Banco de Portugal

Mercado de trabalho perdeu folga e há mais pressão para subir salários

Porto - Reportagem de excesso e procura de emprego.

Mulheres vão segurar níveis de participação no mercado de trabalho até 2040, e reformas vão acontecer cada vez mais tarde, prevê Banco de Portugal.

Estão a esgotar-se os recursos do mercado de trabalho em Portugal e a pressão para aumentar salários vai ser maior, prevê o Banco de Portugal esta quarta-feira no seu último boletim económico, numa análise ao impacto das alterações demográficas na oferta de trabalho em Portugal.

A instituição traça o retrato de uma demografia a cair a pique, com o desemprego já em mínimos de 2004, e cada vez menos indivíduos desencorajados disponíveis para formar mão-de-obra. O mercado de trabalho português conta sobretudo com o dividendo feminino do pós-25 de abril para suster quebras na taxa de atividade por mais duas décadas, e com as restrições à idade de aposentação para segurar os trabalhadores por cada vez mais tempo, mas os efeitos de ter a quinta população mais envelhecida do mundo já se sentem.

O Banco de Portugal afirma que, “no curto prazo, as limitações na oferta de trabalho e a dinâmica da procura são suscetíveis de aumentar a pressão sobre os salários”. E aponta indicadores que o denunciam. As queixas de empresas sobre a dificuldade em recrutar são as que mais sobem nos últimos anos nos inquéritos nacionais e da Comissão Europeia, ainda que as subidas de remunerações recentes em Portugal possam ser explicadas por enquanto em grande parte com o aumento do salário mínimo – ganho por perto de um quinto da população em finais de 2018.

Part-timers e desencorajados em queda

Além do universo dos que estão à procura de emprego (mais de 344 mil no fim de 2018), o número daqueles que podem ainda ser atraídos para o mercado de trabalho está a encolher. A taxa de subutilização cai mais em Portugal que no conjunto da Zona Euro. Era de 13,85% no ano passado. Esta folga era de 457 mil indivíduos, mais de um terço dos quais part-timers à procura de horário completo.

Infografia: Mónica Monteiro

Infografia: Mónica Monteiro

O número de indivíduos inativos caiu 12% em 2018 e, no último trimestre deste mesmo ano, os part-timers disponíveis para horários completos eram menos um quinto face ao mesmo período do ano passado. Os trabalhadores com horário completo e disponíveis para trabalhar mais horas com aumento da remuneração caíram na mesma altura 8%.

Entretanto, uma década de saldos naturais negativos sem interrupção, e saída de imigrantes no período da crise, anulou já o aumento de população dos primeiros anos do milénio. Somos hoje tantos quantos éramos no ano 2000, mas mais velhos, já que metade dos que vivem no país têm agora 45 ou mais anos – a mediana de idades avançou oito anos desde 1998.

O Banco de Portugal destaca que a população em idade de trabalhar teve “uma redução sem precedentes” nos últimos anos, encolhendo 5,9%. E, apesar da recuperação económica, o número dos que se encontravam a trabalhar ou disponíveis para tal em 2018 era ainda inferior, em 4,4%, ao existente antes da crise económica e financeira.

Mulheres seguram taxa de atividade, mas só até 2040

Por enquanto, três em cada quatro pessoas está em condições de trabalhar em Portugal, com a taxa de atividade ainda acima da média da UE e capaz de crescer até perto de três pontos percentuais ao longo das próximas duas décadas.

A capacidade ainda elevada de participar no mercado do trabalho dos portugueses é explicada, sobretudo, com a cada vez maior atividade das mulheres, à medida que as gerações se substituem e entram no mercado de trabalho jovens mulheres nascidas após o 25 de abril, praticamente em níveis iguais aos dos homens. Entre as gerações nascidas na década de 1980, a taxa de atividade das mulheres estava no ano passado em 89%, quase a tocar os 91% dos homens da mesma geração.

“A taxa de atividade feminina tem vindo a aumentar ininterruptamente de geração em geração, convergindo nas gerações mais novas (nascidas após 1974) para níveis próximos da taxa de atividade masculina”, diz o estudo do Banco de Portugal, a assinalar uma “marcada transição geracional”.

O dividendo feminino do pós-25 de abril traduz-se numa subida de praticamente 10 pontos percentuais na taxa de atividade das mulheres nas últimas duas décadas, para uma média de 72,4%. Nos homens, a tendência é oposta. A percentagem dos disponíveis para trabalhar caiu já ligeiramente – em oito décimas para 78,1%.

Até 2040, o Banco de Portugal estima que o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho vai garantir um crescimento da taxa de atividade acima dos dois pontos percentuais, e mesmo acima da média da UE. Mas, a partir daí, avista-se o cenário de recuo.

As mulheres vão, neste período, apanhar os homens no mercado de trabalho, algo que será visível sobretudo nas gerações acima dos 55 anos. Mas vão também reformar-se mais tarde.

Reforma aos 69 anos chega em 2063

Outra das garantias de uma taxa de atividade mais alta e por mais tempo, a despeito do rigoroso inverno demográfico, são as alterações da lei quanto à idade de aposentação. Segundo o Banco de Portugal, com as regras que atrelam a idade legal de reforma à esperança média de vida, os portugueses vão já em 2063 poder reformar-se apenas aos 69 anos. Significa uma subida de três anos que decorre de cinco anos de ganhos de longevidade estimados até 2070.

Infografia: Mónica Monteiro

Infografia: Mónica Monteiro

Em termos efetivos, e apesar de a idade de aposentação só ter aumentado cinco meses desde 2015, os portugueses estão já a reforma-se mais tarde. A média de idades nas reformas da Segurança Social aumentou já em um ano até 2018, para os 64,2 anos. Na Caixa Geral de Aposentações a subida foi de ano e meio, para 62,6 anos.

Segundo o Banco de Portugal, a tendência vai aprofundar-se, com maior peso entre as mulheres. Até 2070, a idade efetiva de passagem à reforma entre as trabalhadoras deverá subir em três anos, e nos homens apenas dois anos.

Infografia: Mónica Monteiro

Infografia: Mónica Monteiro

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