União Europeia

Entre aplausos e apupos, Merkel manda recados aos “egoísmos nacionais”

Angela Merkel, chanceler alemã. Fotografia: Fabrizio Bensch / Reuters
Angela Merkel, chanceler alemã. Fotografia: Fabrizio Bensch / Reuters

A chanceler alemã fala perante os deputados do Parlamento Europeu no âmbito de um ciclo de debates com chefes de Estado que arrancou em janeiro

A pontualidade foi germânica. Eram 15h03 em Estrasburgo quando Angela Merkel entrou no hemiciclo do Parlamento Europeu. Ouviram-se aplausos, sobretudo, mas também algumas vaias. Foram, aliás, vários os momentos de protesto entre os eurodeputados, em reação às palavras da chanceler alemã. Os apupos mais audíveis aconteceram quando Merkel defendeu, com veemência, a necessidade de ser criado um exército europeu comum.

Ao longo do discurso de meia hora, foram vários os recados deixados por Merkel aos países europeus. Itália não escapou, quando a chanceler afirmou que “quem despreza os seus deveres e não leva a sério problema da dívida põe em causa toda a Europa”.

“Temos de superar os egoísmos nacionais”, sublinhou Merkel. “Solidariedade” foi a palavra mais repetida pela líder alemã ao longo da intervenção.

“Apesar da nossa diversidade e das diferenças das nossas origens, sabemos mostrar vontade de nos entendermos. Quando falei pela primeira vez aqui, há 11 anos, falei da diversidade que nos une ao invés de nos separar. Falei do valor da liberdade e diversidade da Europa e da tolerância, que é a alma da Europa. Isto é fundamental e imprescindível”, destacou.

Veja aqui a transmissão em direto do discurso de Angela Merkel

Sublinhando os fenómenos que nos últimos anos abalaram a Europa, como o Brexit (que “vai dar muito trabalho”, nas palavras da chanceler), a crise da dívida, a crise migratória ou os ataques terroristas, Merkel afirmou que face a estas dificuldades, “a tolerância deve continuar a ser a base da Europa”, e que sem solidariedade a comunidade “não existe”.

Depois, tocou em feridas concretas, e abertas. Referiu que os países que colocam em causa a liberdade de imprensa, a unidade e determinação da UE em assuntos de direitos humanos e quem não leva a sério o problema da dívida é uma ameaça não só para si próprio, mas para toda a Europa.

“Só temos força lá fora se soubermos falar em uníssono. Temos de superar os egoísmos nacionais”.

O exército da polémica

A resposta europeia à crise migratória foi o principal foco do discurso de Angela Merkel. A chanceler reconheceu que a solução só começou a ser pensada a partir de 2015, mas que desde então o esforço para combater o problema tem sido uma prioridade.

“O respeito por todos não é incompatível com os nossos interesses. Devemos todos proteger as populações afetadas por catástrofe ou migrações”.

Sobre este tema, Merkel destacou que a Europa tem de “pegar nas rédeas” do seu destino se quiser “continuar a existir enquanto comunidade”, e que “a longo prazo deve ter maior capacidade de atuação”. Aqui, a chanceler defendeu a criação de um Conselho Europeu de Defesa, “em que decisões importantes possam ser tomadas depressa”.

Mas defendeu também que a Europa deve “trabalhar com uma visão de longo prazo e dotar-se de exército europeu”, complementar à NATO, porque “seria mais fácil cooperar se, em vez de vários exércitos, só tivéssemos um. Trabalharmos de mãos dadas não me parece uma contradição”, apelou, por entre ruidosos protestos dos eurodeputados, que levaram o presidente do Parlamento, Antonio Tajani, a afirmar que “não sabia que havia lobos neste parlamento”.

A chanceler confessou que a sintonia europeia no que toca ao tema das migrações “não é a que desejaria”, e que é necessário um caminho comum e “regras para lidar com questões humanitárias sensiveis”.

“A Europa tem de criar laços, mas isso não quer dizer que Europa tenha de estar em todo o lado. A Europa é a nossa melhor oportunidade para a paz e segurança a longo prazo”, atirou.

Merkel agradeceu ainda ao fundo de investimento criado por Jean Claude Juncker, que vai permitir injetar 350 mil milhões de euros “em vários objetivos, nomeadamente a segurança, o que é um contributo notável para a nossa prosperidade”.

Destacou que “uma união económica estável é importante”, nomeadamente com projetos como o mecanismo de estabilidade, a união bancária e o sistema europeu de garantia de depósitos, sobre o qual Alemanha e França “vão apresentar um projeto em concreto até dezembro”.

“Nacionalismos não devem prosperar”

Entre os desafios que a Europa tem de enfrentar no imediato, Merkel apontou ainda a “tributação na esfera digital”, dizendo que não é uma questão de “se”, mas de “como”. É uma área em que o Velho Continente “deve dar o primeiro passo” e não esperar pela “última da hora” para agir.

“Ao contrário do que acontecia há cem anos, as grandes inovações não provêm hoje da Europa, vêm da China e dos EUA. Mas tudo farei para que a Europa esteja na linha da frente em temas como o futuro da mobilidade, a computação quântica e a inteligência artificial. Temos de apostar na investigação em comum”.

A chanceler concluiu com um apelo: que “os nacionalismos não voltem a prosperar na Europa” e, nesse sentido, argumentou que “pelos valores da solidariedade e tolerância vale a pena o esforço”.

O discurso de Angela Merkel é o ponto alto da sessão parlamentar que decorre esta semana em Estrasburgo. A chanceler alemã fala perante os deputados do Parlamento Europeu, no âmbito de um ciclo de debates com chefes de Estado e de Governo que começou em janeiro. No mês de março foi a vez do primeiro-ministro português, António Costa, falar à Europa.

Em causa está a visão dos líderes sobre o futuro da União Europeia, numa altura em que os desafios se acumulam. O Brexit, a ascensão dos movimentos nacionalistas na Europa e a gestão do orçamento europeu na próxima década são alguns dos temas que têm sido abordados, e sobre os quais gira a expetativa em torno da intervenção da chanceler alemã.

Este deverá ser também o último discurso de Merkel perante a atual composição do Parlamento Europeu, que vai a eleições em maio do próximo ano. É ainda a primeira intervenção da líder alemã em Estrasburgo desde que anunciou que não se vai recandidatar ao cargo de chanceler nas eleições de 2021.

Jornalista em Estrasburgo a convite do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal

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