere que o objetivo é “conseguir um pensamento coletivo de empresas diferentes e que depois essa visão pudesse ter também um papel no que será o roteiro de baixo carbono para 2050 em Portugal. Ou seja, que o consenso das empresas consiga ser ouvido e ir ao encontro deste diálogo entre privados e públicos e influenciar, de forma positiva, uma política pública que vão ser delineada até 2050”.

Tiago Domingos também concorda: “a criação da visão conjunta, de uma rede de pessoas a pensar de forma articulada sobre o papel da eficiência energética no crescimento económico, que se traduza em propostas concretas que venham depois a ser postas em prática”.

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