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Metalurgia cresce o dobro da média nacional mesmo com EUA e China a cair

Pedro Granadeiro/Global Imagens
Pedro Granadeiro/Global Imagens

Indústrias tradicionais em terreno positivo, com exceção do calçado, que cai quase 9%. Têxtil e vestuário está estável com 0,2% mais face a 2018

Não há abrandamento económico que pare a indústria metalúrgica e metalomecânica. O campeão das exportações, que sozinho assegura 23% das vendas externas da indústria transformadora, destinou, nos primeiros quatro meses do ano, 6.747 milhões de euros ao exterior, o que representa um aumento de 9% face a igual período do ano passado, mais do dobro da média nacional, que se ficou pelos 4,36%. Só as vendas para a Alemanha cresceram 14,3%, impulsionadas pela indústria automóvel. Em sentido contrário estão os negócios com os Estados Unidos e a China, a cair, respetivamente, 16,3% e 58,7%, com o metal nacional a ser apanhado nas malhas da guerra comercial entre os dois países.

“As exportações estão a crescer muito bem, em termos globais, e menos bem fora da União Europeia, onde estamos a sentir os efeitos colaterais da guerra comercial e das políticas restritivas de Donald Trump. Mas está é uma situação que parece estar para durar, já que tudo indica que poderá ser reeleito”, diz o vice-presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins (AIMMAP). Mas como os Estados Unidos são um “mercado incontornável”, e as empresas “não fazem política”, não há outra alternativa, diz Rafael Campos Pereira, que não seja “manterem-se resilientes”. O papel da associação é ajudá-las a entrar no mercado e, por isso, em setembro do próximo ano, haverá, pela primeira vez, uma delegação de empresas portuguesas a expor na IMTS, feira de tecnologia para a indústria, em Chicago.

Rafael Campos Pereira destaca, ainda, a “trajetória notável” do mercado italiano, no qual as exportações da metalurgia e metalomecânica cresceram 41,3% desde o início do ano. A explicação está numa certa desindustrialização italiana, que leva compra em Portugal de “peças técnicas para todo o tipo de indústria e de produtos de consumo que passaram a ser comprados fora em vez de produzidos internamente”.

Um fenómeno também sentido pela indústria têxtil e do vestuário (ITV) que está a crescer 6,1% no mercado italiano desde o início do ano. “Itália foi perdendo a sua fileira estruturada e orientada para a inovação e já não oferece às grandes marcas que tem a lógica de engenharia de produto que encontram em Portugal, que está a ganhar um estatuto de nova Itália, enquanto criador de têxteis inovadores e de soluções de serviço”, diz Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP).

No total, as exportações da ITV estão em linha com o ano anterior – +0,2% -, embora com performances distintas por subsetores. Os têxteis crescem 2,7%, enquanto o vestuário e os têxteis-lar recuam 0,4 e 2,4% respetivamente. Ao contrário da indústria metalúrgica, é nos mercados extracomunitários que as vendas da ITV nacional se estão a portar melhor, com crescimentos a dois dígitos. Os Estados Unidos, por exemplo, cresceram mais de 16% e o Canadá 28,8%.

“A economia americana continua de boa saúde, apesar do senhor Trump ou por causa dele. Na verdade, a economia reage aquilo que são os estímulos de uma política mais amiga dos negócios e da iniciativa privada com grande pujança”, destaca Paulo Vaz, que admite ser difícil antecipar como se vai comportar o ano. “Não consigo definir tendências. Desde o início do ano tivemos dois meses de crescimento, um de queda abrupta e outro de recuperação, não sei o que vai acontecer daqui em diante. As empresas têm que estar atentas e não serem complacentes. Terem de saber ler os sinais dos mercados, serem mais exigentes com a sua própria gestão, diversificarem destinos e terem mais atenção ao comércio eletrónico”, refere, sublinhando: “Este não é um negócio para amadores, cada vez mais é para profissionais”.

Infografia JN

Infografia JN

Na fileira da madeira e mobiliário, as exportações crescem 3%, mas as importações avançam 6%. Em causa está, sobretudo, a falta de matéria-prima para dar resposta ao crescimento das exportações dos restantes setores, obrigando à sua importação para o fabrico de embalagens de madeira, por exemplo. O que acaba por ser, também, uma forma de exportação indireta, lembra Vítor Poças, presidente da associação das madeiras, a AIMMP. Por outro lado, a retoma do setor imobiliário e a “crescente concorrência” asiática ajuda a explicar o aumento das importações de mobiliário, refere o dirigente empresarial. Que lembra que o saldo da balança comercial se manteve sempre positivo entre 2010 e 2018, com as exportações a crescerem mil milhões de euros neste período contra os 500 milhões das importações.

A crescer, embora a um ritmo menor do que o habitual está, também, a cortiça, que em 2018 atingiu o seu máximo histórico ultrapassando os mil milhões de vendas ao exterior. Este ano “ainda é cedo” para fazer avaliações, diz João Rui Ferreira, presidente da APCOR. As rolhas asseguram 71% das vendas do setor e este é um mercado com uma décalage significativa face à vindima. Ou seja, os vinhos são engarrafados, no mínimo, um a dois anos depois da sua produção. E 2017 foi “o ano da colheita de vinho mais pequena em todo o mundo desde a II Guerra Mundial”, o que penaliza as vendas, reconhece João Rui, pelo que, o crescimento, mesmo que apenas de 2,2%, nos primeiros quatro meses do ano é visto como “extremamente positivo”.

O calçado não tem igual sorte. As exportações estão a cair 8,9%, apesar do crescimento nos Estados Unidos e no Japão, de 7 e 7,5% respetivamente, e das vendas para a China mais do que duplicarem face ao ano anterior. A questão é que mais de 85% do valor gerado pelo setor é obtidos nos mercados comunitários que estão, generalizadamente, em queda. “Não é uma questão só nossa, é um cenário visível um pouco por toda a Europa. Sentimos que o mercado está a mudar e o setor do retalho está a passar por uma fase de ajustamento, sobretudo no centro da Europa, que levou ao fecho de quase um milhar de sapatarias tradicionais nos últimos anos”, diz o diretor de comunicação da associação do calçado, a APICCAPS. A isto junta-se o crescimento do comércio online, mas, também, as questões climatéricas, com uma série de estações atípicas que “têm penalizado” as vendas de calçado.

Mas não só. Há, também, a questão do preço das matérias-primas. “O preço do couro recuou 30% nos mercados internacionais nos últimos cinco anos, o que ajuda a explicar alguma redução no preço médio do calçado português”, defende Paulo Gonçalves. Que invoca, ainda, as alterações do padrão de consumo, com o calçado desportivo a ganhar primazia sobre os sapatos clássicos que dominavam a oferta nacional. O que significa que “a indústria portuguesa conseguiu crescer 5% ao ano num período em que teve de se reformular completamente”. Olha, por isso, para os números de 2019 com “alguma tranquilidade”. “Nem de outra forma poderia ser. Continuamos a fazer o nosso trabalho de casa, com ações de prospeção, e queremos reforçar a presença nos EUA e no Canadá, bem como no sudeste asiático, onde acreditamos que há margem de crescimento”, frisa Paulo Gonçalves.

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