Salários

Mercado de trabalho: As profissões mais procuradas pelas empresas este ano

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Vai ser preciso pagar mais para atrair programadores, engenheiros e comerciais. Mas o turismo ainda vive de salário mínimo.

É a lei da oferta e da procura a governar os salários. Se quiserem atrair talento qualificado, as empresas terão neste ano de abrir os cordões à bolsa: entre 15% e 20% mais. Mas no turismo e construção, onde há falta de pessoal, ainda impera o salário mínimo.

“É inevitável haver expectativas em relação a aumentos salariais”, diz Sandrine Veríssimo, diretora regional da Hays Portugal. No último ano, o clima económico temperou, com o PIB a expandir-se em 2,1% no terceiro trimestre, e a criação de 66 mil empregos – ainda que inferior ao nível de 2017 – a gerar novas oportunidades para os profissionais portugueses. Há uma conjuntura económica e um dinamismo no mercado de trabalho que estão a fazer subir os salários para alguns perfis mais difíceis de recrutar: os comerciais (37%), os informáticos e outro pessoal das tecnologias da informação (27%) e os engenheiros em outras áreas (21%). São, precisamente, as profissões que neste ano estão no topo da procura. E, na altura de mudar, o pacote salarial é o fator decisivo. No ano passado, 52% de trabalhadores recusaram ofertas de trabalho, 62% porque a remuneração não era atrativa, indica o Guia do Mercado Laboral 2019, da Hays (ver quadros abaixo).

“Face ao gap existente entre a oferta e a procura, para que os potenciais empregadores consigam atrair talento terão de apresentar uma oferta salarial média de até 15% a 20% sobre o salário atual dos profissionais que pretendam contratar”, prevê Sandrine Veríssimo.

Salários tech em alta

É uma previsão “razoável”, admite Carla Rebelo, diretora-geral da Adecco Portugal, sobretudo para as tecnologias de informação. “Estamos a falar de jovens que estão ainda no segundo ano de Informática e nas férias de verão não trabalham por menos de mil euros. É mais de 50% acima do salário mínimo nacional.”

Dados cedidos ao Dinheiro Vivo pela Landing.jobs, uma plataforma especializada em recrutamento tecnológico, revelam os valores que estes profissionais encontram no mercado em fase inicial de carreira: um cientista de dados pode ganhar entre 25 e 32 mil euros brutos anuais, enquanto um programador de aplicações para o iOS (sistema operativo da Apple) ganha entre 23 e 32 mil.

António Miguel Ferreira, diretor-geral da Claranet Portugal, empresa de cloud que já emprega 600 pessoas e espera contratar mais cem até ao final do ano, confirma o aumento de salários no setor tecnológico. “Com certeza o nosso salário médio aumentou mais do que 15% nos últimos três anos.” Já a Bi4All, tecnológica especializada em analítica, fala em subidas no sector nos últimos três anos “entre os 20% e os 50% consoante o nível de qualificação, experiência e senioridade dos profissionais. Para 2019, estimamos que se registe um aumento médio na ordem dos 15%”, diz Inês Xavier, diretora financeira e de recursos humanos da empresa.

Este esforço das empresas vai acabar por ter um reflexo na economia, entende António Miguel Ferreira. “Se temos uma pressão de subida dos custos dos recursos humanos, as empresas vão ter de pagar mais pelos serviços. As empresas que se focam apenas no mercado nacional, e que são mais pequenas, vão ter mais dificuldade em segurar os recursos humanos.”

Uma pressão salarial que Mário Caldeira Dias aponta a novo investimento lá de fora. “Se houver um investimento estrangeiro que precise de 500 engenheiros informáticos é natural que isso pressione os salários”, diz o ex-presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). Mas, ressalva: “Algumas dessas áreas da informação são também os call centers, aqueles que alimentam as bases de dados” com salários mais baixos.

Mudar de vida

“Portugal está a atravessar um período de otimismo no que respeita às intenções de recrutamento, sendo que 86% dos empregadores afirmam querer contratar profissionais qualificados neste ano”, diz Sandrine Veríssimo. Administrativos (75%), engenharia (74%), contabilidade e finanças (73%), juristas (72%), banca e seguros, marketing e comunicação e comerciais (71%) são os que estão mais disponíveis para receber ofertas.

Alguns até para mudar de país. “O setor da banca e seguros é o que apresenta mais disponibilidade para trabalhar no estrangeiro (56%). Foi uma área bastante afetada durante a crise, em que se assistiu à suspensão de novas contratações e que, mais recentemente, voltou a recrutar, num volume moderado”, justifica Sandrine Veríssimo.

No turismo, a vontade de sair sofreu “uma descida abrupta de 18 pontos percentuais” (para 30%), diz a Hays. Um dos setores mais dinâmicos da economia, o turismo queixa-se de falta de pessoal, mas os salários não evoluem. “Tem vindo a crescer com salários baixos. Segundo as estatísticas, 36% das pessoas estão a entrar no mercado de trabalho com salário mínimo. Significa que não falta muito para que um terço dos portugueses ganhe o salário mínimo”, alerta Mário Caldeira Dias, o também diretor da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Lusíada.

Sandra Veríssimo admite que a tendência possa alterar-se. Com o crescimento que o setor está a sentir, “já começa a haver uma preocupação para o recrutamento de perfis qualificados que se tem feito sentir mais na mobilidade de quadros internacionais. Prevemos que nos próximos anos esta intenção de recrutamento venha a aumentar”, diz. Neste ano, na hotelaria só há 6% de intenções de contratação, segundo a Hays.

Turismo e construção são setores onde há procura, mas “são profissões muitas vezes mal pagas e têm um estatuto que não é muito elevado. Muitas vezes têm condições penosas, como é o caso da construção civil. Muitos países resolveram isso à custa da imigração”. Ainda que baixos, os salários na construção “estão a subir com relativa rapidez, exatamente por causa da falta de mão-de-obra”, diz Mário Caldeira Dias.

Subida é sustentável?

Apesar da pressão salarial não é fácil convencer os empresários a subirem o valor das ofertas. “É comum os recrutadores encontrarem candidatos com toda e mais alguma qualificação, mas depois o salário não corresponde”, considera Carla Rebelo.

A taxa de desemprego, que estava a cair há seis anos, voltou a subir, atingindo 6,7% em novembro e deverá manter-se em dezembro. Mário Caldeira Dias entende que o efeito do arrefecimento europeu pode afetar as expectativas nos salários. “Esperemos que sejam dados conjunturais. Esta situação vai manter-se até ao verão.”

 

Pacote fiscal não atrai emigrantes

Uma proposta “muito desafiante”, com um projeto que se enquadrava no próximo passo da sua carreira, levaram João Espírito Santo a regressar a Portugal. “Contou muito querer viver este momento do país, muito convidativo à criatividade e empreendedorismo, diz o publicitário, que, em 2014, rumou para a agência Ogilvy Africa. O pacote fiscal proposto pelo governo pesou? “Não foi decisivo.”

E o mesmo indica o estudo realizado pela Hays. Entre “pouco” (36%) e “nada” (51%) foi a resposta da maioria em relação ao programa do governo para atrair emigrantes com desconto de 50% no IRS. Apenas 6% admitem que a oferta, para os profissionais que emigraram entre 2011 e 2015 e regressem nos próximos dois anos, pesou “muito”. E 7% não conheciam o programa. Nada que surpreenda Sandrine Veríssimo, da Hays. “Só seremos um país atrativo para os que emigraram quando o formos para os profissionais que continuam a trabalhar em Portugal. A oferta salarial (72%) e a aposta em projetos inovadores (52%) são a chave para a atração deste talento.”

“As ofertas salariais no nosso mercado ainda nem conseguem competir com a oferta internacional, que procura e paga experiência”, diz João Espírito Santo.

Carla Rebelo, da Adecco Portugal, desvaloriza a proposta no caso dos quadros intermédios. “Depende muito do nível salarial. Se for para ganhar dez mil euros, com certeza pagar 20% em vez de 40% é relevante. Mas, para ganhar dois mil euros, provavelmente não é por esta diferença que escolherá voltar – e terá, provavelmente, um salário mais alto no país onde está.”

Além do salário atrativo, “motivos de ordem pessoal e familiar” (60%) e “vontade de viver em Portugal” (58%) são as razões para o regresso. Mais de 78% dos imigrantes querem regressar, 43% nos próximos dois anos. Só 37% querem emigrar; no período crítico da crise chegou aos 80%.

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