Leite

Menos 54 mil produtores de leite em 22 anos de quotas

Produção de leite. Fotografia: Direitos reservados
Produção de leite. Fotografia: Direitos reservados

O fim das quotas do leite, dia 31 de março, vai fazer cair os preços à produção, sem reflexos no consumidor final, antecipam os responsáveis pelo setor em Portugal, tendo em conta o que alguns países já fazem.

Durante 22 anos, a produção de leite na Europa foi regulada por um sistema de quotas, que equilibrava a produção de cada país. A partir de 1 de abril, esse sistema desaparece, e o que vai imperar é a competitividade.

Para os produtores nacionais, “não vai ser bom. Alguns países já ultrapassaram as quotas e, com isso, os preços para os produtores já estão a descer desde outubro de 2014, 8 a 10 cêntimos”, afirma José Oliveira, presidente da Associação de Produtores de Leite e Carne (LEICAR).

A Federação das Cooperativas de Leite e Laticínios (FENALAC) também não espera grandes dias. “Portugal trabalhou sempre para o mercado interno e, dadas as condições, não conseguimos preços apetecíveis para o exterior. Por outro lado, os países do norte da Europa, grandes produtores, e também a Polónia, com potencial, quiseram sempre o fim das quotas, que sentiam como um colete de forças”.

Para Fernando Cardoso, secretário-geral da FENALAC, é possível que se venha a assistir ao fim de mais explorações em Portugal.

Em 22 anos de quotas, Portugal perdeu 54 mil produtores, mas conseguiu aumentar a sua produção, e em termos globais é autossuficiente no leite.

A Associação dos Industriais de Laticínios acredita que “em dois a três anos a produção passe para o norte da Europa e países bálticos, e os países do sul serão tendencialmente prejudicados”.

Paulo Leite, diretor-geral da ANIl, faz também referência à descida de preços, frisando que “os preços dos produtos referência, leite em pó magro e manteiga já em 2014 desceram 40%”.

Também não tem boas perspetivas para a indústria, “que não tem por objetivo importar leite”. Por outro lado, sendo Portugal um país aberto, “as marcas de distribuição irão comprar produtos lácteos a preços completamente desfasados da realidade local”.

Mais produção de leite poderia significar descida de preços dos produtos lácteos para o consumidor final. Mas nenhum dos responsáveis do setor acredita que tal venha a acontecer.

Paulo Leite lembra que “o queijo tem um preço semelhante desde há 15 anos. A cadeia de valores está desfasada, o leite custa em Portugal, ao consumidor 57 cêntimos, e em Espanha 90 cêntimos, sendo que o IVA é de 4% e aqui 6%. Mais, os preços à produção são semelhantes”.

Fernando Cardoso também afirma que “o consumidor final não será beneficiado. A produção está no limiar da sustentabilidade, e o leite em Portugal tem dos preços mais baixos da Europa para o consumidor, na Alemanha custa o dobro e nos outros produtos é um pouco mais”.

José Oliveira não admite a baixa de preços para o consumidor, mas sim para os produtores. “Nenhum produtor da UE vai ficar bem”.

Embargo à Rússia com impactos

Os produtores de leite nacionais, representados pela Leicar, já “sentiram o que poderão ser os efeitos do fim das quotas do leite com o embargo à Rússia”, afirmou José Oliveira, da LEICAR. “Os grandes países europeus que exportavam muito para a Rússia não o podem fazer e o excedente acaba por ser exportado para os países da União Europeia, situação que fez baixar o preço à produção”. Fernando Cardoso, da FENALAC, apontou a situação quase como um ensaio: “O embargo à Rússia baixou imenso os preços, muitas explorações estão no limiar da sustentabilidade”, admitindo que agora desapareçam as explorações de média e grande dimensão e de jovens agricultores.

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